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00:00Hello, manas primorosas!
00:03Você já imaginou ser a primeira mulher a conquistar um espaço
00:06onde até então só os homens chegaram?
00:09E mais, usar essa conquista para abrir caminhos para outras mulheres?
00:15A nossa convidada de hoje é a doutora Janice Amoras,
00:19uma mulher que faz do pioneirismo, da defesa dos direitos femininos
00:24e da solidariedade à sua missão.
00:27Vem conhecer essa história, mulherada!
00:29Vem!
00:35Dol Delas, mulheres que inspiram a Amazônia que acontece.
00:39Patrocínio, Banco da Amazônia. Sonhar, mover e impactar.
00:44Claro, você merece o novo.
00:49Sebrae Delas, toda conquista inspira a próxima.
00:53Seja muito bem-vinda, Janice.
00:57É uma honra te ter aqui e poder ouvir a tua história e poder inspirar outras mulheres.
01:03Muito obrigada.
01:04Eu que agradeço, Pri.
01:05Agradeço todo mundo que está aqui vendo e ouvindo a gente,
01:08esse canal tão importante, né?
01:09Que é o Dol Delas.
01:10E é isso.
01:11É uma história, assim, que eu espero que ajude a inspirar outras mulheres.
01:15E eu já quero saber quem é a Janice quando não está trabalhando, né?
01:20Porque a gente quer saber como são os bastidores da Janice.
01:24Eu sou uma mulher brasileira, paraense, de Belém, belenense.
01:30Tenho 45 anos.
01:32Sou mãe de duas princesas, a Amy e a Liz, que tem 4 e 7 anos hoje.
01:38E me dedico, na maior parte do tempo, a ser essa mãe dedicada.
01:43Mas também divido a minha tarefa com a função de cartorária.
01:47E também líder de um movimento que chama Manas em Combate,
01:51que ajuda mulheres vítimas de violência doméstica sobre qualquer forma.
01:55Seja visível ou invisível.
01:57Porque a violência física acaba tendo muito destaque.
02:00Mas e a violência psicológica?
02:02E a moral?
02:03E a processual?
02:04E a vicária quando usa os teus filhos ou o teu pet para atingir essa mulher?
02:08Então, é isso que a gente também busca chamar a atenção e ajudar essas mulheres que estão vivenciando isso.
02:14Conscientizar essas mulheres, né, Janice?
02:17E aí, então, me conta um pouco mais sobre esse teu lado.
02:22Que tu inspira essas mulheres, educa essas mulheres para entenderem qual violência elas sofrem.
02:31O que elas podem fazer.
02:33Até mesmo com um exemplo teu mesmo.
02:35Eu quero saber mais.
02:37Conta para a gente.
02:37Conto, conto sim.
02:39Como você bem disse, eu sou cartorária.
02:42E eu achei que o mais difícil que eu fosse enfrentar na minha vida, Priscila,
02:46era estudar 20 horas por dia.
02:48Como aconteceu para o meu concurso.
02:50Eu fui primeiro lugar geral, graças a Deus, aqui em Belém do Pará.
02:54Eu sendo paraense e de Belém.
02:56E quando, de repente, eu me descobri vítima de violência doméstica.
03:00E a minha violência doméstica do meu agressor era totalmente psicológica e patrimonial.
03:05Coisas que ninguém falava.
03:08Então, são casos pontuais que não ganham tanta repercussão como o da Ana Hickman e outras atrizes.
03:15E, enfim, pessoas, figuras públicas famosas.
03:18Então, eu tive que enfrentar tudo isso sozinha.
03:20Então, eu precisei estudar, entender, fazer muita terapia para poder entender a mente do agressor,
03:28como é que funciona, por que disso tudo.
03:30Porque a primeira coisa que a mulher pensa foi culpa minha.
03:35É verdade.
03:35Eu, como qualquer mulher, me culpava.
03:38Até eu entender que a culpa não é minha, que não sou eu que tenho que ter vergonha, que tenho
03:43que ter medo, nada disso.
03:45Nossa, é um baita trabalho.
03:47Então, eu percebi que mulheres ao meu redor e também distantes passavam por isso.
03:52E aí, eu fui para o Instagram para falar sobre cartório e também falar de violência contra a mulher.
03:57E, incrivelmente, eu estou com 65 mil seguidores falando desses temas e pratico muitas ações sociais,
04:05algumas em parceria com a Polícia Civil, o próprio Tribunal de Justiça do Estado do Pará, a SESMA, outros órgãos,
04:15outros sozinha.
04:16Então, participo sozinha, efetivamente organizando tudo, porque a ideia é realmente trazer luz para esse tema.
04:24Então, eu sou a primeira mulher cartorária em Belém do Pará e enfrento todos os desafios em decorrência disso.
04:31Porque não é fácil você lutar contra todo um sistema que está posto.
04:36É verdade.
04:37Então, é uma luta muito grande e que isso realmente sirva, como você bem disse, para abrir caminho para outras
04:43mulheres.
04:44Porque o lugar da mulher é onde ela quiser, onde você quiser.
04:48Não onde te mandarem, não pilotando o fogão, esfriando a barriga no tanque, não existe mais isso.
04:55Então, a mulher tem que ter a sua independência, tem que ser dona do seu dinheiro.
05:00Então, isso tudo precisa ser conscientizado.
05:02É, aí tu até falou isso.
05:04Não tem problema quem quer ficar no fogão e não tem problema nenhum.
05:09Mas isso não é a verdade absoluta.
05:12Isso não é a única escolha da mulher.
05:15Exatamente.
05:15Tanto que você foi a primeira, foi o primeiro lugar em cartorária aqui em Belém.
05:21Conta um pouco mais sobre isso também.
05:23Sim.
05:23Porque mesmo você alcançando o que você queria, né?
05:28Você queria ser o primeiro lugar, você queria estar aqui, você estudava.
05:32Mesmo com tudo isso, você sofreu essa violência.
05:35Mas vamos falar de como foi esse processo, de alcançar esse primeiro lugar,
05:39para a gente inspirar essas mulheres também, que elas podem, né?
05:43Sem dúvida.
05:45Essa é a palavra, essa é a frase.
05:47Você pode ser o que você quiser.
05:49Então, se você meter na cabeça, quero ser cartorária, estude.
05:53Faça o planejamento.
05:55Então, foi isso que eu fiz.
05:56Então, nunca deixei de trabalhar.
05:58Sou filha de professora.
05:59Sou a primeira pessoa da minha família a ter mestrado e doutorado.
06:02Então, eu fui atrás de estudo, de qualificação.
06:05Saí de Belém, porque na minha época, já não sou tão novinha,
06:09não tínhamos essa gama de cursos, de mestrado, doutorado, enfim.
06:13Então, tive que ir embora.
06:15Fui para São Paulo inicialmente, fiquei lá sete anos.
06:18Fiquei um tempo no exterior também, me qualificando.
06:21Até que passei no meu primeiro concurso público no estado de Minas Gerais.
06:25Lá fiquei seis anos e meio e entrei em contato com a atividade
06:29e fiquei completamente apaixonada.
06:32Porque o registro de imóveis é onde tu tens segurança jurídica sobre os teus bens.
06:38Ninguém vai te tirar a tua casa você tendo o registro dela.
06:42Então, se você tiver essa segurança jurídica,
06:45você pode pegar esse teu imóvel, oferecer como garantia para um banco
06:49e levantar um dinheiro, por exemplo, para o teu negócio.
06:52Quero montar um salão de beleza na minha casa ou em outro lugar,
06:55dou em garantia o imóvel e consigo levantar um dinheiro.
06:58Então, a vida segue, o fluxo segue.
07:02Então, eu utilizo a minha profissão para exatamente dar dignidade para as pessoas.
07:07E a melhor forma de fazer isso em uma cidade como Belém,
07:10que infelizmente ostenta o título negativo de ser a pior capital brasileira
07:16em termos de regularização fundiária, proporcionalmente,
07:20porque nós temos aqui, segundo os últimos dados do IBGE,
07:2355,5% das nossas habitações, das nossas casas, em palafitas.
07:30É verdade.
07:30E são os aglomerados subnormais.
07:33São as chamadas favelas.
07:35Então, infelizmente, Belém tem esse título negativo.
07:38E a gente quer mudar isso.
07:40E eu, como responsável por 65,7% desse território,
07:44que é o mais pobre, onde moram as pessoas mais carentes,
07:47a regularização fundiária urbana, a chamada REURB, é tema de lei.
07:52Então, essas pessoas têm direito, não é favor de ninguém,
07:56de prefeito, de governador, de presidente.
07:58É direito dessas pessoas.
08:00Então, a gente precisa efetivar esses direitos.
08:02E lá na lei da REURB, adivinha de quem é a prioridade
08:06para a emissão do título, quando for ser dado o título dessa pessoa?
08:10Para a mulher, para a chefe de família.
08:14Não é para o homem.
08:15E quantas chefes de família, mulheres, né?
08:18Exatamente.
08:19Então, a gente precisa efetivar isso.
08:22E eu tento unir o meu conhecimento como cartorária
08:26e como vítima que passou por isso,
08:29para que essa política pública seja efetivada.
08:32Assim como na lei da REURB, a mulher tem essa preferência
08:35para legitimar o título em nome dela,
08:38a mesma coisa acontece, Pri, na política estadual de habitação
08:42e na municipal também.
08:44As mulheres vítimas de violência doméstica têm prioridades.
08:47Então, a gente precisa exigir essa prioridade
08:50para que ela chegue lá para aquela mãe que tem filho especial,
08:54que tem outras necessidades,
08:57que é vítima de violência doméstica,
08:59para que ela tenha acesso a essas políticas públicas.
09:01É, e acesso a essa informação também, né?
09:04Para que ela vá atrás dos direitos dela, né?
09:06Exatamente.
09:07Mas conta para a gente, Janice, também, que eu quero saber.
09:10Como para você, como mulher,
09:13você já sentiu que precisava provar mais
09:18como cartorária e como mulher?
09:20Todos os dias, Pri.
09:22Todos os dias, sem exceção.
09:23Está vendo, mulherada?
09:24Sem exceção.
09:25O mais comum no cartório é o gaslighting.
09:28Você está numa mesa de reunião, você está falando,
09:31aí as pessoas falam,
09:32mas eu quero falar com a cartorária, a dona do cartório.
09:34Aí eu me apresento, sou eu.
09:36Aí as pessoas não acreditam que sou eu.
09:38Aí tem um etarismo aí.
09:39Eu sou muito jovem para ocupar o carro que eu tenho.
09:42Sou eu.
09:42Aí eu convenci.
09:43Tudo bem.
09:44Vamos conversar agora.
09:45Aí eu começo a explicar.
09:47É assim, assado, cozido.
09:48E o homem não aceita.
09:50E aí eu tenho que chamar algum outro funcionário,
09:53alguém, um homem de preferência,
09:55para falar a mesma coisa que eu acabei de dizer.
09:59E aí dá certo.
10:00Então eu já tenho uma técnica quando isso acontece.
10:02Eu já levo alguém comigo do sexo masculino
10:05para ouvir o que eu vou dizer,
10:07que já sabe, já está treinado.
10:09Então é basicamente aquela mesma situação
10:11corriqueiramente que a gente tem.
10:13E aí a pessoa me ajuda a falar exatamente,
10:16exatamente o que eu falei.
10:18E aí o homem diz,
10:19ah, entendi agora.
10:20Então quando é um homem falando,
10:22eu aceito, eu entendi.
10:24Se fosse eu sozinha, é difícil.
10:26E, Janice, tu acha que isso,
10:28por isso que às vezes muitas mulheres,
10:31ai não, eu tenho que casar,
10:33eu preciso me casar,
10:34porque um homem acaba legitimando essa mulher.
10:38Tu acha que isso acontece?
10:40Porque assim mesmo...
10:40Sem dúvida nenhuma.
10:42E aqui na nossa região,
10:43isso é mais forte ainda, né?
10:45As meninas são criadas
10:47para serem esposas.
10:49Eu, inclusive, vi recentemente
10:51na rede social, no Instagram,
10:53um curso para crianças, meninas,
10:56ensinando boas práticas.
10:59Como segurar uma taça,
11:01como ser uma boa filha,
11:03como dobrar direito o guardanapo.
11:04Eu fiquei assustada.
11:05Coisa do século passado, né?
11:07Exato, de ainda ter gente assim se dedicando a isso.
11:11Chamar isso de etiqueta,
11:13entende?
11:14Mas para moldar meninas.
11:15Quando não passa de uma doutrina.
11:16Exato.
11:17Para moldar meninas.
11:18Meu Deus do céu, olha, é complicado.
11:21Mas eu quero saber também da Janice profissional.
11:26Qual foi o teu maior desafio
11:30na tua carreira, né?
11:33Do teu lado profissional?
11:34Do meu lado profissional,
11:36enfrentar tudo isso, né?
11:37Porque eu chego como primeiro lugar
11:39e o meu acervo de matrículas
11:43não me é entregue.
11:45Não há transferência dos imóveis
11:47que eu teria direito.
11:49Então, isso é uma questão que até hoje
11:50ainda está pendente
11:52e muita briga judicial,
11:54muitas coisas.
11:55Mas eu tenho certeza que se eu fosse homem
11:57não seria esse o tratamento.
11:59Então, por eu ser mulher
12:01eu tenho que comprovar
12:02que eu realmente sou conhecedora
12:06do cargo que eu ocupo,
12:08tenho conhecimento técnico para estar ali
12:10e isso é uma prova que eu faço no dia a dia.
12:12Então, isso é a maior dificuldade que eu tenho
12:15por ser mulher,
12:16mostrar que eu sou competente
12:17para o cargo que eu ocupo.
12:19E aí, tu poder exercer realmente
12:21de uma maneira...
12:22E aí, vindo para esse lado, né?
12:25Dessa questão do cartório de ofício,
12:28tu acha que qual é, assim,
12:30a maior vantagem para a mulher
12:32dela ter o seu patrimônio
12:35no próprio nome dela?
12:37A maior vantagem é a independência
12:39porque o que é teu,
12:41o direito fala,
12:42só é dono quem registra.
12:44E sendo o teu nome
12:46que esteja lá na tua certidão,
12:47ninguém vai te tirar daquilo.
12:49É verdade.
12:49Então, você passa a ter muito mais consciência disso.
12:52E isso também perpassa, sabe, Pri?
12:55Por tirar aquela ideia
12:56de que a mulher não sabe administrar
12:58os próprios bens.
12:59Só o homem é que sabe
13:00que a mulher não sabe lidar com dinheiro,
13:03não sabe lidar com números,
13:04não sabe isso, não sabe aquilo.
13:06A mulher pode aprender
13:07o que ela quiser.
13:09Se você tiver dúvidas,
13:11você procura um gerente da sua confiança.
13:13E não o gerente que alguém te indicar,
13:16que o agressor indicar,
13:18o marido indicar.
13:19Não, você tem condições de aprender.
13:21E hoje, com acesso à internet
13:23na palma da mão,
13:24a gente aprende curso de Harvard,
13:26de qualquer lugar,
13:27de qualquer instituição grande,
13:30capacitada nesse tema.
13:31Então, não acredite nisso.
13:32Tenha a sua independência.
13:34Essa independência financeira
13:36diz muito sobre você.
13:37Porque você passa a ser uma mulher
13:39que entende das coisas,
13:41que não depende mais de ninguém
13:42para poder viver, né?
13:44E tem muitas mulheres
13:45que acabam nem identificando
13:48essa violência patrimonial
13:50que acaba sofrendo.
13:53E aí eu quero que tu fale
13:54para a gente mais sobre isso,
13:57para que elas,
13:58se estiverem passando por isso,
13:59consigam identificar
14:00essa violência patrimonial.
14:03Como dar dicas, né?
14:05Que a gente vai pedir agora
14:08dicas de como identificar
14:10violência patrimonial.
14:13Eu posso te dizer
14:14uma bem clássica.
14:15Que é assim,
14:17ai, meu amor,
14:18não quero que você mexa com isso,
14:20que você se ocupe com isso.
14:21Deixa que eu cuido.
14:23Então, tudo assim
14:24parece um cuidado.
14:26Sim.
14:27Então, você olha,
14:27nossa, ele me ama,
14:28ele está cuidando de mim,
14:30ele está preocupado.
14:32Aí, vem a segunda parte.
14:33Então, para eu poder
14:35mexer em tudo,
14:36assina aqui para mim
14:37uma procuração pública
14:39para que eu possa
14:41movimentar os bens,
14:43fazer movimentação financeira,
14:45investimentos,
14:46isso, aquilo,
14:46sem te perturbar,
14:48que aí eu não te preocupo.
14:50Eu te deixo livre
14:51para fazer as outras coisas
14:52que você gosta,
14:54se você é uma pessoa
14:55que gosta de malhar,
14:56se você é uma pessoa
14:56que gosta de trabalhar na rua,
14:58enfim, seja o que for,
14:59eu te deixo livre para isso.
15:01Aí vai o problema maior,
15:03porque você está dando
15:04poderes para alguém
15:05com fé pública
15:07de um tabelião,
15:08porque é uma procuração pública,
15:09não vai valer só uma particular
15:11assinada num papel,
15:12e ali começa o teu abismo,
15:15que foi o que aconteceu comigo.
15:17Então, eu descobri
15:19diversas utilizações
15:20dessa procuração pública
15:22em diversos entes privados,
15:24com movimentações altíssimas
15:25que eu nunca fiz,
15:27nunca tive conta,
15:28pelo menos que soubesse,
15:29em banco A, B e C.
15:32Então, começa assim,
15:33sabe, Pri?
15:34Então, o melhor jeito...
15:35Começa como cuidado.
15:36Exato.
15:37O melhor jeito
15:38é você tomar conta
15:39do seu dinheiro.
15:40Sim.
15:41Se você tiver dúvidas,
15:42como eu disse,
15:43consulte um gerente,
15:45um consultor,
15:46um assessor
15:47da sua confiança.
15:49É muito importante isso.
15:51Dinheiro é uma coisa
15:52que aquela coisa, né?
15:54Quer conhecer alguém,
15:55dá dinheiro e poder.
15:56É exatamente isso.
15:57O dinheiro destrói,
15:59destrói vidras,
16:00destrói amizade,
16:01porque as pessoas,
16:02infelizmente,
16:02crescem um olho.
16:04Sim.
16:04Então, se você tem um patrimônio,
16:06gerencie você mesmo
16:07a esse patrimônio.
16:08Sim.
16:08Não estou te falando
16:09de separar,
16:10nada disso,
16:10só estou te dizendo
16:11presta atenção
16:12que o teu dinheiro é seu
16:14e ninguém mais
16:15tem que mexer nele.
16:16É.
16:16Ainda que você seja casada,
16:18viva muito bem,
16:19graças a Deus,
16:20tomara que sim,
16:21mas se não for esse o caso,
16:23preste mais atenção ainda,
16:24porque nada é violência.
16:27Direto.
16:28Violência física
16:29ou xingamento direto.
16:32Tudo começa
16:33com um suposto cuidado,
16:34com um suposto amor.
16:36E às vezes a gente
16:37se basta com aquilo
16:39porque geralmente fala assim,
16:41ah, porque se eu te largar,
16:42ninguém vai mais te querer.
16:44Vai sim.
16:45Claro que você vai se querer.
16:48Você vai se querer.
16:49E no Brasil e no exterior,
16:51ganha muita força
16:52um movimento que é
16:52exatamente contrário a isso.
16:54de mulheres que se divorciaram
16:56e que não pensam mais
16:57em casar.
16:57Sim.
16:58Exatamente para fazer
16:59viagens juntas,
17:00aprender coisas diferentes,
17:03para não ficar presa
17:04a um homem,
17:04porque parece que você
17:05só é legitimada
17:06quando você está
17:07junto de um homem.
17:08E na verdade,
17:08hoje não mais isso.
17:10Sim, com certeza.
17:11Vai muito para além disso,
17:13uma mulher.
17:13É, e você foi muito
17:15para além de dicas, né?
17:16Você criou
17:17humanas em combate.
17:18Exato.
17:18Fala um pouco mais
17:20sobre esse teu projeto
17:21para a gente.
17:22Falo, porque é um filho querido.
17:24Uma filha querida.
17:25Humanas em combate
17:26é um movimento
17:28que ajuda mulheres
17:29vítimas de violência.
17:30Então, a primeira coisa
17:31que a gente fez
17:32foi uma cartilha.
17:33Nessa cartilha,
17:35do lado esquerdo,
17:36eu listo todos os tipos
17:38de violência.
17:39São dez tipos.
17:40No lado do meio,
17:42aliás,
17:43eu crio lá
17:44um protocolo,
17:45um passo a passo
17:46com o que você deve fazer
17:48se você for vítima
17:49de violência.
17:50Então, a primeira coisa,
17:52porque quando eu fui
17:53vítima de violência,
17:54eu fui para uma delegacia
17:54da mulher
17:55e fui muito maltratada.
17:57Meu Deus.
17:58E as pessoas,
17:58ao invés de tentarem
18:00me ajudar,
18:01elas queriam saber
18:01quem eu era.
18:03Então, eu ainda fui hostilizada
18:05nesse sentido.
18:06Entende?
18:07Então, eu criei
18:08um passo a passo
18:09para a mulher saber.
18:09Olha, número um,
18:10se você for vítima
18:11de violência,
18:12se você estiver em estado grave,
18:14precisando de ajuda,
18:15liga 190,
18:16que é a polícia militar,
18:18ou 180,
18:19que é o DISC
18:20e denúncia contra a mulher.
18:21Para chegar a uma viatura
18:22de imediato
18:24para acabar
18:24com aquela situação
18:25de perigo.
18:26Em seguida,
18:27se você precisar,
18:28você vai logo
18:29para o hospital.
18:30E lá no hospital,
18:31você pede laudo
18:33por escrito
18:33de tudo
18:34que você está vivendo.
18:35Se for uma violência física,
18:37o laudo
18:37da violência física.
18:38Se for uma violência psicológica,
18:40o laudo
18:40da violência psicológica.
18:41Porque isso vai servir
18:42como prova.
18:43Ótimo.
18:44E aí depois,
18:45você registra,
18:46vai na delegacia,
18:47que hoje pode ser
18:48a delegacia da mulher,
18:49ou qualquer delegacia,
18:51ou mesmo a Casa da Mulher Brasileira,
18:52que já existe em Belém,
18:54e você faz o boletim
18:55de ocorrência.
18:56E ele pode ser feito,
18:58inclusive, Pri,
18:58de forma virtual.
19:00Se você não quiser ir,
19:01você pode fazer
19:02de forma virtual
19:03esse primeiro momento.
19:04E aí depois,
19:05você vai buscar um advogado,
19:07você vai ver as ações
19:08necessárias
19:09para você entrar
19:09com tudo isso,
19:10pedir medida protetiva,
19:13pedir divórcio,
19:14guarda dos filhos,
19:15alimentos,
19:15tudo mais.
19:16Todo esse passo a passo.
19:18E na última página,
19:19a gente tem
19:19o sinal universal
19:21de violência,
19:22que é esse aqui,
19:23Sinal universal.
19:24E temos também
19:25o sinal brasileiro,
19:26que é o X na mão.
19:29O X que pode ser vermelho,
19:30preferencialmente,
19:31que é uma campanha
19:32do CNJ,
19:33o Conselho Nacional de Justiça,
19:34ou de qualquer cor.
19:35Se você fizer um X na mão,
19:37você sinaliza
19:38para qualquer pessoa
19:39que você precisa de ajuda.
19:41E esse sinal universal,
19:42você pode fazer assim,
19:43você pode fazer
19:44virada com a mão para trás,
19:45de qualquer jeito,
19:46que as pessoas,
19:47em qualquer lugar do mundo,
19:49vão entender
19:49que você precisa de ajuda.
19:51Então, a gente tenta
19:52trazer
19:53essas luzes mínimas
19:55para esse problema
19:56tão grande,
19:57que hoje se tornou
19:58uma pandemia.
19:59E que antes,
20:00a gente tinha
20:01quatro mulheres por dia
20:02sendo assassinadas,
20:03mas que hoje,
20:04com certeza,
20:04esse número já está maior.
20:06Porque a gente não para
20:07de noticiar.
20:08a gente abre
20:08celular,
20:10abre televisão
20:10e vê tantos casos,
20:12tantos homens
20:13matando mulheres
20:14porque não aceitam
20:15o fim do relacionamento.
20:17Ou porque
20:17querem atingir a mulher
20:19matando o filho dela,
20:21ou matando o cachorrinho dela.
20:22isso é muito complicado.
20:23E aí, eu já quero saber
20:24o que mais te incomoda
20:27vendo mulheres
20:29dizendo que o feminicídio
20:31não existe.
20:32Que é uma armadilha semântica.
20:34E isso, assim,
20:35me chocou muito
20:37quando eu vi isso.
20:38Acho que todas as mulheres
20:39que convivem com isso
20:40ficaram como eu.
20:42Depois, a gente passou a entender
20:43que isso é uma estratégia
20:44de marketing.
20:45porque uma pessoa
20:47que foi a mais eleita
20:48e não tem sequer
20:49uma proposta
20:50lá
20:51anotada
20:52na sua ficha funcional
20:53quando apresentou
20:54para o TSE,
20:55então, você vê
20:56que ela está ali
20:57atendendo outros interesses.
20:58Ela mesma não tem proposta.
21:00E a ferramenta de marketing
21:03que ela encontrou
21:04para isso
21:05foi usar o negócio
21:06do absurdo.
21:06É chocar as pessoas.
21:08Exatamente.
21:09É chocar as pessoas.
21:09E ela conseguiu
21:10atingir a estratégia dela.
21:12Então, que pena
21:13que ela pensa assim.
21:14Mas, infelizmente,
21:16ela mesma já foi vítima disso.
21:18Porque ela esteve
21:18num evento
21:19lá na USP
21:20em São Paulo
21:21defendendo isso
21:22e uma pessoa da plateia
21:24e um homem
21:24se sentiu no direito
21:25de como ela dizer
21:26que o homem tem que ser violento
21:27e não sei o quê.
21:27deu um murro nela.
21:30E aí, ela foi vítima
21:31de agressão física.
21:32E aí, ela foi atrás
21:33da lei Maria da Penha, né?
21:35Exato.
21:36Pelo menos tem lá
21:37uma lei agora
21:37para protegê-la.
21:38Para protegê-la.
21:39Isso mesmo.
21:40E ela poder utilizar, né?
21:42Exato.
21:42E tudo isso
21:43que aconteceu na tua vida,
21:45isso te levou
21:46para a filantropia?
21:48Sem dúvida.
21:49Quando você é vítima
21:51de violência,
21:53você obrigatoriamente
21:54passa a rever
21:55todos os seus conceitos.
21:56Sim, com certeza.
21:57Eu achava que eu era feliz,
21:59que eu tinha uma família
22:00muito legal,
22:02duas filhas maravilhosas
22:03e que isso era, assim,
22:05o ápice da minha vida.
22:06Até que eu olhei
22:07para o meu lado
22:08e vi quantas mulheres
22:10sofrem de violência caladas.
22:12E você com duas filhas, né?
22:14Juízas, promotoras,
22:16delegadas.
22:17A gente tem o caso
22:18de uma delegada famosa,
22:20uma amiga querida,
22:21Amanda,
22:22Amanda Souza,
22:23que teve os dois filhos
22:25assassinados pelo ex-marido
22:26quando ela disse
22:27que ela queria se divorciar.
22:28Queria se separar.
22:29Meu Deus.
22:29E ela era delegada
22:30da Delegacia da Mulher
22:31em Cametá.
22:32Meu Deus.
22:33Então, é uma coisa
22:33muito séria.
22:34Então, eu entendi
22:35que o meu papel,
22:37que nada acontece
22:37na vida da gente
22:38por um acaso,
22:39e que o meu papel
22:40não era mais
22:41ser só uma cartorária.
22:43Sim.
22:43Ou ser a primeira cartorária
22:45de Belém.
22:45Era muito além disso.
22:47Era ajudar mulheres,
22:49que é a maioria
22:49da população de Belém
22:51e é a maioria
22:51da população do Brasil,
22:53a enfrentar tudo isso
22:55e não aceitar,
22:56não normalizar isso.
22:57Isso não é o normal.
22:59Isso não é o certo.
23:00É, isso mesmo.
23:01Para que a gente
23:02consiga viver.
23:03Nós queremos viver.
23:04Nós não queremos morrer
23:05na mão de quem diz
23:07que nos ama,
23:08promete amor eterno
23:09perante a igreja
23:10e que na prática
23:12faz outras coisas
23:14que o pastor
23:15não está sabendo
23:16ou que quando está sabendo
23:17ainda assim
23:18diz que é coisa
23:18do demônio.
23:19Enfim,
23:20então a gente
23:21não pode aceitar isso.
23:22Não, e aí
23:23eu quero já finalizar
23:25pedindo para te deixar
23:26uma mensagem
23:28para essas mulheres
23:29que podem hoje
23:30estar passando
23:31esse tipo de violência
23:32que não é a física
23:34muitas vezes,
23:35mas é a psicológica
23:36e a patrimonial,
23:37é vários outros tipos
23:38de violência.
23:39Qual mensagem
23:40que tu deixa
23:40para conscientizar
23:42essa mulher
23:42que ela não está
23:43sozinha
23:44e que ela pode
23:45sim pedir ajuda
23:45e que ela não tem
23:46que ter vergonha.
23:48Você já falou tudo,
23:49vou só complementar.
23:53Você, mulher,
23:54que passa por isso,
23:55saiba, número um,
23:56que isso não é normal.
23:58Número dois,
23:58que não é culpa sua.
24:01Podem te dizer o que for,
24:02não é culpa sua.
24:03E terceiro,
24:04que você não está sozinha.
24:05Hoje existe todo um sistema
24:07para proteger a mulher
24:08e você precisa ter coragem,
24:11coragem,
24:11eu sei que não é fácil,
24:14mas você precisa ter coragem
24:15para se libertar disso tudo,
24:17porque como diz a Maria da Penha,
24:19a vida começa
24:21depois que a violência termina.
24:23E a tua vida também vai começar
24:25assim como a minha começou
24:27depois que eu conseguir
24:28me desvencilhar disso tudo.
24:30E eu te agradeço
24:31por compartilhar a tua história,
24:34como é importante
24:35a gente saber dela
24:37e como é importante
24:38a gente poder ver uma mulher
24:41conquistando outros espaços.
24:43Mesmo que muitos digam
24:45que não,
24:45que não é para a gente estar lá,
24:47é sim.
24:47É para a gente estar
24:48onde a gente quiser.
24:49Exato.
24:50Muito obrigada.
24:51E eu te agradeço, Pri,
24:53te dou parabéns
24:53pelo teu canal,
24:54por toda essa tua audiência
24:56e por esse tema tão importante,
24:58você como mulher,
24:59jornalista,
25:00de destaque sabe também
25:01e com certeza já passou
25:03por vários tipos de violência
25:04que isso não é exclusividade
25:06de A, B ou C.
25:07Todas nós temos
25:08alguma história próxima
25:10ou nossa
25:11ou próxima a nós
25:12para compartilharmos.
25:13Então, que bom
25:14que esse tema
25:15está sendo trazido aqui por você
25:17e obrigada,
25:18de verdade,
25:19uma honra estar aqui
25:20por essa oportunidade
25:21da gente falar disso.
25:22Eu que agradeço,
25:23muito obrigada.
25:24Obrigada.
25:24E mulherada,
25:26a gente viu hoje
25:27que todos os direitos
25:30a nossa voz
25:32e o nosso espaço,
25:34eles são garantidos.
25:36Eles não são um privilégio da mulher.
25:38Eles são conquistas
25:40que a gente precisa
25:42respeitar.
25:43então, mulher
25:45que está hoje
25:46sofrendo uma violência,
25:48não ache
25:49que você não
25:49que não tem jeito
25:51para você.
25:51Tem jeito sim.
25:53Basta que você tenha
25:54coragem,
25:55como a Janice disse,
25:56coragem de contar
25:57a sua história
25:58e não tenha
25:59vergonha
25:59de contar ela.
26:01Então,
26:01eu te espero
26:02no próximo episódio
26:03do Dó Delas,
26:04porque juntas
26:05nós somos
26:06imbatíveis,
26:07mulherada.
26:08Vem.
26:09Vem.
26:15Dó Delas,
26:16mulheres que inspiram
26:17a Amazônia que acontece.
26:19Patrocínio,
26:20Banco da Amazônia,
26:21sonhar, mover e impactar.
26:24Claro,
26:25você merece o novo.
26:29Sebrae Delas,
26:30toda conquista
26:31inspira a próxima.
26:34Realização Dó.