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  • há 2 dias
A série de reportagens “Cadê Meu Bebê” da TV Vitória investiga o desaparecimento de crianças adotadas de forma irregular durante a ditadura militar no Brasil, revelando histórias de famílias que buscam respostas há mais de 50 anos. A narrativa se concentra na história de Lívia Maia, que foi adotada sem documentos após um encontro casual […]

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Transcrição
00:01Três famílias, mais de 50 anos de angústia.
00:18Uma investigação jornalística de mais de três anos, novas provas e informações.
00:28Uma infinidade de perguntas sem respostas. Mistérios muito longe do fim.
00:35Que história maluca essa? É a primeira vez que alguém está me falando a respeito disso.
00:42Nenhuma pessoa lembra ou tem menção desse funcionário, desse senhor Milton.
00:51Lá atrás eles tinham as suas dificuldades. Nós estamos falando de 20 anos atrás.
01:07Na quarta e última reportagem da série Cadê Meu Bebê?
01:12O jornalismo da TV Vitória pretende mostrar para você que as histórias contadas pelas famílias desta série
01:20não se reduzem à teoria da conspiração ou algo improvável.
01:25Buscamos materializar com evidências reais e fatos históricos que, o que as famílias acreditam que aconteceu com elas,
01:35de fato aconteceu com muitas outras.
01:37Para isso, a partir de agora, você vai conhecer uma história que vem lá do sul do país.
01:43A história da Lívia.
01:45Meu nome é Lívia Maia. Eu tenho 45 anos.
01:51Lívia Maia vive em Curitiba, no Paraná.
01:54Se mudou para o sul, ainda criança.
01:57Segundo ela, sempre conheceu sua origem.
01:59Meu pai queria muito uma filha.
02:02Ele tinha três filhos homens.
02:04Ele queria muito uma filha menina.
02:07Aí decidiu me adotar.
02:16Um encontro casual em um dia chuvoso.
02:20Foi assim que a mãe adotiva de Lívia contou como conseguiu adotá-la.
02:25Diz que uma enfermeira, até então desconhecida, foi quem providenciou a criança.
02:31Minha mãe adotiva estava dirigindo, estava com uma amiga dela e estava muita chuva naquele dia.
02:40Muita, muita chuva.
02:43Aí ela quase que atropelou uma enfermeira.
02:46Era uma moça que estava com uma maleta, que estava levando alguns materiais para o laboratório do hospital.
02:56Quando ela quase atropelou a enfermeira, ela abriu o vidro e ofereceu uma carona para a enfermeira.
03:04Aí a enfermeira aceitou.
03:06Aí ela deixou a enfermeira até o hospital.
03:09Aí dali começou.
03:11As duas trocaram o telefone.
03:13E daí a minha mãe adotiva perguntou para essa enfermeira se teria possibilidade de uma adoção, né?
03:23Se ela sabia de quem adotaria, né?
03:27Dali uma semana, mais ou menos, a enfermeira ligou para minha mãe dizendo que tinha nascido uma menininha.
03:36Tinha nascido uma menininha e tinha nascido um menino também, no mesmo dia que eu nasci, no mesmo horário.
03:44Aí ela foi correndo na mortalidade, né?
03:51Depois de adulta, a curiosidade começou a incomodar e ela resolveu procurar pelos pais biológicos.
03:57É aqui que a história de Lívia se cruza com as das famílias de nossa série de reportagens, por conta
04:05das semelhanças.
04:07Uma criança, oriunda de um hospital público de Vitória, no período da ditadura militar.
04:13Adotada sem nenhum registro, nenhum documento, nada.
04:18Eu não tenho registro, nada nos meus pais biológicos.
04:21Eu até, inclusive, até conversei com a equipe que está me ajudando, né?
04:27Lá no Espírito Santo, se tem a possibilidade de eu conseguir o prontuário e tudo, e até agora, nada.
04:34Ela conta que tentou de tudo para encontrar a verdade sobre a própria história.
04:40Eu já fiz de tudo, já.
04:42Já fui atrás da mortalidade para ver se eu conseguia meu prontuário.
04:47Já entrei na justiça.
04:49Já fiz de tudo, assim.
04:52Eu tenho muita vontade de conhecer.
04:54Muita vontade de saber quem são, né?
05:03A história de Lívia é um exemplo real, de carne e osso, do que era possível na época da ditadura.
05:10Uma enfermeira que consegue para uma desconhecida uma criança sem nenhuma transparência, formalidade, documento.
05:22Mais evidências vem dos livros de história que Pedro, historiador, professor referência em ditadura militar e membro da Comissão da
05:31Verdade, conhece bem.
05:33Para ele, tudo isso é factível, pois a escuridão em órgãos e registros estatais era a regra.
05:42Vivíamos a época do arbítrio.
05:44A ditadura militar teve como característica o silêncio, o sigilo, o apagamento de evidências.
05:52Então, provavelmente, nas universidades, no setor público como em geral, houve sim uma política sistemática de destruição de documentos para
06:03impor uma versão silenciosa desse período da história do Brasil.
06:07Outra característica da ditadura é que ela foi muito ciosa em não deixar rastros, não deixar evidências, entendeu?
06:17Você não encontra fotografias de pessoas sendo torturadas, você tem muitos documentos como atestados de óbito, fraudados.
06:25Contamos para ele todas as histórias que mostramos na série.
06:29Perguntado se acredita na desconfiança das famílias de que seus filhos foram levados vivos do hospital, ele não tem a
06:38menor dúvida.
06:38Infelizmente, sim. Porque, historicamente, em outros períodos autoritários, em outros países...
06:45Por exemplo, na Argentina, é muito comum, crianças, foi muito comum, durante a última ditadura na Argentina, entre 1973 e
06:5483,
06:55relatos de famílias de presos políticos que os pais foram mortos e as crianças foram raptadas e entregues para adoção.
07:03E no Brasil, infelizmente, como eu falei, desaparecer com documentos, tornar documentos sigilosos,
07:12fraudar documentos, seja em questões patrimoniais ou até mesmo em registros policiais, era algo comum, corriqueiro, fazia parte.
07:24A esperança em descobrir o paradeiro daqueles bebês alimenta essas famílias,
07:29que, mesmo diante de tantos obstáculos, permanecem incansáveis na busca por respostas.
07:37Que alguém que souber disso já tem muito tempo, que se alguém que saiba já está bem, velhinho e tudo,
07:44né?
07:45Que não leve isso para o túmulo.
07:47Fala, né? Fala o que sabe, para, quem sabe, ainda poder consertar alguma coisa e poder dar esse final de
07:56história, né?
07:58Finalzinho aí, minha mãe já está com 80 anos, 50 anos de, eu sempre falo assim, de um coração que
08:05sangra, sem parar com essa dor,
08:07é uma dor que não cessa, uma coisa que não cicatriza. Então, era o que eu queria, era isso.
08:13Como quem espera a volta de alguém, deixando sempre a porta entreaberta, sonhar com um reencontro, sustenta a fé da
08:21família Olunder.
08:22Sonhei que alguém falava, achamos sua irmã, só que aí no impulso eu acordei. E eu creio que esse sonho
08:30vai se realizar.
08:31Ele sabe de tudo, aí eu sempre falo, Senhor, apressa-te. São 50 e tantos anos. Então, eu quero uma
08:40resposta sobre isso, para poder descansar e contar essa vitória.
08:47Deixar as lembranças de um passado amargo para abraçar a verdade motiva esses familiares.
08:53Nós, nossa, imagina se a gente encontrar. Que felicidade, né? Ele saber que tem um monte de irmãos, né? E
09:04a gente saber que ele está vivo.
09:07Deixar para trás as marcas do tempo impiedoso, para quem sabe, viver uma nova história, seja em sonho, abraço ou
09:16milagre, são mães que esperam sem hesitar.
09:20Eu falo sempre que eu tinha a esperança de encontrar meu filho, homem feito, pai, uma família feita e eu
09:33puder chegar para ele e falar,
09:34Meu filho, eu nunca te abandonei.
09:40Eu nunca te abandonei meu filho.
09:45Se eu pudesse falar.
10:05Eu nunca te abandonei meu filho, homem feito, pai, pai, pai, pai, pai, pai, pai, pai, pai, pai, pai, pai,
10:19pai, pai, pai, pai, pai, pai, pai, pai, pai, pai, pai, pai, pai, pai, pai, pai, pai, pai, pai, pai,
10:19pai, pai, pai, pai, pai, pai, pai, pai, pai, pai, pai, pai, pai, pai, pai, pai, pai, pai, pai, pai,
10:19pai, pai, pai, pai, pai, pai, pai, pai, pai, pai, pai, pai, pai, pai, pai, pai, pai, pai, pai, pai,
10:20pai, pai, pai, pai, pai, pai, pai, pai, pai, pai, pai, pai, pai, pai, pai, pai, pai, pai, pai, pai,
10:20pai, pai, pai, pai, pai, pai, pai, pai, pai, pai, pai, pai,
10:22Obrigado.

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