00:20Com Cuias, eu não tenho certeza, mas eu já tenho uns 26 anos
00:28que a gente trabalha com artesanato em Cuias.
00:32Há 27 anos eu trabalho com biojóias, biojóias em geral.
00:38Eu aprendi com o meu companheiro.
00:42Quando eu conheci ele, ele já era artesão desde criança,
00:46com 13 anos, é criança.
00:50Então, quando eu conheci ele, eu tinha 18 anos,
00:55aí que eu aprendi mesmo a fazer o artesanato com ele.
01:02As Cuias, eu já trabalho elas pretinhas.
01:07Quando elas vêm pretinhas para mim, é que eu vou agregar o grafismo.
01:12E todo o processo do grafismo, ele é tirado das cerâmicas marajuaras.
01:22Eu tenho uma referência que é do Padre Giovanni Galo,
01:27que eu tenho o livro que eu guardo.
01:29É uma coisa pessoal minha que eu tenho e gosto muito.
01:35E eu tiro sempre...
01:37Todos os grafismos são tirados das cerâmicas marajuaras.
01:40Eu escolho um traço específico e é esse que eu vou colocar aqui na Cuias.
01:47Os clientes, eles pedem assim.
01:49Eles dizem, ah, eu quero encomendar tantas Cuias.
01:52Eu digo, qual é o grafismo que você quer?
01:54Aí você, ah, escolha aí.
01:57Sempre é ele que...
02:00Eles dizem, você pode escolher e manda a foto.
02:03Aí eu mando e eles se agradam.
02:05A maioria dos meus clientes, eles compram mais para decorar.
02:11Eles dizem, ah, eu não vou utilizar, eu já vou colocar na minha estante.
02:15Sempre eles falam isso.
02:17Mas aí eu explico, olha, você pode utilizar e deixar reservado na sua estante.
02:22A lavagem é normal, né?
02:25Com a esponja da parte fina e deixar ela sempre em ambiente que não pegue sol.
02:32Porque ele resseca ela todinha e ela fica toda, vamos dizer, craquelada.
02:37O grafismo, para mim, foi onde eu me reconheci...
02:43É onde eu reconheci a minha história, o que eu represento, o que eu sou.
02:51Então, quando eu sento para fazer um grafismo em Cuias, é um momento meu,
02:56onde eu estou contando a minha história, a história da minha vida.
03:01Eu fico emocionada quando eu falo sobre isso.
03:04É uma sensação muito boa.
03:06É gratificante saber que o meu trabalho está sendo reconhecido.
03:11É assim, tem muitos que às vezes eles perguntam como é o processo da pintura.
03:20Aí eu explico para eles, eles ficam assim...
03:23Uns ficam assustados, outros ficam encantados.
03:27Mas é verdade, é verdade, que eu explico todo o processo que vem de uma pintura ancestral,
03:35uma pintura indígena.
03:37Mas como é que vocês chegaram a esse ponto?
03:40Eu disse, ah, isso é sabedoria dos antigos.
03:43Só eles mesmos que sabem explicar, né?
03:47Esse é um processo que a gente extrai a casca do kumatê, né?
03:51Que é uma árvore que a gente tem.
03:53Aí a gente tira a tinta, faz o processo de tirar a tinta.
03:59Lixa ela todinha, porque a Cui, ela tem um verniz natural.
04:03Quando ela seca, ela tem o seu próprio verniz.
04:07Então, se passar sem lixar, ela não vai pegar.
04:14Tanto que a gente tem as Cui de Mingau, que são de duas cores, a marrom e a preta.
04:20Aonde não foi lixado, não pega.
04:24Aí o processo do kumatê, se a gente tira, extrai a tinta, aí lixa, passa o kumatê,
04:30bota no geral, que hoje o pessoal diz que é mesa, não.
04:35Mas é um geral.
04:37E a gente coloca, deixa lá, a gente cobre com a saizeira, com a folha do saizeiro.
04:46Embaixo, antigamente, os indígenas, eles usavam a urina, jogavam a urina em cima.
04:52Só que hoje não, hoje já tem mais conhecimento, aí eles botam embaixo a cinza e jogam.
05:00E quando evapora, a amônia que faz que sai e fica dessa cor.
05:04Eu consigo riscar em dez minutos, eu acho, assim.
05:09No dia eu risco mais vinte.
05:12Depende muito, assim.
05:14Muita gente não conhece a arte na cuia.
05:19Os próprios faraenses não conhecem.
05:23Hoje eu digo que são poucas pessoas que fazem, que eu conheço, que fazem grafismo em cuia,
05:27que são três pessoas que são.
05:28É eu, a Milene, um outro rapaz, que eu não sei o nome dele,
05:34que trabalhou com cuias aqui em Belém, que eu conheço.
05:38Então, pra mim, é muito importante o meu trabalho no grafismo em cuia.
05:46Não vejo outro trabalho.
05:50Pra mim, eu não vejo outro trabalho.
05:52Sou Ariel Miranda, artista visual aqui da Ilha de Colares.
05:56Atualmente com a produção das artes em cuias,
05:58mas a minha história com a arte, ela vem desde muito cedo,
06:00por conta da minha família, que é repleta de artistas.
06:03Então, eu sempre tive esse incentivo, essas referências e inspirações.
06:06Mas o meu contato com as cuias, ele se inicia quando eu conheço a Silvia Mendonça,
06:10que é arte educadora e fundadora do Belo Amazon Atelier.
06:12A gente forma essa parceria, une nossas técnicas
06:16e começa essa produção de cuias, tanto utilitárias, decorativas,
06:20e a nossa última produção, que são os acessórios de cuia,
06:23como os braceletes pintados ou naturais.
06:27Meu processo criativo é como um ritual.
06:29Ele se inicia com a escolha do tema
06:32e então gosto também de priorizar qual formato da cuia
06:35combina melhor com a referência escolhida.
06:38A partir daí, eu inicio o desenho, sigo para a pintura,
06:41como, por exemplo, essa cuia,
06:44onde o desenho é inspiração na padroeira da Amazônia,
06:47Nossa Senhora de Nazaré.
06:48Esse desenho foi feito exclusivo do Atelier Bela Amazônia,
06:52acervo pessoal.
06:54É um sentimento muito especial ver a nossa arte chegando em novos lugares,
06:58atravessando novos territórios,
07:00porque não é somente o nosso trabalho que alcança esses espaços,
07:03é também a nossa cultura,
07:05nossa identidade, nossa herança ancestral,
07:08a nossa originalidade.
07:09É como se a cuia seguisse cumprindo o seu papel
07:12de ser essa semente sagrada,
07:14que junto à arte,
07:16segue em direção a novos horizontes,
07:18despertando novos olhares.
07:19Eu sou Silvia Mendonça, arte educadora,
07:23fundadora da Bela Amazônia Arte em Cuias,
07:28meu ateliê.
07:29Trabalho com Cuias desde 2005.
07:33O início da minha história foi na Fundação Corvelho,
07:36como aluna do professor Marco Antônio,
07:38numa oficina de grafismo em Cuias.
07:40E desde então, venho trabalhando com esse fruto fantástico,
07:44maravilhoso,
07:46que é fruto da cuieira,
07:48da crescente acujete,
07:49mas conhecida por todos nós como cuia.
07:53Todo o processo começa com a colheita do fruto,
07:55corte, limpeza, secagem,
07:58e esse corte vai variar de acordo com a finalidade,
08:02que pode ser para os braceletes,
08:05para os colares,
08:09também para as cuias com a técnica da incisão,
08:17ou pintadas à mão.
08:19Saber que meu trabalho atravessa fronteiras,
08:22que está em outros estados,
08:24outras cidades,
08:26outros países,
08:27me enche de orgulho e me motiva.
08:30Nossa arte,
08:31minha e do meu parceiro Ariel Miranda,
08:33é algo único,
08:35é amazônico,
08:36é exclusivo.
08:38E como mulher empreendedora e amazônida,
08:42eu me sinto cada vez mais motivada a continuar.
08:45Sei que eu estou no caminho certo,
08:47pois trabalhar com arte em cuias
08:49me mostra,
08:51aumenta, na verdade,
08:53a sensação de pertencimento,
08:54de territorialidade,
08:56como se eu e o fruto da cuieira
08:59fôssemos um só.
09:06Legenda Adriana Zanotto
09:06Legenda por Sônia Ruberti