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  • há 2 dias


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Transcrição
00:13No horizonte, uma força implacável avançava.
00:18O império mais poderoso e temido do seu tempo vinha exigir submissão.
00:26As muralhas de Jerusalém caíram.
00:30Os portões foram destruídos.
00:33O templo foi profanado.
00:35Príncipes foram acorrentados e levados para terras distantes, longe de tudo o que conheciam.
00:44Entre eles, seguia um jovem.
00:46Sem exército.
00:48Sem trono.
00:49Sem saber que seu nome atravessaria séculos.
00:54Daniel
01:03O céu sobre Jerusalém estava pesado.
01:07A fumaça subia entre colunas quebradas e o som distante de metal contra pedra ecoava pelas ruas devastadas.
01:18Portões haviam sido violados, muralhas derrubadas.
01:22E o povo caminhava em silêncio, cercado por soldados estrangeiros.
01:30O templo, que um dia fora sinal da presença do Altíssimo, agora era saqueado.
01:36Objetos sagrados eram retirados como simples troféus de guerra, enquanto o nome de Deus parecia desaparecer entre os gritos dos
01:46vencidos.
01:49Entre os jovens levados cativos, havia um silêncio diferente.
01:57Daniel caminhava com o olhar firme, mesmo com as mãos presas.
02:04Ao seu lado, Hananias, Misael e Azarias tentavam compreender o que seus olhos viam.
02:12Não era apenas a perda da terra, mas a sensação de que o mundo conhecido havia ruído.
02:18Ainda assim, algo permanecia intacto dentro deles.
02:31A marcha seguiu por dias, atravessando desertos e cidades estranhas.
02:38Até que as portas da grande Babilônia se ergueram diante deles.
02:43Torres imensas, muralhas largas, deuses esculpidos em pedra e ouro observavam tudo.
02:49O poder humano ali não se escondia.
02:53Ele se exibia.
02:58Os jovens foram levados ao palácio, onde oficiais avaliavam rostos, corpos e mentes como quem escolhe instrumentos.
03:08Aspenas, chefe dos oficiais, disse
03:11Estes servirão.
03:12São fortes, inteligentes.
03:15O rei deseja que aprendam nossa língua, nossos costumes e que se tornem como nós.
03:22Novos nomes foram dados.
03:24Uma nova identidade era imposta.
03:27O que vinha de Judá deveria ser apagado.
03:30Daniel ouviu seu novo nome, mas algo dentro dele permaneceu inalterado.
03:38Naquela mesma noite, bandejas com alimentos do rei foram colocadas diante deles.
03:45Carnes sacrificadas a ídolos, vinho consagrado a falsos deuses.
03:49O luxo carregava contaminação.
03:53Daniel olhou para os amigos e falou em tom baixo, decidido.
04:06Eles pediram audiência com o oficial responsável.
04:10O homem os observou com impaciência.
04:14Vocês querem desafiar a ordem do rei?
04:16Não pedimos privilégio.
04:18Apenas que nos permitam não nos contaminar.
04:21Faça um teste.
04:22Dez dias.
04:23Dê-nos legumes e água.
04:24Depois julgue com seus próprios olhos.
04:27O oficial hesitou.
04:29O risco era grande.
04:31Mas algo na firmeza daquele jovem o fez concordar.
04:38Os dias passaram.
04:40Enquanto outros se entregavam aos excessos do palácio,
04:43Daniel e seus amigos permaneciam simples, silenciosos, fiéis.
04:51No décimo dia, seus rostos estavam mais fortes,
04:55seus olhos mais vivos,
04:57suas posturas mais firmes que os demais.
05:02Como isso é possível?
05:04Murmurou o oficial, atônito.
05:08Não era possível aos olhos humanos.
05:11Mas não era o homem quem governava aquela história.
05:19O tempo avançou.
05:21A Babilônia seguia sua rotina de poder e ostentação.
05:26Daniel crescia em sabedoria, discernimento e graça diante de todos.
05:31Algo invisível o acompanhava.
05:36Enquanto os corredores do palácio ecoavam conversas sobre deuses e impérios,
05:42o Deus de Israel permanecia silencioso,
05:46mas atento.
05:49E então, numa noite inquieta, o rei da Babilônia acordou tomado por pavor.
05:56Um sonho havia atravessado sua mente como uma lâmina.
06:00Um sonho que nenhum Deus parecia explicar.
06:04Enquanto Nabucodonosor buscava respostas,
06:07uma tensão invisível começava a se formar.
06:10O futuro dos reinos estava prestes a ser revelado.
06:14E Daniel ainda não sabia que seria chamado para decifrar o que abalaria impérios.
06:20O palácio amanheceu em tensão.
06:24Servos caminhavam apressados,
06:26guardas murmuravam entre si
06:28e portas eram abertas com brusquidão.
06:32Nabucodonosor não havia dormido.
06:34O sonho ainda queimava em sua mente
06:36como um presságio impossível de ignorar.
06:39Algo colossal havia sido revelado
06:42e logo retirado de sua memória.
06:45Restara apenas o terror.
06:48Tragam todos.
06:49Magos, encantadores, sábios.
06:53Quero respostas.
06:54O salão se encheu rapidamente.
06:57Homens orgulhosos,
06:58vestidos com símbolos de seus deuses,
07:01aguardavam confiantes.
07:04O rei caminhou lentamente diante deles.
07:11Tive um sonho
07:13e exijo que me digam o que sonhei
07:16e o que significa.
07:19O silêncio caiu como pedra.
07:24Ó rei, conte-nos o sonho.
07:27Então lhe daremos a interpretação.
07:31O olhar de Nabucodonosor endureceu.
07:34Se fossem realmente sábios,
07:36saberiam.
07:37Se não me disserem o sonho,
07:40morrerão.
07:41Se disserem,
07:42receberão honra e riquezas.
07:45O medo tomou conta do salão.
07:48Coxichos, passos inquietos,
07:50rostos pálidos.
07:51Um deles ousou falar novamente.
07:55Nenhum homem pode fazer isso.
07:57Somente os deuses.
07:59Antes que terminasse, o rei explodiu.
08:02Então morrerão todos.
08:05A sentença se espalhou rapidamente.
08:08Soldados partiram para executar os sábios da Babilônia.
08:13A ordem não fazia distinção.
08:16Daniel e seus amigos também estavam incluídos.
08:21Quando Arioque, chefe da guarda, chegou até Daniel,
08:25encontrou algo inesperado.
08:27Calma.
08:30Por que tanta pressa em matar?
08:34Ordem do rei.
08:36Ele perdeu a paciência e a confiança.
08:40Daniel pediu tempo.
08:42Um pedido ousado.
08:44Mas algo em sua postura convenceu o comandante
08:47a levá-lo até o rei.
08:50Diante de Nabucodonosor,
08:52Daniel falou com respeito,
08:54mas sem medo.
08:57Conceda-me um pouco de tempo.
08:59A resposta virá.
09:01O rei o observou longamente.
09:06Se falhar, morrerá com os outros.
09:09Naquela noite, Daniel voltou apressado para casa.
09:14Reuniu os amigos.
09:15O perigo agora era real e imediato.
09:19Precisamos clamar.
09:20Se Deus não falar, todos morreremos.
09:23Eles se ajoelharam.
09:25Não houve discursos longos.
09:27Apenas súplica.
09:29O silêncio parecia esmagador.
09:33Mas, enquanto a Babilônia dormia,
09:36algo se movia além do visível.
09:41Durante a noite, a resposta veio.
09:43O sonho foi revelado.
09:45Cada detalhe.
09:47Cada significado.
09:50Daniel se levantou antes do amanhecer,
09:52com os olhos marejados.
09:54Bendito seja o nome do Senhor.
09:56É ele quem muda os tempos e as estações.
10:00É ele quem remove reis e estabelece reis.
10:03Levado novamente ao palácio,
10:05Daniel pediu que suspendessem as execuções.
10:09O salão estava tenso quando ele entrou.
10:11O rei o encarou, desconfiado.
10:15Podes me dizer o sonho?
10:18Nenhum sábio pode.
10:20Mas há um Deus nos céus que revela mistérios.
10:24E então, Daniel descreveu a visão.
10:29A grande estátua, a cabeça de ouro,
10:32o peito de prata, o ventre de bronze,
10:35as pernas de ferro, os pés misturados com barro.
10:40O rei empalideceu.
10:42Cada palavra era exata.
10:47Tu és a cabeça de ouro.
10:49Depois de ti, outros reinos se levantarão.
10:52Mas um dia,
10:54uma pedra não cortada por mãos humanas
10:57destruirá todos eles
10:59e estabelecerá um reino eterno.
11:02O salão estava imóvel.
11:04O orgulho do rei foi quebrado por algo maior que ele.
11:09Nabucodonosor desceu do trono
11:11e se prostrou diante de Daniel.
11:14Verdadeiramente, o vosso Deus é Deus dos deuses.
11:20Daniel foi exaltado.
11:23Seus amigos receberam autoridade.
11:25Mas, enquanto Babilônia celebrava,
11:28algo maior se desenhava no horizonte.
11:31O sonho não falava apenas daquele tempo.
11:34Falava do fim.
11:36E, silenciosamente, o palco começava a ser preparado para um teste ainda mais severo.
11:43Onde a fidelidade seria provada pelo fogo.
11:48O tempo passou e a Babilônia voltou a respirar orgulho.
11:51O impacto do sonho havia sido real, mas não permanente.
11:57O rei ergueu uma imagem colossal de ouro,
12:00reluzente sob o sol,
12:02visível a quilômetros de distância.
12:05Era mais do que uma obra monumental.
12:07Era uma declaração.
12:09O poder humano não seria substituído.
12:13O império não cairia.
12:15O rei havia decidido transformar a profecia em desafio.
12:21Arautos percorreram as províncias,
12:24anunciando o decreto.
12:27Ao som da trombeta, da flauta e de toda a música,
12:30todos devem se prostrar diante da imagem do rei.
12:34Quem não se dobrar,
12:36será lançado na fornalha ardente.
12:40Autoridades, governadores e povos se reuniram.
12:43O campo estava tomado por vozes, cores e tensão.
12:49Quando a música ecoou,
12:51uma onda humana se curvou diante do ouro.
12:56Mas, no meio da multidão ajoelhada,
12:59três figuras permaneceram de pé.
13:02Alguns perceberam,
13:04outros fingiram não ver,
13:06mas a denúncia não tardou.
13:10Oh, rei, há homens que não te obedecem.
13:13Eles não se prostram diante da imagem.
13:17Hananias, Misael e Azarias
13:19foram levados à presença de Nabucodonosor.
13:22O rei os encarou,
13:24tentando conter a fúria.
13:27É verdade?
13:28Se não se prostrarem, morrerão.
13:30Que Deus poderá livrá-los das minhas mãos?
13:34Os três trocaram um olhar rápido.
13:37Não houve hesitação.
13:39Não precisamos nos defender.
13:41Nosso Deus pode nos livrar.
13:44Mas mesmo que não o faça,
13:46não serviremos aos teus deuses.
13:49O rosto do rei se transformou.
13:52A ordem foi imediata.
13:56Aqueçam a fornalha sete vezes mais.
14:03Soldados fortes os amarraram
14:05e os conduziram ao fogo.
14:13O calor era tão intenso
14:15que os próprios guardas
14:16tombaram mortos ao se aproximar.
14:19Os corpos dos jovens
14:20desapareceram entre as chamas.
14:24O rei observava,
14:26satisfeito,
14:27até que algo mudou.
14:31Não lançamos três homens?
14:33Sim, ó rei.
14:35Então por que vejo quatro?
14:38E o quarto?
14:39Parece um filho dos deuses.
14:43A música cessou.
14:45O riso morreu.
14:48O fogo que consumia tudo
14:50não os tocava.
14:51As cordas haviam se desfeito,
14:53mas eles permaneciam ilesos,
14:55caminhando entre as chamas.
14:58O rei se levantou,
15:00tomado por temor.
15:04Saiam, servos do Deus Altíssimo!
15:07Eles saíram.
15:08Nenhum cheiro de fumaça,
15:10nenhum fio de cabelo queimado.
15:13O silêncio que se seguiu
15:14foi absoluto.
15:17Bendito seja o Deus deles.
15:19Não há outro que possa livrar assim.
15:23Um novo decreto foi proclamado.
15:26Honra foi concedida.
15:28Mas, enquanto o povo celebrava,
15:31algo ainda precisava ser tratado.
15:33O coração do rei havia sido abalado,
15:36mas não quebrado.
15:37O orgulho continuava vivo,
15:40oculto sob palavras de reverência.
15:42E Deus, paciente,
15:45preparava um aviso final.
15:47Um sonho não para revelar reinos,
15:49mas para revelar o próprio rei.
15:56A paz aparente voltou a cobrir Babilônia.
16:02Os dias eram de prosperidade,
16:05e o rei caminhava confiante
16:08entre colunas e jardins suspensos,
16:10contemplando a grandeza de tudo
16:12o que havia construído.
16:14As chamas da fornalha
16:16já eram lembrança distante,
16:19e o temor que um dia o visitara
16:21dera lugar à admiração por si mesmo.
16:26Naquele tempo,
16:27Nabucodonosor teve outro sonho.
16:30Diferente do primeiro,
16:32este não o perturbou de imediato,
16:35mas deixou um peso estranho em sua alma.
16:40Ele convocou novamente os sábios,
16:43mas nenhum conseguiu explicar
16:44o que havia visto.
16:48Por fim, Daniel foi chamado.
16:51O rei descreveu a visão
16:52com orgulho contido.
16:55Uma árvore gigantesca
16:56no meio da terra,
16:58alta, forte,
16:59visível a todos.
17:01Seus frutos alimentavam povos,
17:04suas sombras abrigavam animais,
17:06e aves faziam ninho em seus ramos.
17:09Mas, de repente,
17:10um mensageiro descia do céu
17:12e ordenava.
17:13Cortem a árvore,
17:15espalhem seus galhos,
17:17deixem apenas o toco,
17:18preso com ferro e bronze.
17:21Que o coração do homem
17:22se transforme em coração de animal,
17:25até que sete tempos
17:27passem sobre ele.
17:30Daniel permaneceu em silêncio.
17:32O rei percebeu.
17:35Não escondas nada,
17:37ainda que seja contra mim.
17:39Daniel respirou fundo.
17:41Sua voz saiu firme,
17:43mas carregada de pesar.
17:46Meu senhor,
17:47oxalá esse sonho fosse
17:49para teus inimigos.
17:50A árvore és tu.
17:52Cresceste.
17:53Te tornaste poderoso.
17:55Tua autoridade alcançou
17:56os confins da terra.
17:57Mas o decreto é este.
18:00Serás afastado dos homens.
18:01Viverás como animal.
18:03Comerás erva.
18:04Até reconheceres
18:05que o Altíssimo
18:06governa sobre os reinos.
18:08O rei ouviu.
18:09Sério.
18:11A esperança?
18:13Sim, se te humilhares.
18:17Se praticares justiça.
18:20Se reconheceres
18:21que o poder não vem de ti.
18:23O aviso foi dado.
18:25O tempo de graça começou.
18:27Mas os meses passaram.
18:29E nada mudou.
18:33Um dia,
18:35caminhando sobre o terraço do palácio,
18:37o rei contemplou a cidade abaixo.
18:41O sol refletia no ouro,
18:43nas muralhas,
18:44nos templos.
18:46Não é esta a grande Babilônia
18:48que eu construí com o meu poder
18:50para a glória da minha majestade?
18:53A frase mal havia terminado
18:55quando o céu respondeu.
18:57O reino te foi tirado.
18:59ecoou uma voz invisível.
19:02Naquele instante,
19:03a mente do rei se rompeu.
19:06O poder que dominava nações
19:08não conseguiu sustentar
19:09seu próprio ego.
19:11Ele foi afastado,
19:12perdeu a razão,
19:13viveu entre os animais.
19:16Seus cabelos cresceram como penas,
19:19suas unhas como garras.
19:21O rei tornara-se sombra do que fora.
19:24Os dias viraram estações.
19:26O orgulho se dissolveu na terra.
19:29Até que,
19:30ao final do tempo determinado,
19:32algo mudou.
19:33Nabucodonosor ergueu os olhos ao céu.
19:36Não havia discursos,
19:37apenas reconhecimento.
19:41Agora sei.
19:42Ele vive para sempre.
19:44Seu domínio não tem fim.
19:47A razão voltou.
19:48O trono foi restaurado.
19:50Mas o homem não era mais o mesmo.
19:53Diante da corte reunida,
19:55o rei falou com voz diferente,
19:57sem arrogância.
20:00Exalto e glorifico o rei dos céus.
20:04Todos os seus caminhos são justos.
20:07Ele pode humilhar os que andam na soberba.
20:10A Babilônia permaneceu de pé.
20:13Mas algo havia sido quebrado.
20:16O orgulho do maior rei da terra
20:19fora dobrado pela mão invisível que governa tudo.
20:22E enquanto um reinado se encerrava lentamente,
20:26outro,
20:27marcado por desprezo e profanação,
20:30se aproximava,
20:31sem perceber que sua noite final
20:33estava prestes a chegar.
20:40A cidade estava em festa.
20:43As muralhas permaneciam intactas,
20:45os portões fechados
20:47e o exército inimigo
20:49parecia distante demais
20:50para ameaçar a noite.
20:52Dentro do palácio,
20:54o som de taças se chocando
20:56misturava-se a risos altos
20:58e músicas estridentes.
21:00Belsazar, agora rei,
21:02ordenara um grande banquete.
21:06Mil nobres estavam reunidos,
21:09embriagados não apenas pelo vinho,
21:11mas pela sensação de invulnerabilidade.
21:16Nada pode nos alcançar.
21:19Babilônia é eterna.
21:21Belsazar sorriu,
21:22tomado por ousadia.
21:24Seus olhos vagaram pelo salão
21:26até que uma ideia lhe ocorreu,
21:28provocadora, blasfema.
21:31Tragam os utensílios de ouro e prata,
21:33àqueles que meu pai tomou
21:35do templo de Jerusalém.
21:41Houve um breve silêncio,
21:42quebrado logo pelo entusiasmo.
21:47Os objetos sagrados
21:49foram trazidos e distribuídos.
21:51O vinho foi servido neles.
21:54O sagrado foi reduzido
21:56a adereço de deboche.
21:59Bebamos aos deuses do ouro,
22:01da prata, do bronze e da pedra.
22:09Foi então que a música
22:10cessou abruptamente.
22:15Uma mão surgiu,
22:17etérea,
22:18destacando-se na parede iluminada.
22:20Não havia corpo,
22:22apenas dedos que escreviam lentamente,
22:24com precisão aterradora.
22:26O som das unhas
22:27raspando na pedra
22:29ecoou no salão.
22:30O riso morreu.
22:32O rosto de Belsazar
22:33empalideceu.
22:34Seus joelhos
22:35começaram a tremer.
22:38Quem...
22:38Quem pode explicar isso?
22:42Sábios foram chamados
22:44às pressas.
22:45Nenhum compreendeu.
22:47Nenhum ousou
22:48fingir compreensão.
22:49O pânico se espalhou.
22:53Até que a rainha-mãe
22:54entrou no salão,
22:55firme.
22:56Ó rei,
22:58há um homem em teu reino.
23:00Nele,
23:00há espírito dos deuses.
23:02Nos dias de teu pai,
23:04ele revelou mistérios
23:06que ninguém mais podia.
23:08Daniel foi chamado.
23:10Já idoso,
23:11entrou sem pressa.
23:15Seus olhos
23:16percorreram o salão,
23:18os utensílios profanados,
23:20os rostos embriagados.
23:22Não havia reverência
23:24em seu olhar.
23:27Ouvi dizer
23:28que podes interpretar.
23:30Se o fizeres,
23:32serás honrado.
23:33Daniel respondeu
23:35sem se curvar.
23:36Guarda teus dons,
23:38mas lerei a escrita.
23:40Tu sabias
23:41o que aconteceu
23:42com teu predecessor.
23:43Sabias como
23:44o Altíssimo
23:45o humilhou
23:46e ainda assim
23:47te exaltaste
23:48contra ele.
23:50O silêncio
23:51era absoluto.
23:52usaste os vasos
23:53sagrados
23:54para zombar
23:55e não glorificaste
23:57o Deus
23:57que sustenta
23:58tua vida.
24:03A escrita é esta,
24:05contado,
24:06pesado
24:07e dividido.
24:09Teu reino
24:10foi contado.
24:11Tu foste pesado
24:12e achado
24:13em falta.
24:14Teu reino
24:15será entregue.
24:16A sentença
24:18foi imediata.
24:19Honras
24:20foram dadas
24:21por formalidade,
24:22mas a noite
24:23já estava selada.
24:27Enquanto o banquete
24:28a adequava,
24:29os portões
24:30da cidade
24:30foram abertos
24:31por rotas invisíveis.
24:33O inimigo
24:34entrou sem resistência.
24:36O rei foi morto
24:37naquela mesma noite.
24:39A Babilônia
24:40caiu sem batalha,
24:42sem glória,
24:43sem aviso adicional.
24:46No dia seguinte,
24:47um novo governo
24:48se estabeleceu.
24:50E mais uma vez,
24:51Daniel permaneceu.
24:53Silencioso,
24:54fiel.
24:56Em meio
24:57à mudança
24:57dos tronos,
24:58ele continuava
24:59servindo a um reino
25:00que não podia
25:01ser tomado.
25:02Mas sua fidelidade
25:04seria colocada
25:05à prova
25:05uma última vez.
25:07E desta vez,
25:09não diante
25:10de reis embriagados,
25:11mas diante
25:13de leões famintos.
25:17O novo governo
25:19se estabeleceu
25:20com rapidez.
25:21Dário assumiu
25:22o trono
25:22entre acordos
25:23e vigilância,
25:24reorganizando províncias
25:26e nomeando
25:27administradores.
25:31Daniel,
25:32agora idoso,
25:33foi colocado
25:34acima dos demais.
25:36Sua integridade
25:37era conhecida,
25:38sua mente
25:39permanecia clara
25:40e sua fidelidade
25:42nunca fora manchada.
25:46isso despertou
25:48inveja.
25:49Homens
25:50se reuniram
25:50em segredo,
25:51observando
25:52seus passos,
25:54buscando falhas
25:55que não existiam.
25:57Não o pegaremos
25:58em corrupção.
25:59Ele é irrepreensível.
26:01Então usemos
26:02o Deus dele.
26:04Um decreto
26:05foi elaborado
26:06com aparência
26:06de honra
26:07ao rei.
26:09Por trinta dias,
26:11ninguém fará
26:12petição a Deus
26:13algum,
26:14nem a homem
26:15algum,
26:16exceto a ti.
26:18Quem desobedecer
26:20será lançado
26:20na cova
26:21dos leões.
26:23O rei,
26:23lisonjeado,
26:25assinou
26:25sem suspeitar.
26:28A notícia
26:30correu.
26:31Daniel
26:31soube do decreto.
26:33Não discutiu.
26:34Não protestou.
26:37Ao entardecer,
26:38subiu ao quarto,
26:40abriu as janelas
26:40voltadas para Jerusalém
26:42e se ajoelhou,
26:43como fazia
26:44todos os dias.
26:47Senhor,
26:48em tuas mãos
26:49entrego meu caminho.
26:51Foi visto.
26:52Foi denunciado.
26:55Dário percebeu
26:56tarde demais
26:57a armadilha.
26:58Tentou revogar
26:59o decreto,
27:00mas a lei
27:01era irrevogável.
27:02O rei
27:03chamou Daniel.
27:05O teu Deus
27:06poderá te livrar?
27:08Ele é fiel.
27:12Daniel foi lançado
27:13na cova.
27:15Uma pedra
27:16foi colocada
27:16sobre a entrada.
27:18O rei
27:18selou
27:19com seu anel.
27:23Aquela noite
27:24foi longa.
27:25Dário não comeu.
27:26Não dormiu.
27:28Ao amanhecer,
27:30correu
27:30até a cova.
27:33Daniel,
27:34o teu Deus
27:35pode livrar-te?
27:36Do fundo
27:37da escuridão,
27:38a voz
27:39respondeu,
27:40firme.
27:41Ó rei,
27:42vive para sempre.
27:44Meu Deus
27:45enviou o seu anjo
27:46e fechou a boca
27:47dos leões.
27:48Nada me aconteceu.
27:51O rei
27:52ordenou
27:52que o retirassem
27:53imediatamente.
27:54Daniel
27:55saiu ileso.
27:56Nenhuma marca.
27:58Nenhum ferimento.
28:01Os acusadores
28:02foram lançados
28:03na cova
28:03e não tocaram
28:05o chão
28:05antes de serem
28:06consumidos.
28:08Dário proclamou
28:09um novo decreto,
28:10não por medo,
28:11mas por
28:12reconhecimento.
28:13Em todo
28:14o meu reino,
28:16tremam diante
28:16do Deus
28:17de Daniel.
28:18Ele vive.
28:19Seu reino
28:20não será destruído.
28:22Os anos
28:23avançaram.
28:24Reis surgiram
28:25e desapareceram.
28:29Daniel permaneceu.
28:31Mas agora,
28:32não mais
28:33em cargos elevados.
28:34Passava longas noites
28:35em oração.
28:37Foi então
28:37que as visões
28:38vieram.
28:39Bestas
28:40emergindo
28:41do mar.
28:42Reinos
28:43se levantando
28:44e caindo.
28:45Chifres,
28:46guerras,
28:47opressão.
28:49Um filho
28:50do homem
28:50vindo sobre as nuvens,
28:52recebendo
28:53domínio eterno.
28:56O peso
28:57era grande.
29:00Até quando?
29:01A resposta
29:03não foi imediata.
29:04Houve silêncio,
29:05houve espera.
29:07Então,
29:08veio a voz.
29:09Veja estas palavras.
29:11Muitos correrão
29:12de uma parte
29:12para a outra
29:13e o conhecimento
29:14se multiplicará.
29:17Daniel chorou.
29:18Não por medo,
29:19mas pela dimensão
29:20do que vira.
29:21O futuro
29:22estava traçado.
29:23O sofrimento
29:24viria,
29:25mas o fim
29:26também estava
29:27selado.
29:28Descansarás,
29:29disse a voz,
29:30e te levantarás
29:31na tua herança,
29:32no fim dos dias.
29:34Daniel permaneceu
29:35em silêncio.
29:36O mundo
29:37continuaria girando,
29:39impérios
29:40ainda surgiriam.
29:41Mas ele sabia.
29:43O reino eterno
29:45não seria
29:45abalado.
29:46E quando os
29:47reinos dos homens
29:48terminassem,
29:49o Deus
29:50que governa
29:51a história
29:52se revelaria
29:53plenamente.
29:54em silêncio.
29:55Música
29:57Música
29:59Música
29:59Música
30:00Amém.

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