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No programa especial "Desafios municipais: o que cobrar de prefeitos e vereadores?", da Rádio Pan News Vitória, a comentarista de política, Gabriela Cuzzuol fala sobre patrimônio cultural e aponta a importância de valorizar as manifestações materiais e imateriais da cultura local. Ela aponta ainda a importância de alinhar as pautas culturais a outras de cada cidade, como economia e turismo, por exemplo. E o gestor, precisa ter criatividade para cumprir a obrigação de fortalecer a identidade cultural do cidadão.
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NotíciasTranscrição
00:07Boa tarde para você ouvinte Pan News, você acompanha a partir de agora mais um programa da série especial
00:14Desafios da Gestão Municipal que cobrar dos prefeitos e vereadores.
00:18Eu sou Patrícia Scalzer e aqui comigo o editor de política da Rede Vitória, Edu Copernic.
00:22Boa tarde, Edu.
00:23Boa tarde, Patrícia. Tudo bom?
00:25Tudo ótimo. Gabriela Cusual, nossa comentarista de política aqui também.
00:29Boa tarde, Gabi.
00:30Boa tarde, Patrícia. Boa tarde, Edu. Boa tarde, ouvinte da Pan.
00:33É um prazer estar com vocês mais uma vez hoje conversando, batendo esse papo sobre patrimônio cultural,
00:38essa instância tão importante nas nossas vidas.
00:41Pois é, Gabriela. As prefeituras, elas precisam ter um plano municipal de cultura?
00:48Definitivamente. É uma das determinações do artigo 206 da Constituição Federal.
00:53Mas, de fato, Patrícia, é importante esclarecer que não é obrigação apenas das prefeituras.
00:58De acordo com a Constituição Federal, é o que se chama de obrigação entre todos os entes federativos, União, Estado
01:08e Município.
01:08É bastante interessante porque, no que se refere ao governo federal, a intenção, no que tange à criação do Sistema
01:17Nacional de Cultura,
01:18é de fazer algo parecido com o SUS.
01:19Transferir recursos para os estados, então, para que os municípios desenvolvam suas próprias atividades.
01:26Porém, a competência é dividida.
01:28Tanto que, por exemplo, um artista do Espírito Santo pode, sem problema algum, pleitear um incentivo, por exemplo, do PRONAC,
01:35a famosíssima Lei Rouanet, que vai conseguir captar recursos da iniciativa privada,
01:41via desconto, através de um desconto, que é oferecido às empresas que apoiarem projetos culturais.
01:49Então, estados, municípios e União dividem as competências.
01:53E, conforme temos colocado aqui neste debate,
01:56atividade, o patrimônio cultural, material e imaterial,
02:01que fica nos limites do município, da cidade, é gerido pelas prefeituras.
02:06E, na sua avaliação, por que esse patrimônio e por que a cultura do município é tão importante para o
02:12cidadão
02:12e como isso pode fazer diferença na vida do cidadão?
02:16Cultura tem uma relação direta com memória e com identidade.
02:20Nós não sabemos quem nós somos, se não for pela cultura.
02:24De fato, Edu, as pessoas têm um imaginário popular que associa a cultura apenas a manifestações artísticas ou de entretenimento.
02:33É muito mais do que isso.
02:35Aqui no Estado do Espírito Santo, nós temos as paneleiras, nós temos o Congo, nós temos o Jongo,
02:41nós temos manifestações de cunho religioso fortíssimo.
02:45Nós temos uma série de manifestações culturais que estão totalmente associadas à nossa identidade.
02:52Então, as atividades culturais, elas complementam, sim, atividades educativas,
02:58mas elas também têm uma relação direta com a nossa identificação enquanto povo do Estado do Espírito Santo,
03:03enquanto população residente no município de Vitória ou de Vila Velha ou da Serra ou de Cariacica.
03:10Muito importante colocar que tanto no que diz respeito ao patrimônio material como patrimônio imaterial,
03:17os municípios também têm especificidades.
03:20Nós temos aí Congo na Serra, nós temos Congo na Barra do Jucu,
03:25nós temos uma atividade cultural de cunho religioso bem muito forte e muito tradicional,
03:32inclusive nacionalmente, sediada em Vila Velha.
03:36Nós temos ali aquela região no Estado do Espírito Santo,
03:38já, né, aquela região de Itaúnas, que também tem aspectos culturais muito fortes,
03:43Anchieta, tradições.
03:45Então, os municípios, né, eles também têm especificidades na área cultural
03:49que ajudam o cidadão a se identificar como parte daquele ambiente.
03:54Mas o que a gente vê é que muitos municípios aqui do Espírito Santo
04:00não têm essa visão da importância da cultura e acabam não investindo o que deveria nessa área.
04:06Definitivamente, Patrícia. A valorização e importância da cultura está muito associada à educação.
04:12O Brasil tem um gap educacional muito sério, muito grave, né.
04:16É muito interessante porque uma das atividades mais importantes, né,
04:21que é desde sugerida pelo Ministério da Cultura,
04:24quanto via de regra fomentada pelos estados e nos municípios, é a educação patrimonial.
04:29A educação patrimonial são atividades realizadas não apenas em conjunto com as escolas,
04:34mas também oficinas, feiras, uma série de atividades que levem as pessoas a valorizar
04:40as manifestações culturais dos ambientes em que vivem e também as estaduais e nacionais.
04:45E o governo municipal, o gestor municipal, o que ele deve fazer?
04:50Ele deve ter, como a Patrícia falou, sobre um plano, ele deve destinar recursos,
04:56como ele vai destinar recursos, como ele pode captar recursos
04:59para dar atenção para o patrimônio cultural do município?
05:03Bem, ele deve fazer, não. Ele tem a obrigação de fazer, né.
05:06É uma das atribuições do gestor.
05:08É muito importante que fique claro que não é nenhum tipo de benfeitoria, né,
05:15um município...
05:16Não é o a mais.
05:16Não, não é caridade, não é benfeitoria, não é um favor que o gestor faz à população.
05:22É salvaguardar, ou seja, preservar o patrimônio cultural,
05:26nem incentivar nenhum tipo de atividade cultural.
05:28Não é obrigação, porque tem a ver com conhecimento, tem a ver com identidade,
05:32tem a ver com memória.
05:33A gente precisa diferenciar a cultura do entretenimento, que também tem sua importância.
05:38O entretenimento está totalmente associado a uma indústria, a atividades comerciais.
05:42É muito importante para o bem-estar da pessoa, mas são instâncias diferentes, né.
05:46Então, não é nenhum tipo de favor.
05:48Bem, Edu, a primeira coisa que o gestor precisa fazer é elaborar um plano municipal de cultura,
05:52que consiste no quê?
05:54Num diagnóstico, né, diagnóstico e inventário cultural.
05:57É preciso que o gestor identifique quais são as atividades culturais do município,
06:03quais são os patrimônios, e aí nós temos os patrimônios materiais.
06:07O que é um patrimônio material, Patrícia?
06:09Fala para mim.
06:09A Igreja do Rosário, na Prainha.
06:11A Igreja do Rosário, na Prainha.
06:13O Convento da Penha.
06:14O Convento da Penha.
06:16Museus, nós temos aí museus, né, ali no Centro de Vitória.
06:19O Centro de Vitória é um sítio cultural riquíssimo da capital do nosso estado, por
06:23exemplo, com vários prédios, Casa Porto de Artes Plásticas, por exemplo, relacionada
06:27à cidade de Vitória, né.
06:29São patrimônios materiais, tangíveis, aquilo que nós podemos tocar, que nós podemos ver.
06:34E nós temos também patrimônio imaterial.
06:36O que é um patrimônio imaterial?
06:39É aquilo que você não toca, né.
06:40Por exemplo, as panelas de barro de Vitória, o que é tombado, o que é salvaguardado é o
06:46fazer.
06:47As pessoas acham que é a panela, não.
06:49É o modo de produção de panela que é tradicional e que está relacionado a conhecimentos ancestrais
06:54do nosso povo, a nossa identidade, a nossa história.
06:58Então, o que é preservado, o que é tombado, o que não pode ter suas características originais,
07:06repensadas, alteradas, é este saber, né.
07:09O Congo também é um exemplo de patrimônio imaterial do estado do Espírito Santo.
07:13Então, o município, no que tange aí os limites territoriais, ele precisa preservar
07:19esse patrimônio.
07:21Depois de feito o diagnóstico e inventário do patrimônio, é preciso que se submeta
07:25à Câmara de Vereadores a aprovação do sistema municipal de cultura, que tem aí cinco
07:30etapas, né.
07:32O devido plano, o desenvolvimento do plano, o estabelecimento de uma conferência municipal
07:36de cultura, em que você tem participação de elementos da sociedade civil para discutir
07:41as ações, né.
07:42Você tem aí o desenvolvimento ou aperfeiçoamento do órgão municipal de cultura, no caso,
07:47uma secretaria.
07:48Você vai ter o Conselho Municipal de Cultura, que é composto por representantes das classes
07:53culturais.
07:53E você vai ter o sistema municipal de financiamento à cultura, né.
07:57Vai ser essa parte do recurso, que pode ser transferido via editais, né.
08:02Aí você pode fazer uma transferência direta para o agente cultural, por exemplo, uma
08:06vez por ano, em meses específicos, né.
08:09Você pode ter um fundo de cultura, que é um depósito de valores para atividades específicas.
08:16Muito interessante, nacionalmente, por exemplo, você tem a Lei Rouanet, que possibilita que
08:21as pessoas apresentem seus projetos e possam pleitear um determinado desconto de imposto
08:27a ser aplicado a empresas que visem fomentar projetos culturais.
08:32Mas você também tem fundo de cultura, que vai contemplar projetos muito específicos e
08:36que dificilmente teriam apoio da iniciativa privada, né.
08:39Por exemplo, em uma determinada ocasião, um fundo foi contemplado com uma enciclopédia
08:44de linguagem indígena, né.
08:47Talvez fosse complicado você conseguir um patrocínio privado para esse tipo de material
08:51muito específico a ser utilizado com comunidades que muitas vezes, geograficamente localizadas
08:57em regiões distantes, né, que talvez não conseguissem aí a contrapartida em publicidade.
09:03Então, para isso, você teria o fundo.
09:05Essas formas de fomento via recurso municipal, né, ela é definida também via plano municipal
09:15de cultura.
09:17O que me chama muito a atenção é, às vezes, os gestores se queixam, e realmente acontece,
09:23a falta de recursos para uma série de áreas que são consideradas por esses gestores ou
09:28até mesmo pela população como prioritárias.
09:31A gente fala de saúde, educação, saneamento básico, coleta de lixo, que a gente já citou
09:37aqui.
09:38Como é que tem que ser esse equilíbrio de...
09:41O município tem uma deficiência em educação, com escolas, por exemplo, com creches, mas
09:48também tem a obrigação de investir na cultura.
09:51Como é que é esse equilíbrio?
09:52Como é que tem que ser esse equilíbrio?
09:54Edu, em primeiro lugar, é importante que se deixe de pensar em cultura como algo acessório
09:59e se passe a atribuir à cultura o valor que ela tem.
10:02Você não existe, não há povo desenvolvido em termos de educação, inclusive economicamente,
10:09sem que se valorize a cultura.
10:12Por outro lado, sim, a gestão municipal precisa abarcar uma série de áreas, ela precisa incluir
10:19uma série de áreas e a gente sabe que os recursos são limitados.
10:22No caso das atividades culturais, o que tem funcionado muito bem, de forma muito eficiente,
10:27são as parcerias.
10:28A gestão de patrimônio material realizada em parceria.
10:36Nós temos inúmeros exemplos, desde o Tate, na Inglaterra, que é um museu público, mas
10:43que tem 70% de suas receitas advindas de parcerias com a iniciativa privada, patrocínios, ações
10:50específicas, até o Museu do Louvre, o Museu Rua Miró.
10:53Nós temos o exemplo do MASP em São Paulo também, que tem aí esse capital misto.
11:01Então, cada vez mais é possível que, aliás, a França, nós falamos do Louvre, a França
11:05é um país bastante estatística em que o Estado tem uma atuação muito consistente, porém,
11:10no que se refere à cultura, eles são grandes incentivadores do mecenato, de que atores
11:16privados participem, incentivem a cultura, estimulem a cultura.
11:21Tanto que nós temos aí, comumente, marcas de grande prestígio associadas à criação
11:27artística, difusão artística, ações artísticas.
11:29Mas olha só, desculpa, Patrícia, só para a gente continuar nesse assunto, a gente pega,
11:35a gente está falando de Miró, está falando de...
11:39Museu Rua Miró.
11:40Tudo bem, o Museu de Miró na Espanha, a gente está falando de Paris, a gente está falando
11:45de Londres, mas a gente tem aqui no Espírito Santo municípios com 4, 5, 6 mil habitantes,
11:51com 10, 12 mil habitantes.
11:53Como é que a gente consegue transferir essa experiência, que é uma experiência em mega
11:58cidades, em mega... em países super desenvolvidos, para a nossa realidade aqui do Brasil, do Espírito
12:04Santo?
12:05Como é que a gente faz isso?
12:05Primeiro lugar, através da valorização, você tem que valorizar a cultura.
12:10O Inhotim, que foi um empreendimento ali em Brumadinho, foi construído numa cidade super
12:15pequena, inclusive fomentou.
12:16Num primeiro momento, fomentou a atividade comercial ali.
12:20Criação de pousadas, muitas restaurantes.
12:22Exatamente, Itaúnas tem uma atividade muito ligada ao turismo e também à identidade cultural.
12:29Você vai em qualquer lugar do Brasil, as pessoas ouvem falar Itaúnas, por exemplo, muito
12:33associada à música, que é patrimônio imaterial, gente.
12:37Música é patrimônio cultural imaterial.
12:39Você tem uma associação muito clara.
12:40E aí você tem um incentivo, por exemplo, por meio do turismo.
12:44É claro que a gente não pode pensar em talvez uma cidade pequena, do interior do Estado,
12:50com menos recursos, como algo grandioso.
12:53A gente está falando aí do Louvre.
12:55Agora eu acho que a gente precisa ter um outro olhar.
12:57A gente precisa pensar que Paris é Paris porque eles valorizaram o que eles tinham.
13:03Porque eles vêm com um percurso histórico de valorização do patrimônio cultural.
13:07E o Espírito Santo é um Estado privilegiado.
13:11É um Estado contemplado não só com uma riqueza cultural muito expressiva,
13:15como também com características geográficas muito satisfatórias.
13:18E aí, Edu, um município pequeno pode pensar o quê?
13:22Desenvolvimento de atividade cultural junto com atividade de turismo,
13:26junto com atividade de educação.
13:28Você pode fazer parcerias para otimizar recursos nesse sentido.
13:31Você tem uma secretaria de cultura local.
13:34Aliás, Domingos Martins faz isso.
13:35O município de Domingos Martins faz isso.
13:37Eles têm atividades integradas.
13:39Tem aquela questão das colônias alemãs, italianas,
13:46muito associadas às tradições culturais, às festas.
13:50Desenvolvendo atividades conjuntas com o turismo.
13:52Mas você acha que dá para desenvolver esse tipo de atividade
13:55mesmo em municípios que aparentemente não têm atrativos culturais?
13:59A gente sabe que tem municípios no Espírito Santo que são assim.
14:02São municípios menores, municípios que foram emancipados mais recentemente
14:07de outros municípios maiores.
14:09Você acha que a cultura se encontra em todo e qualquer município?
14:12Todo e qualquer lugar.
14:13Eu acho que é questão de valorização.
14:15Cada município tem a sua identidade.
14:17Tem ali aquela marca registrada que só aquele município tem.
14:20Cabe também aí o secretário de cultura ter essa visão.
14:23Claro, é claro.
14:25Eu acho que você precisa pensar que há uma herança cultural ali,
14:29uma identidade cultural ali muito particular.
14:31Até porque o Espírito Santo é um estado relativamente pequeno.
14:35Os municípios são muito próximos uns dos outros.
14:38E eu penso que esse olhar da valorização é fundamental.
14:41Vocês conhecem o festival de arte nos Estados Unidos chamado Burning Man?
14:45Não.
14:45É um festival de arte anual.
14:46É conhecido como a Nova Woodstock.
14:48Acontece há vários anos dentro do Vale do Nevada.
14:52Eles construíram um dos maiores festivais de cultura alternativa do mundo no meio do deserto.
14:56Eles sobem uma cidade do meio do deserto durante aqueles dez dias de festival.
15:01Depois eles desarmam a cidade todinha.
15:03É impressionante.
15:05No meio do nada, uma região árida.
15:07É um festival assim, hoje, muito conceituado, muito famoso,
15:11que atrasa turistas do mundo inteiro e movimenta ali dezenas de milhões de dólares.
15:16No meio do nada.
15:18A partir do quê?
15:18De uma convicção, de uma herança cultural que precisava ser valorizado e de que era possível fazer.
15:23Eu não estou falando que uma cidade do Espírito Santo com 10 mil habitantes vai desenvolver o Burning Man.
15:29O que eu estou chamando a atenção para os gestores de cultura, para os agentes de cultura, para os artistas
15:33locais,
15:34é que é possível fazer muito se você tivesse olhado a valorização.
15:38E com poucos recursos.
15:39Como é que você lida com a falta de recursos?
15:43Utilizando, da melhor forma, os poucos recursos que se tem.
15:46Faça parceria.
15:47Convide o secretário de turismo para conversar.
15:50Faça uma reunião com os empresários locais.
15:52Será que o empresário local, por exemplo, não quer ter um artista ali no seu estabelecimento?
15:56Ah, Gabriela, mas a cultura não é isso.
15:58A cultura é teatro.
15:59Eu concordo.
15:59Então, chama o secretário de cultura para conversar.
16:01Se você não tem um teatro, talvez você possa ter algo itinerante.
16:04Talvez você possa ter um aproveitamento de um outro prédio ali para a realização de espetáculos.
16:09Eu acho que a gente não pode jamais partir do princípio que só conseguimos realizar se tivermos todas as estruturas
16:15ideais.
16:15A gente começa com o que tem e aí vai melhorando.
16:18Gabi, esse setor cultural foi um dos mais afetados nessa pandemia, né?
16:23Definitivamente.
16:24Por conta de fechamento de teatro, cinemas.
16:28Você que está acompanhando aí de perto as propostas dos candidatos para as eleições deste ano,
16:34eles estão preocupados, então, com esse setor?
16:37Eles colocam alguma coisa para o setor cultural no projeto de governo deles?
16:42Então, Patrícia, há muitas coisas, há muitas propostas, há muitos projetos, né?
16:49Alguns bem razoáveis e alguns bastante mirabolantes.
16:53O que eu penso é que muitos projetos fundamentados no repasse direto de recursos, o que é importante, não deixa
17:00de ser importante, sobretudo, no setor que foi tão impactado.
17:02O setor de eventos não vai conseguir voltar a trabalhar de forma plena até o final do ano.
17:08Na verdade, de forma plena não se sabe quando.
17:11E aí eu estou falando não apenas do setor cultural, mas também do setor de entretenimento.
17:15Não apenas das atividades artísticas, mas também das atividades de entretenimento, de diversão.
17:19São finalidades distintas, né?
17:21E o que eu penso é que é preciso que se pense a cultura de forma orgânica e integrada.
17:26Você precisa pensar novas maneiras.
17:29Na verdade, os artistas, o campo das artes está pensando.
17:34Está tentando se adaptar à questão da tecnologia.
17:36Está fazendo o que é possível ser feito.
17:38Pelo que eu tenho estudado nas propostas dos candidatos, muito focada nos repasses de recursos e menos em estratégias inovadoras
17:48para que o setor se reestruture depois da pandemia.
17:51E a gente tem que levar em conta o quê?
17:52Que a pandemia reconfigurou nosso modo de viver.
17:55Não vai ter voltar o que era antes.
17:56Vai ter o que se chama de novo normal.
18:00Realidades distintas, né?
18:01Então, eu penso que, via de regra, claro, você tem algumas exceções, mas via de regra, as estratégias para o
18:07setor de esculturais estão pouco criativas e pouco inovadoras.
18:13Eu ia te perguntar justamente, a cultura tem que ser otimizada no município com outras áreas, educação, saúde, muitas vezes.
18:25Como que o gestor tem que pensar isso?
18:28É o que você já citou aqui, mas como que ele vai pensar isso?
18:31Como que ele vai pensar a cultura permear outros setores do município?
18:37A cultura é uma entidade dinâmica.
18:41Não existe cultura sem dinamismo.
18:43Na verdade, o próprio conceito de cultura implica em dinamismo.
18:47A cultura é algo que está sempre em evolução.
18:49Então, a gente não pode falar de desenvolvimento cultural em aspecto nenhum, seja de atividade cultural, seja de preservação de
18:57patrimônio, que a gente está tratando aqui, sem que a gente fale em integração.
19:02Eu coloquei que uma das principais vertentes da atuação do poder público no que tange à cultura é a educação
19:09patrimonial.
19:10É que se ensine aos cidadãos, desde cedo, a valorização e a importância da cultura.
19:15Na escola?
19:17E também em oficinas, em feiras, em outras atividades de forma integrada.
19:22A educação patrimonial, ela deve acontecer de forma integrada.
19:25É tão interessante isso, né?
19:27Nós temos aí vários exemplos, inclusive da nossa capital, em que você constrói, às vezes, estátuas, faz bustos e daí
19:34a dias você tem aquilo tudo depredado.
19:36Depredado, porque a população, muitas vezes, não tem consciência da importância daquilo.
19:40Acha que é um enfeite qualquer bem.
19:43Ainda que fosse enfeite, não seria motivo para depredação, mas, assim, acha que é algo qualquer que custou muito dinheiro
19:48público, vai lá e arrebenta, quebra, destrói.
19:51O que é isso?
19:52Falta de consciência acerca de patrimônio cultural.
19:56Falta de identificação, de representatividade com o patrimônio cultural.
20:00Isso se resolve com educação patrimonial.
20:02Só pode ser feito, Edu, em parceria.
20:04É o que eu coloquei.
20:06No que se refere aos setores econômicos, parceria aí com turismo, com empresas, com indústrias, de forma que a roda
20:15possa girar melhor.
20:16No que tange a educação, eu não consigo conceber forma de desenvolvimento cultural sem estar ali aliado às atividades educacionais.
20:25E a gente vê também, Gabriela, você citou essa coisa das parcerias.
20:29A gente vê que empresas daqui do Espírito Santo usam essa identidade para vender.
20:36A gente vê em propaganda, a gente vê...
20:39Está na hora de chamar essas empresas, então?
20:41Está na hora do gestor sentar com essas empresas e chamar para dar um gás no patrimônio cultural, na disseminação
20:49dessa ideia de patrimônio cultural?
20:51Edu, as empresas sempre foram convidadas para conversar.
20:55Sempre se chamaram as empresas para esse diálogo acerca do fomento à cultura.
21:00Se a gente for pensar, o próprio conceito da publicidade, ele está muito atrelado à coisa da arte.
21:06Quando você vê uma peça publicitária, quantos elementos artísticos você tem ali?
21:09Não que a publicidade seja em si mesma manifestação artística, não.
21:14Mas ela emprega em si mesma vários elementos da arte, a coisa da estética e tal.
21:19O que eu penso é que, nesse momento tão específico, é preciso que se melhorem as estratégias.
21:25O gestor precisa chamar os setores para conversar com estratégias de inovação, com estratégias modernas, de integração.
21:33Entendeu?
21:34Chamando mesmo para trabalhar junto.
21:37Tanto pelo dever cívico, mas, sobretudo, porque aquilo vai ser importante para o negócio dele.
21:42É, e a gente, quando a gente viaja para um outro estado, para um outro país, a gente quer ir
21:49no museu, quer conhecer um prédio histórico.
21:51E falta isso aqui, no Espírito Santo.
21:53As pessoas que vêm aqui conhecer o Espírito Santo têm carência de um museu, têm carência de conhecer um prédio
21:59que seja histórico
22:00e que esteja sendo valorizado, que não esteja depredado.
22:04Carência de edifícios, não.
22:06Temos vários, desde a Casa Porto de Artes Plásticas, de Contemporânea, até o próprio Palácio, Palácio Anchieta.
22:15Temos aí um patrimônio riquíssimo.
22:17O que a gente quiser, em termos de cultura, nós temos.
22:20O que falta é a devida valorização.
22:22O que falta é o que eu estava colocando.
22:25Nos Estados Unidos, eles subiram um festival de arte alternativa, que hoje eu estava verificando.
22:32Aqui tem público superior a 100 mil pessoas anualmente, gente do mundo inteiro, inclusive um grupo grande do Brasil, no
22:37meio de um deserto, entendeu?
22:39Então, falta é que a gente valorize o nosso patrimônio, né?
22:43É muito interessante, é muito comum a gente ter, às vezes, capixabas espíritos santenses que não conhecem os nossos próprios
22:49patrimônios.
22:50Que nunca foram.
22:50Que nunca foram.
22:52Nunca fez uma visita guiada no Palácio Anchieta, que é aberta da população.
22:54Que é aberta, que é super interessante, que é bonito, que é bem cuidado, que tem a ver com a
22:58nossa história, memória, identidade, entendeu?
23:01E a gente não vai, né?
23:03Então, assim, eu penso que é, sobretudo, pela valorização.
23:08E, assim, pelo que eu acompanho, existe um esforço nesse sentido.
23:12Vitória trabalha isso há algum tempo, o governo do Estado trabalha isso há algum tempo, né?
23:16Eu vejo um espaço grande para que se amplie parceria, sobretudo com a educação, para que isso se potencialize.
23:21Porque, a partir dessa potencialização, várias outras coisas podem ser feitas, né?
23:26Eu dei o exemplo aqui de uma cidade que teve, inclusive, atividade econômica parcialmente fomentada por um empreendimento cultural.
23:35Isso acontece várias vezes, né?
23:37Via parques, né?
23:39Então, quer dizer, é questão de você vislumbrar aquilo como um projeto, com metas, com resultados,
23:46integrar, chamar a partir de estratégias modernas, inovadoras e executar.
23:52E colocar a população junto desse projeto também.
23:55Sempre, sempre.
23:55Mas os próprios planos municipais de cultura, Edu, eles abrem bastante espaço para a população, né?
24:01Por meio dos conselhos, por meio das conferências, são feitas inúmeras consultas públicas, né?
24:06E, gente, nós, a população, nós não apenas produzimos cultura, como consumimos cultura o tempo inteiro, sabe?
24:15O brasileiro, nós somos assim, nós estamos permanentemente em contato com música, com literatura.
24:22É tão interessante, fala-se muito em recurso.
24:25Gente, quanto custa uma roda de contação de história com criança, sabe?
24:30Entendeu?
24:31Então, coisas simples, às vezes, que não demandam tanto recurso, sabe?
24:35Quanto custa você fazer grupos de crianças de escola em um determinado horário para fazer visitas pela biblioteca?
24:41Há várias, o Sesc Glória tem uma biblioteca super legal, tinha, não sei se continua tendo, mas inúmeras atividades envolvidas
24:49ali, entendeu?
24:50Então, assim, é claro que o incentivo financeiro é muito importante, mas as estratégias de fomento também são.
24:58E na gestão, as gestões municipais do Espírito Santo pecam muito em relação a isso.
25:03Não é só o edital.
25:05O edital é importante para fazer acontecer, mas não é só o edital.
25:08Não é só entregar aquele recurso para o artista.
25:11O artista vai desenvolver um projeto e vai passar o resto do ano sem.
25:14É você fomentar para que aquilo se torne permanente, para que aquilo se torne permanente.
25:18Esse é o pulo do gato, né?
25:19Esse é o pulo do gato.
25:20E eu acho que nós estamos em um estado muito privilegiado em relação a isso.
25:25Nós estamos em um estado muito especial em relação a patrimônio cultural, tanto material quanto imaterial.
25:31Chegamos ao fim de mais um programa.
25:33Passou rápido, né?
25:34Foi rapidinho.
25:35Gabi, obrigada pela sua participação.
25:36Eu que agradeço.
25:38Um prazer estar com vocês mais uma vez.
25:39Até sexta-feira.
25:40Edu, obrigada.
25:41Até sexta.
25:42Valeu, até sexta, Patrícia.
25:43Agora a gente vai para um rápido intervalo e na volta você fica aí com a Pan News.
25:54Transcrição e Legendas por Quintena Coelho
25:54Transcrição e Legendas por Quintena Coelho