- há 3 semanas
Produtor musical e jornalista, Edu Henning entrevistou 260 artistas e personalidades culturais durante a quarentena provocada pela pandemia do novo coronavírus. Confira no canal do vocalista da icônica banda Big Beatles lives que abordam desde a trajetória musical a questões curiosas de importantes nomes da música brasileira.
Categoria
🗞
NotíciasTranscrição
00:13Agora sim, beleza.
00:16Deixa eu ver aqui, deixa eu ver aqui, só um instante Maurício.
00:33Estou ouvindo, estou ouvindo você.
00:35Você está me ouvindo também, beleza?
00:37Agora estou ouvindo bem.
00:40Você está bem?
00:42Estou ótimo.
00:42O negócio é, a gente vai passando por esse período assim, da forma mais possível,
00:49ou na verdade, na forma mais impossível.
00:52Mas é isso, tem coisa que a gente não pode fugir.
00:57Eu quero te agradecer muito a tua boa vontade, seu carinho de estar aqui com a gente, conversando.
01:03Você é a minha entrevista 234, rapaz.
01:06Eu estou a 234, de estar encafiado fazendo entrevista.
01:10Mas isso vai acabar, vai acabar.
01:12Vai sim, para mim já está acabando.
01:15Eu já saí de casa, fui a fazer show em Belém.
01:19Já participei de um show solo, não é show do Boca Livre.
01:23Show solo meu, no festival de jazz que teve lá, Tapa Jazz.
01:29Geralmente, eles fazem ali em Santarém, nas margens do rio Tapajós, ali em Alpera do Chão.
01:38E, dessa vez, por causa de condições lá, de segurança, foi feito em Belém,
01:44no teatro maravilhoso lá, o Teatro Waldemar Henrique.
01:48E com um número mais reduzido de pessoas, mas com gente presente.
01:53Isso é bom.
01:54Aí também participou do Ninho Horta.
01:56Fiquei com o prazer de ter uma participação no show dele também.
02:01Ele me chamou inesperadamente.
02:03Foi maravilhoso.
02:05Então, são as coisas que a gente vai fazendo quando dá.
02:08Então, acho que a tendência é a gente ir voltando aos pouquinhos.
02:12Isso é bom.
02:13Vamos lá. Maravilha, maravilha.
02:15O Carlos Maurício Mendonça Figueiredo nasce na Tijuca.
02:20Era eu antigamente, era esse cara, isso aí.
02:25Você nasceu perto da Praça Sã Espenha.
02:30Ficou na Tijuca.
02:33Só nos primeiros quatro anos.
02:36Porque a casa onde eu nasci, ela foi desapropriada para cortar, para passar uma avenida.
02:46Inclusive, eu fiz uma música chamada Avenida, lá onde eu nasci agora, passo uma avenida.
02:54E levou embora a vida e me deixou criança.
02:57É aquela coisa, a gente vai apagando certas recordações, mas toda vez que eu passo naquela esquina ali,
03:04é como dizia, só quando cruza Ipiranga e Avenida São João.
03:09Ali também tem uma coisa que acontece no meu coração ali.
03:13Porque, apesar de ter sido uma, digamos, uma recordação, como é muito pequeno,
03:19depois eu saí, fui lá para o...
03:21Eu morei a maior parte da minha vida no bairro do Flamengo.
03:26Mas agora eu voltei para a Tijuca.
03:28Então, agora eu estou morando mais distante mesmo, lá no final da Tijuca.
03:33Você está onde na Tijuca?
03:35Na usina, lá no final da Conde de Bonfim.
03:40É bom.
03:40Aqui é legal porque, como eu falo, já passou da arrebentação.
03:44Então, aqui é tranquilo.
03:46Você está ali perto do Larguinho, onde?
03:49Um pouquinho, um pouquinho antes.
03:52Aqui era onde fazia o bonde, fazia a curva, né?
03:55Mas eu estou um pouquinho antes, mas é o primeiro edifício.
03:58Então, é um lugar assim que parece uma cidadezinha do interior, tem pouca coisa, né?
04:03Quando quiser, pega um ônibus ou pega um, sei lá, táxi, se precisar.
04:08Sai dali, vai até metrô, perto também.
04:11É tudo bom.
04:12Eu gosto muito daqui.
04:14Eu gosto muito da Tijuca.
04:18Eu nasci, eu estou em Vitória a minha vida inteira, mas eu nasci na rua Conde de Bonfim,
04:23em frente à Sousa Cruz, perto de você aí, que agora a Sousa Cruz virou um supermercado gigantesco.
04:33Que acabou, que o Carrefour teve tanto assalto ali, que resolveram desativar aquele monumento
04:41ao sei lá o quê, né?
04:43É uma coisa assim.
04:44Mas era ali, pertinho, bem pertinho.
04:46E aí eu subia para a Everett Richards, batia na porta da Everett Richards, que eu queria ser do Flamengo.
04:55Que é praticamente em frente aqui de onde eu moro.
04:58Vamos lá, aí você sai da Tijuca, tem quatro anos, vai para o Flamengo.
05:02O Flamengo, você morou ali uns três ou quatro apartamentos e ali começa uma história.
05:09Sua mãe boa de piano, seu pai bom de violão e compositor.
05:14E aí eu queria que você me falasse da magia que foi, na sua formação pessoal,
05:22como instrumentista, compositor, como cantor e como ser humano,
05:26o fato de alguns nomes da música popular brasileira de relevância e importância
05:32andavam circulando o apartamento dos seus pais para tocar o violão,
05:38para trocar uma figurinha, para uma conversa afiada.
05:40Quem eram essas pessoas, por favor, Maurício?
05:43Pois é, isso aí já foi um pouquinho mais tarde.
05:46Quer dizer, na verdade, logo que eu fui lá, eu tinha de cinco até oito, nove anos.
05:55Eu morei nesse lugar aí, depois ele foi para um outro apartamento,
05:59na Rua Miranda da Mandaré, que é onde eu fiquei mais tempo.
06:03E ali, meus pais, como você falou, meu pai compunha,
06:10minha mãe também tocava piano, meu pai tocava o violão mais para se acompanhar assim.
06:15Mas eles começaram a frequentar lugares onde conheceram um bocado de gente,
06:21pessoal que eu me lembro.
06:24Lamartine Bavo ia muito lá em casa.
06:27Luiz Vieira, realmente era um repentista fantástico.
06:33Ele chegava no meio de uma festa assim e ele fazia repente com todo mundo que estava na festa.
06:37Era um negócio maravilhoso.
06:39E o Lamartine, com aquele bom humor, cantando as músicas,
06:42ele tinha meia oitava de extensão vocal, ele mudava de oitava na hora de passar para uma melodia mais aguda.
06:50Ou quer dizer, ao contrário, porque ele só cantava meio no agudo.
06:54E era engraçado, o cara assim com um bom humor danado.
06:57E tinha também uma pianista, Tia Amélia, que era uma baiana assim,
07:03muito assim, energia pura, tudo bem, tocava chorinho maravilhosamente.
07:10Iam lá, mas essa turma, e outros que agora não estou me lembrando assim,
07:16mas essa turma era a chamada Velha Guarda,
07:20que eu também ficava olhando, era mais novo.
07:22Mas aí na época que começou a vir o negócio da bossa nova,
07:27aí começaram a vir uma outra turma.
07:30Aí era a turma que veio Carlos Lira, Roberto Menescal, Oscar Castro Neves,
07:37Baden Powell, Bebeto do Tambatril, Luiz Carlos Vinhas,
07:42o Chico Fim de Noite, Chico Feitosa,
07:45e outros assim que ficava cheio a casa,
07:49o pessoal ficava tocando.
07:51E é engraçado, na época, o pessoal ia pela música,
07:56mesmo, não queria ficar falando na hora,
07:59não é negócio para ouvir.
08:01O pessoal mostrava a música, todo mundo ouvia atento
08:04e queria tirar aquela música e conhecer a harmonia,
08:08aquelas composições todas novas, praticamente.
08:11Muita coisa, acho que eu ouvia assim,
08:14quase em primeira mão, o pessoal tocando,
08:16ah, o que eu fiz, aí trazia aquela música e depois a gente ouvia.
08:20Era muito legal.
08:21E eu era garoto.
08:23Engraçado.
08:24Eu queria entender um ponto,
08:26Maurício, me desculpe,
08:27um ponto importante nessa conversa.
08:29O que levava essa turma tão...
08:32Lógico que existia uma outra relação com a música,
08:35as pessoas queriam ouvir a música dos outros,
08:37queriam também mostrar as suas canções.
08:40Então, vamos chamar de sarau,
08:43porque não deixa de ser um sarau na casa de alguém?
08:46Não se lembrava de ser um sarau.
08:48Era um encontro, Maurício.
08:50Mas diga aí.
08:50Um encontro.
08:51O que levava essas pessoas, além da casa,
08:57brotar música?
08:58Porque ninguém vai para um lugar desse
09:00que o dono da casa é de cara fechada,
09:02que a dona da casa não derra um cafezinho e um bolo.
09:05Então, eu tinha...
09:08Nem o isquinho, nem o isquinho.
09:11Isso aí era muito importante.
09:12Tinha uma atmosfera provocada pelo seu pai,
09:15pela sua mãe,
09:16para trazer essa turma para dentro de casa.
09:19Porque aí você está falando de duas gerações.
09:21Você está falando de Labartine Babo,
09:25Luiz Vieira,
09:26duas vezes.
09:29E a turma mais nova.
09:30O que levava esse povo para a sua casa?
09:33Para um apartamento no Flamengo?
09:37Hoje, você olhando para trás,
09:38consegue encontrar esse fio condutor?
09:42Olha, eu acho que o encontro...
09:44Primeiro é o seguinte.
09:45Na época, as casas eram muito mais abertas.
09:49As pessoas se reuniam mais para esse tipo de coisa.
09:53As reuniões que tinham lá em casa...
09:55Meus pais iam em diversas reuniões
09:57na casa de outras pessoas.
09:58Na casa da Elisete,
09:59na casa da Silvinha Teles,
10:01na casa do Irceu Nery,
10:04que era filho da tia Amélia,
10:06era um artista plástico.
10:09Em vários outros lugares.
10:12Em outros locais,
10:13eles encontraram o Tom Jobim,
10:15encontraram o João Gilberto,
10:16encontraram o Vinícius,
10:17encontraram um bocado de gente
10:18que, por acaso, não foram lá em casa,
10:20mas faziam parte desse grupo.
10:23Agora, meu pai era um cara
10:26extremamente extrovertido,
10:28o Geraldo.
10:29Ele era extremamente extrovertido
10:31em boa praça.
10:32Todo mundo que chegava lá, realmente...
10:35E minha mãe era extremamente musical,
10:38sentia de piano.
10:40Ela harmonizava muito bem.
10:41Acho que tudo que eu aprendi
10:42da explicação harmônica
10:46das coisas que eu faço,
10:48muita coisa vem de ouvir
10:50o piano que ela fazia.
10:51que não era um piano técnico
10:53no sentido de mil floreios,
10:56mas a condução harmônica
10:58era muito boa.
10:59E o pessoal gostava.
11:00E as composições deles
11:01também refletiam isso.
11:03Então, tinha esses dois lados
11:06que se conjugavam.
11:08E os dois adoravam essas coisas.
11:11Eles iam muito,
11:12frequentavam à noite
11:13e tinham muita facilidade
11:15de se comunicar com as pessoas
11:16e trazer.
11:17Lá em casa é engraçado
11:19que também existe um fato
11:21muito importante.
11:23Sempre teve piano em casa,
11:25minha mãe tocava.
11:26Violão também.
11:27Agora,
11:29o meu irmão,
11:30que hoje é um grande psicanalista,
11:33mora em São Paulo,
11:35mas ele, na época,
11:36gostava de aprender,
11:39estava com esse irmão
11:40de aprender alguns instrumentos.
11:41No começo,
11:42ele tentou aprender acordeon,
11:44passou um tempinho estudando,
11:45largou.
11:46Minha mãe tinha acordeon em casa,
11:49só ela tocava.
11:51Mas aí,
11:52ele, na época,
11:52resolveu aprender bateria.
11:54Compraram a bateria,
11:55deixaram lá,
11:56bateria pequenininha,
11:57mas tinha lá bateria.
11:58Eu nunca vi ele pegar na bateria,
12:00nunca tocou.
12:01Mas a bateria estava lá.
12:03Então, chegava lá,
12:04por exemplo,
12:05levava um baixo acústico
12:07e estava um trio formado.
12:09os Castro Neves,
12:11que era o Oscar de piano,
12:15o Ico de contrabaixo
12:16e o Léo,
12:17que era primo deles,
12:18de bateria,
12:20chegava lá,
12:20já tinha um trio.
12:23Teve várias pessoas
12:26que chegavam lá,
12:27já tinham instrumentos.
12:29Isso aí também era um negócio atrativo.
12:31Não custa nada lembrar disso.
12:34Então, meu irmão,
12:34que nunca tocou nenhum instrumento,
12:37e eu acho que ele proporcionou também isso.
12:39Eu agradeço a ele.
12:41Agora,
12:42quando você pega o violão
12:44e quando você encontra
12:46a sua capacidade vocal
12:48e você começa a tocar o violão
12:52e a cantar
12:53antes de pensar em profissionalização,
12:56você não teve nenhuma preocupação
12:59e não teve nenhuma pressão
13:00da sua família,
13:01consequentemente,
13:02para que você não se tornasse
13:03o cantor,
13:05o arranjador,
13:06o compositor
13:07e o musicista.
13:08Nenhum problema nesse sentido.
13:10Não, nenhuma...
13:11Engraçado,
13:12eu sempre quis,
13:14eu sempre queria,
13:15achava que eu ia seguir
13:16a carreira de desenho,
13:18porque eu desenhava muito bem.
13:20Eu gostava de fazer a desenho.
13:23Quem sabe um arquiteto?
13:25Quem sabe um arquiteto?
13:26Meu pai era arquiteto,
13:27minha mãe era...
13:29Quer dizer,
13:29era professora,
13:30mas pintava muito bem.
13:32Ela pintava...
13:33Eu sempre gostei dessa parte também.
13:35sempre me liguei mais
13:38nas exatas,
13:40eu gostava de matemática também.
13:42Mas a música chegou uma hora
13:44que foi entrando,
13:45essa coisa da influência,
13:48de ver as pessoas perto,
13:50ouvir,
13:51comecei a despertar.
13:52Eu sempre ouvia muita música em casa,
13:54mas ouvia rádio,
13:56ouvia coisa,
13:57mas eu me lembro muito bem
13:58de quando eu era criança,
14:00eu ouvia...
14:02Tinha um disco,
14:03um disco,
14:04que era da Rapzod in Blue,
14:07e eu gostava o tempo todo
14:09do Gershon,
14:10né?
14:16Ripo, ripo,
14:17arranjo riquíssimo.
14:18E eu gostava,
14:19porque tinha uma parte no final
14:25que eu falava,
14:26pô, isso aí é Tom e Jerry.
14:28Isso aí parece Tom e Jerry.
14:30Porque eu assistia todo
14:31primeiro domingo do mês,
14:34e tinha um festival Tom e Jerry
14:36no...
14:37Arte de Júlia?
14:39Não, no Metro Passeio.
14:42Eu já era um...
14:43É, eu tinha no Metro de Júlia também,
14:45os metros que mostravam isso.
14:47Sim, exatamente.
14:49Mas é porque eu já morava
14:50mais perto do Metro Passeio,
14:51eu ia lá.
14:52Mas era assim,
14:54eu adorava aquela...
14:56Agora o negócio...
15:20Que era o tema do começo do Tom e Jerry.
15:22Eu gostava muito,
15:24lembrava sempre,
15:26e não é à toa que fiz umas musiquinhas assim,
15:29uns marchinhas,
15:30que tem essa característica.
15:32Mas então essa coisa,
15:34o ouvido vai se desenvolvendo,
15:37mesmo que a gente não preste atenção nisso,
15:40quanto mais coisas,
15:41mais riqueza a gente ouça,
15:43quando a gente é criança,
15:45coisa assim,
15:47é um negócio que,
15:49mesmo que a gente não preste atenção,
15:50a coisa vai entrando.
15:51Eu me lembro quando eu era do Jardim de Infância,
15:55Instituto de Educação lá,
15:57na Tijuca,
15:58eu fiz o Jardim de Infância lá,
16:00minha mãe era professora de lá,
16:02era professora de música,
16:03mas eu nunca tive aula com ela.
16:05Eu tinha com a outra amiga dela,
16:09mas lá tinha o seguinte,
16:12na hora que acabava o recreio,
16:14chegava,
16:15a pessoa reposava na carteira,
16:18todo mundo deitado assim na carteira,
16:19e tinha uma música,
16:20eu nem me lembro que música,
16:21mas era uma música calmante,
16:23aquilo ali ia entrando.
16:25Aliás,
16:25eu acho que uma das melhores coisas
16:26para ensinar música para as crianças,
16:29foi uma música suave e mais boa,
16:31e deixa elas assim,
16:33faz uma outra coisa com elas,
16:35desenha,
16:36vamos fazer desenho,
16:38vamos fazer outra coisa,
16:39vamos contar uma história,
16:40e deixa a música ali por trás.
16:42Então,
16:42eu acho que é uma das melhores coisas
16:44para ir formando o espírito musical,
16:46porque é mais do que o ouvido,
16:48é mais do que a vontade,
16:52o seu espírito a música pode fazer.
16:54Perfeito,
16:55perfeito.
16:55Agora,
16:56a outra,
16:57você tinha uma paixãozinha paralela à música,
17:01que era o basquete.
17:03Você pensou em levar a sério esse negócio do basquete?
17:05Pensou em ser um profissional?
17:06Não, não, não.
17:07Jogar na NBA?
17:09Não,
17:09de jeito nenhum.
17:10Eu tinha colega de turma,
17:13o Érico,
17:13que era fera,
17:15que ele era titular da equipe infantil do Botafogo
17:18até 15 anos,
17:19desde 11 anos,
17:20ele era titular e campeão,
17:224 anos.
17:23Aí,
17:23quando foi assim,
17:24quando eu tinha 14 para 15,
17:27aí ele me chamou,
17:28vai lá,
17:28que eu era alto na época,
17:30para a minha idade,
17:31vamos lá,
17:32treina lá no Botafogo também,
17:33não sei o quê,
17:34e jogava no clé de aplicação.
17:37Aí ele falou,
17:38vai lá no Botafogo também,
17:39fiquei treino na escolinha
17:40e no ano seguinte,
17:41quando eu fiz 15 anos,
17:42eu já integrei a equipe,
17:44mas era o último reserva,
17:45eu entrava naquele jogo,
17:46estava ganho,
17:47já assim,
17:48de lavada,
17:49aí eu entrava no finalzinho,
17:51assim,
17:51só para suar um pouquinho a camisa.
17:54Eu gostava mesmo mais de futebol,
17:56mas também nunca fui craque,
17:58não,
17:59eu gostava,
17:59aquele negócio disso aí.
18:02A única pena que eu tenho,
18:03que você torce para o Fluminense
18:05e o que a gente pode fazer assim?
18:07O importante é ter saúde.
18:08Eu acho que às vezes
18:09é uma pena que eu tenho também.
18:13Ontem,
18:14é uma pena que eu tenho também,
18:15de vez em quando,
18:16mas tudo bem,
18:17isso aí a gente passa adiante, né?
18:18Agora,
18:19o que eu acho interessante,
18:20que se a gente for pensar um pouco
18:21na sua história,
18:23na sua trajetória profissional,
18:24o momento em que você começa
18:26a tratar a música
18:28como uma grande possibilidade
18:29de ser sua forma
18:30de ganhar a vida,
18:31de dali para frente,
18:33a sua estreia,
18:35não vamos dizer estreia,
18:37mas o seu momento
18:38de grande visibilidade inicial,
18:40que foi participar do Festival da Record,
18:43isso foi muito curto.
18:45O momento em que você começa
18:47há um momento em que você se apresenta
18:50pela primeira vez
18:52num grande evento,
18:54que é a questão do Edu Lopo,
18:56é a questão da TV Record,
18:58porque a gente não pode esquecer
19:00jamais,
19:00da importância que era
19:03um festival
19:05transmitido
19:06por uma canal de televisão.
19:07As pessoas não podem esquecer
19:09que é como se você,
19:11hoje,
19:12atingisse
19:1230 milhões
19:14de visualizações
19:15num dia.
19:16Era o nosso computador.
19:18Isso não foi muito curto, não?
19:20Isso não foi muito curto.
19:22Na verdade,
19:23antes disso,
19:24é lógico que
19:24eu comecei a tocar,
19:26fazia em casa.
19:28Você perguntou antes
19:29de uma coisa importante
19:30que eu acabei não respondendo?
19:32Eu ainda vou se cair de conta.
19:33Se meus pais não tiveram
19:35nenhuma reação contra,
19:37coisa assim.
19:38Pelo contrário,
19:39eu pegava o violão escondido
19:41e ficava lá tentando
19:43achar as harmonias
19:44para as músicas.
19:48Comecei a tirar tudo de ouvido,
19:50mas não tinha técnica nenhuma.
19:52Então, eu sabia um acorde,
19:53aí sabia o outro acorde,
19:55mas não conseguia passar
19:55de um acorde para o outro,
19:57o violão.
19:58Mas fui fazendo isso
19:59quando comecei a desenvolver
20:01um pouquinho mais
20:02de desembaraço.
20:03Aí eu sabia acompanhar
20:05todas as músicas,
20:06praticamente.
20:08Era o contrário
20:09de muitos colegas
20:10que eu via
20:10que tocavam muito bem
20:11uma música.
20:12Olha, o cara toca bem.
20:13Aí toca até a outra.
20:15Ah, isso eu não sei.
20:16Não, eu não tocava nenhuma,
20:18mas eu sabia todas.
20:19Só faltava
20:22complementar o negócio.
20:22mas aí é que negócio,
20:24quando é que começou
20:25a ter assim
20:29esse desenvolvimento,
20:30digamos assim,
20:32poder tocar mais,
20:34e aí começaram a se juntar
20:35no colégio,
20:36o pessoal
20:37dava no colégio de aplicação,
20:39na Lagoa,
20:40e tinha assim,
20:42comecei me juntando
20:44até mais pelo lado
20:45de desenho,
20:45porque eu e Zé Rodrigues,
20:47a gente participava
20:48do jornal do colégio,
20:51e a gente fazia
20:52a parte humorística.
20:54Nós fazíamos,
20:56assim,
20:57o primeiro,
20:59exatamente,
21:01coisa de humor,
21:02de desenho,
21:03de humor,
21:04que teve lá,
21:05éramos nós.
21:06Ele começou,
21:07e eu comecei fazendo
21:08mais os desenhos,
21:09e ele dava
21:10mais ideias e tudo.
21:12Inclusive,
21:13o Miguel Paiva
21:14falou que a gente
21:15é inspiração para ele,
21:16também,
21:17porque...
21:19Exatamente,
21:20ele era de lá também,
21:21o Miguel,
21:22o Reinaldo...
21:23Você está dizendo
21:23que na mesma turma
21:26do colégio,
21:27você tinha você,
21:28Zé Rodrigues
21:29e o Miguel Paiva.
21:30Não,
21:30o Miguel era garoto,
21:31o Miguel era menor,
21:33não ligava muito para ele,
21:35o Reinaldo...
21:37Passou do peixe da gente,
21:38a gente não dá mais bola.
21:39Exatamente,
21:40a gente era os grandes ali,
21:41eles eram os pequenos,
21:42na época...
21:43Não,
21:43mas porra,
21:44claro que a gente já...
21:45E eles já começavam,
21:46tinha também o Marcelo,
21:47depois que faleceu,
21:49que era também
21:49um grande desenhista
21:51que depois não...
21:53Claro,
21:53não deu para desenvolver,
21:56mas a gente tinha
21:58essa coisa,
21:59só que aí também
22:00tinha o lado
22:01o Zé Rodrigues também,
22:02o cara extremamente musical,
22:04ele fazia tudo,
22:05o Zé era...
22:06do teatro,
22:08a peça no fim de ano
22:09era o Zé Rodrigues
22:10e mais quem estivesse em volta,
22:12geralmente era uma peça humorística,
22:13ele era assim o...
22:16era uma coisa absurda,
22:18ele era o rei da desenvoltura
22:20na parte cênica,
22:22ele sempre gostou,
22:23dançava,
22:25atuava,
22:26fazia tudo
22:27e compunha,
22:28também tocava piano,
22:29tocava um pouco de violão também,
22:31então a gente se juntou,
22:32começou a experimentar coisas,
22:34chegou da minha turma o Davi,
22:37que era da minha turma,
22:38que também tocava o violão
22:41e cantava alguma coisa assim,
22:43e chegou o Ricardo,
22:45que era mais assim
22:46da parte de escrever,
22:47de tudo,
22:47mas também a gente começou,
22:48fez o momento 4,
22:50mas no começo
22:51a gente começou...
22:53Desculpa,
22:53o momento 4,
22:55com o Zé Rodrigues,
22:56com o Davi Tigel
22:58e com o Ricardo Villas,
23:00era...
23:00foi dentro do colégio?
23:02Foi dentro do colégio.
23:03surge dentro do colégio.
23:05Esse mesmo momento 4
23:06que ali na frente
23:07vai para o...
23:09A gente ainda era.
23:10Eu era do colégio.
23:12Nós éramos do colégio ainda
23:14no ano.
23:15O menos...
23:16O Zé Rodrigues já tinha saído,
23:18porque ele é um ano mais à frente,
23:20então,
23:21quando é em 67,
23:23ele já tinha saído.
23:25Eu estava no...
23:26no último ano científico,
23:30no terceiro científico...
23:31Então, antes...
23:32Uma fotografia rápida
23:34antes da apresentação
23:36com o Edu Lobo
23:36no Festival da TV Record.
23:38Vocês se juntaram
23:39no colégio,
23:40faziam aqueles festivais
23:42de colégio,
23:43mas naquele momento
23:44do festival...
23:45Tinha festival de colégio?
23:46Não?
23:46Não, nessa época não.
23:48Não, tinha apresentações,
23:49a gente se juntava
23:50pelo prazer assim de fazer,
23:52a gente começou...
23:53O negócio dos festivais
23:54teve influência.
23:55Por quê?
23:56Porque a gente
23:58ouvia as músicas,
23:59a gente começou a compor.
24:01Vamos botar música
24:02num festival,
24:03a gente começou a compor,
24:04se juntar para compor.
24:05E a gente começou a cantar,
24:09não é porque a gente queria cantar,
24:10é porque a gente queria
24:11mostrar as músicas.
24:13E aconteceu
24:15uma série de...
24:18em sequência,
24:19certas coisas em sequência
24:20que favoreceram a gente
24:22na época.
24:23por exemplo,
24:26me lembro assim,
24:28a gente começou,
24:29o primeiro trabalho
24:30que a gente teve,
24:33aí eu já estava
24:34tocando violão direitinho,
24:35já tocava no grupo,
24:37já dava para passar
24:39de um acorde para o outro,
24:40legal.
24:40Foi acompanhar Odete Lara
24:42num programa de televisão,
24:46porque ela antigamente
24:47fez umas coisas com o NTV4,
24:49mas o NTV4 estava já
24:50super famoso,
24:51mais atarefado,
24:52assim,
24:53ela falou,
24:53tem um grupo aqui
24:56que pode fazer,
24:57e nós cantamos com ela.
24:59Depois a gente foi
25:01numa...
25:01me lembro,
25:02no rádio,
25:03era Roquete Pinto,
25:04um programa
25:05que a gente fazia,
25:06era Regina Werneck,
25:08que era do Quarteto em Si.
25:10Então,
25:10ela ouviu,
25:11aí começou a conversar,
25:14a gente era muito entrão também,
25:16a gente era o momento 4,
25:18Sidney Miller
25:19apelidou a gente
25:20de Tormento 4,
25:22né?
25:25A gente era muito entrão.
25:27Então,
25:27a gente chegava,
25:28a gente conseguiu convencer a ela,
25:31vamos aqui,
25:31temos mais música
25:32para mostrar,
25:33e a gente queria ir,
25:35marcou aí no ensaio
25:36do Quarteto em Si,
25:38que elas ensaivam
25:39na casa do Oscar Castro Neves,
25:40em Ipanema.
25:41E chegamos lá,
25:43estava o Oscar,
25:44ela e o Aluísio de Oliveira,
25:46casado com a Civa,
25:48era o produtor dela, né?
25:50Aluísio de Oliveira,
25:51para quem não sabe,
25:52era,
25:52na época,
25:54era diretor,
25:55dono,
25:55era diretor da Elenco,
25:57que era a gravadora
25:58mais importante da Bossa Nova.
26:00E ele era...
26:01A famosa gravadora
26:02das capas em preto e branco.
26:04Das capas em preto e branco
26:05do Varela, né?
26:06Então,
26:07e ele era,
26:10quando da lua,
26:12fez com o Carme Miranda,
26:13conhecia amigo do Disney,
26:15do Walt Disney,
26:16aquela coisa toda.
26:17Mas era um cara produtor
26:18de bom gosto,
26:20que ele ficava com a conversa,
26:22ficava só ouvindo o negócio.
26:24Aí a gente começou
26:24a tocar as músicas, né?
26:26Para elas, assim,
26:29gostando, né?
26:29Tudo bem,
26:30para alguma casa.
26:31E aí, tal,
26:32vocês querem gravar
26:33alguma coisa?
26:34A Luísio paga assim,
26:36não,
26:38elas não vão gravar
26:39nenhuma música, não.
26:41Aí ficou aquela zera,
26:42vocês vão gravar.
26:44Porque ele achou bacana
26:45a gente cantando.
26:47Não eram as músicas
26:47que davam para o estilo delas,
26:50mas para nós.
26:50Aí a gente estava aí
26:51e falou,
26:51é, nós mesmo.
26:53Aí a gente gravou
26:53um compacto,
26:55um arranjo do Oscar,
26:56e depois,
26:58foi um compacto
26:58na Philips,
27:00na época que virou
27:01Poligrã,
27:01hoje Universal.
27:03E um dos produtores
27:05da Philips,
27:06na época,
27:07era o Fernando Lobo.
27:09Fernando Lobo.
27:10Aí chegou,
27:11isso aí foi
27:11mais ou menos
27:12em maio,
27:14por aí.
27:15Quando foi mais tarde,
27:16que era a época
27:17das inscrições,
27:18coisa para
27:19Festival da Record,
27:21o Edu foi classificado
27:23e o Fernando Lobo
27:24perguntou
27:24se a gente queria,
27:25o Edu queria um grupo
27:27para cantar com ele.
27:29Isso no mesmo ano
27:30da coisa, né?
27:31Quer dizer,
27:32no ano antes,
27:33a gente não sabia
27:34nem o que a gente
27:35queria fazer.
27:36então a gente,
27:37pô,
27:38no meio estava lá,
27:39chegou,
27:40fomos ensaiar com o Edu,
27:41né?
27:41Quarteto Novo,
27:42Dermeto,
27:44Aíto Moreira,
27:45Telde Barro,
27:45Zeraldo do Monte,
27:47Isso é o primeiro
27:47lá em São Paulo.
27:49E,
27:50né?
27:51Aquele,
27:51tinha que ser muito
27:53bem ensaiado
27:54a coisa na época,
27:55porque lá no palco,
27:57primeiro que era
27:57um absurdo,
27:58né?
27:58Assim,
27:59não tinha caixa de retorno,
28:00tinha que se ouvir
28:01no espiritismo.
28:03Era um negócio assim,
28:04a caixa de retorno.
28:04É,
28:05uma certa vez
28:05conversando com o Edu Lobo,
28:06ele me disse que
28:08não se ouvia
28:09as pessoas gritando,
28:13você nervoso,
28:14então se não fosse
28:14muito ensaiadinho,
28:16o cara ia lá
28:17e atravessavam
28:18porque não ouviu,
28:19o cara estava do lado.
28:21Acho que
28:22o que tinha
28:23de caixa de retorno,
28:24que hoje a gente
28:25faz,
28:26pô,
28:26é a coisa mais normal,
28:27a caixa de retorno,
28:28né?
28:28Mas na época,
28:29primeiro que não existia
28:30muito negócio de PA,
28:33as coisas eram
28:34tudo microfone,
28:35e as caixas pegavam
28:36a coisa que tinha
28:36no microfone.
28:37Não tinha,
28:38praticamente,
28:39instrumento elétrico,
28:40só com amplificador direto,
28:42tudo bem,
28:42mas não tinha,
28:43nesse caso,
28:43era só,
28:44era só tudo acústico.
28:47Eu me lembro,
28:47nós tínhamos um microfone
28:48para os quatro,
28:50o Edu com um microfone
28:51para o voz e violão,
28:54né?
28:55Lá atrás,
28:56eu nem sei como era
28:57o microfone,
28:58e tudo saía
28:58por duas caixas
29:00acústicas,
29:01que mandavam
29:02um som para o público.
29:05E você assistindo hoje
29:07os registros
29:08que estão ali,
29:09é muito bom
29:10o resultado do som.
29:11É impressionante,
29:13cara,
29:14como tinha
29:15um som bom,
29:16talvez os televisores
29:18da época,
29:20mais frágeis
29:21em termos de tecnologia,
29:22recebiam um som
29:23muito chiado
29:24em casa,
29:25mas os documentos
29:27que você tem hoje
29:27disponíveis na internet,
29:29o som é muito bom,
29:31cara.
29:32Muito legal,
29:32eu também acho.
29:34E muito vivo,
29:36o som era vivo.
29:37Agora,
29:38realmente ali,
29:39se você não tivesse
29:40essa precisão
29:42já adquirida,
29:44você não tinha retorno,
29:46né?
29:47Você ouvia o som
29:48ali no meio do palco,
29:49era tudo que tinha.
29:51As caixas tinham,
29:52acho que duas
29:53que ficavam viradas
29:54lá no lado,
29:55viradas para a gente,
29:57assim,
29:57que nem negócio
29:57de avião,
29:59duas caixas
30:00no fundo,
30:00uma lá atrás,
30:03era assim,
30:04só saída de emergência,
30:06o resto era saída
30:07de emergência,
30:08começaram a se avaliar,
30:09era assim.
30:10E pior,
30:11que aí,
30:12voltando assim,
30:13a noite,
30:14famosa noite,
30:15você pode ver no,
30:17não sei se no filme,
30:19aqui tem,
30:19aparece,
30:20nem vi o filme,
30:21mas tem na original
30:22do dia,
30:23da final,
30:24tem na internet,
30:26você procura
30:26o festival,
30:27não sei o que lá,
30:28tem um negócio
30:28que aparece,
30:29o cara da Nana caindo,
30:30e aí é o festival
30:32à noite na íntegra,
30:33eu sei que a gente
30:34estava na coxia
30:35para esperando,
30:36vocês são os próximos,
30:37fica lá esperando já
30:38para entrar,
30:38e quem está cantando,
30:39é o Sérgio Ricardo.
30:41Sérgio Ricardo,
30:42para quem não viu,
30:44ele tinha uma música
30:45chamada
30:45Beto Bom de Bola,
30:47que era,
30:47que era uma música
30:49legal,
30:49uma música legal,
30:50mas era muito complicado,
30:51tinha umas modulações
30:52no meio,
30:52tinha um rango de orquestra,
30:54e o público,
30:55não sei por que razão,
30:56já não gostou
30:57no primeiro,
30:58não era o das favoritas,
31:00então o público,
31:01a música não era a favorita,
31:02das duas uma,
31:03ou ignorava totalmente
31:04ou vaiava,
31:06e aí começou,
31:08é lógico,
31:08você falou,
31:09não tinha retorno assim,
31:10não se ouviu bem,
31:11começou a atravessar,
31:13ia desafinar,
31:14e a modulação
31:15para a música não era.
31:16Ele ficou nervoso,
31:18ele ficou nervoso,
31:19a música tinha uma complicação harmônica
31:23na música,
31:24que era difícil também,
31:25você tinha que estar muito certinho,
31:27então começou a dar tudo errado ali,
31:29aí ele parou,
31:30não sei o que lá,
31:31parou,
31:32começou a fazer um discurso lá,
31:35vocês venceram,
31:35não sei o que lá,
31:36quebrou o violão
31:37e jogou no público,
31:39aquele violão,
31:40aquele violão de Jorge,
31:42todo bonitão,
31:44ficou todo quebradão,
31:45jogou no público,
31:49emblemático momento
31:50dos festivais.
31:51Exatamente,
31:52e nós ali atrás,
31:53vocês são os próximos,
31:55vocês entraram depois desse momento,
31:58depois desse momento,
31:59então a gente falou,
32:00pô,
32:00esse violão volta na gente já já,
32:03nós estamos ali prontos
32:04para levar o violão,
32:06pelo contrário,
32:07o público aí comprou a nossa...
32:10Vamos reconhecer que é um musicão,
32:14foi muito bem defendido por vocês,
32:15um arranjo muito forte,
32:17um Eduardo novo,
32:18uma presença de palco,
32:20muito cidadão,
32:21bonito,
32:22um grupo bonito,
32:23um bando de homem mal acabado,
32:25mas bonito,
32:25gostei,
32:26é.
32:27Aí vamos lá,
32:28você aparece,
32:31vira profissional,
32:34quando você vai nesse ponteio,
32:37no Festival da Record,
32:38você é um moleque de 18 anos de idade,
32:42recém completo,
32:4418 aninhos,
32:46um cara que tem um bulto pela frente
32:48para conquistar,
32:49ali na frente,
32:51você,
32:52em 69,
32:53dois anos depois,
32:54você já é baixista,
32:55eu quero entender
32:56por que você foi por baixo.
32:57Bom,
32:58quando acabou o momento 4,
33:01cada um acabou assim,
33:03vamos resolver,
33:04não estava mais,
33:05o Ricardo começou também a fazer a coisa de,
33:09a parte de política,
33:11também se envolveu mais,
33:11não tinha mais tempo,
33:13o Davi também,
33:15eu acho que foi servir,
33:15serviço,
33:16coisas dessas,
33:17aí então,
33:19eu falei,
33:19pô,
33:20o que eu vou fazer,
33:20o grupo assim,
33:22estava começando naquela coisa,
33:25aí eu comecei a pensar o que ia fazer,
33:29pelo menos eu já tocava violão,
33:30já fazia arranjo vocal,
33:32já comecei a me juntar com as pessoas
33:34que estavam em volta,
33:35quem era?
33:37Era a turma,
33:38que eu já conhecia daqui do Rio,
33:41tipo,
33:43Danilo Caymmi,
33:44a Joyce,
33:46outros que vieram para o Rio,
33:48como Nelsinho Ângelo,
33:50Turinho Horta,
33:51quem mais?
33:53Novelli,
33:53baixista,
33:55e a turma assim,
33:56que começou a andar junto,
33:59Daná,
33:59Vasconcelos também,
34:01então era assim,
34:03virou uma espécie de um grupo,
34:05o Milton,
34:05era também o que tinha acabado de chegar,
34:08o Milton é engraçado,
34:09aí nessa época,
34:10já começou lá em casa,
34:12a ter um outro tipo de approach da coisa,
34:15eu que já levava as pessoas,
34:17né,
34:17então,
34:18o Milton,
34:19muitas vezes,
34:20chegava lá em casa,
34:21assim,
34:22na hora do almoço,
34:23ele e mais alguns mineiros,
34:27chegavam lá assim,
34:28por acaso,
34:29na hora do almoço,
34:30né,
34:30e ele tinha uma empregada lá em casa,
34:32Edviges,
34:33que era assim,
34:35apaixonada pelo Milton,
34:36e o Milton adorava ela também,
34:38então,
34:38na hora que ele,
34:39que ela via,
34:40que chegou o Milton,
34:42ela parava tudo,
34:43expulsava todo mundo da cozinha,
34:44ia fazer as empadinhas de queijo,
34:46que o Milton gostava,
34:48né,
34:49e eles ficavam sempre na hora da comida,
34:52um pouco antes,
34:54só que aí,
34:56né,
34:56aquele negócio,
34:57a gente almoçava e depois ficava,
34:59a coisa rolava,
35:00né,
35:00até mais tarde,
35:02e era,
35:02bom,
35:03era uma espécie de sucursal do clube da esquina,
35:06uma certa época,
35:07né,
35:07lá em casa também,
35:08então,
35:09essa já é uma outra coisa,
35:11já foi um desenvolvimento de um grupo que veio a partir da minha própria coisa,
35:17não da grupo que meus pais trouxeram,
35:19com o negócio da Bossa Nova,
35:21né.
35:21Agora,
35:22deixa eu só,
35:22eu tô preocupado com o fator tempo,
35:24porque a gente,
35:25eu quero,
35:25nem chegamos do Boca Livre ainda,
35:27já estamos quase acabando nosso tempo.
35:28Boca Livre,
35:28eu nem me lembro mais disso.
35:30É,
35:30é um grupinho que eu conheço ali.
35:32Agora,
35:32eu queria saber,
35:34porque teve um certo momento,
35:35em 70,
35:35teve a Sagrada Família,
35:38e a Sagrada Família,
35:39você,
35:40que era um grupo,
35:43já era um grupo meio progressivo,
35:45de rock progressivo,
35:46o rock progressivo chega pra você ali na frente,
35:49depois.
35:49Depois.
35:51Não,
35:51bem depois.
35:52Aí,
35:52eu ainda era,
35:53é bem a MPB,
35:54mesmo tinha começado a tocar baixo,
35:57por acaso,
35:58assim,
35:58né,
36:00com o grupo que chamava o Trigêmeos,
36:03era eu,
36:03o Nelsinho Ângelo e o Naná Vasconcelos,
36:05eram os Trigêmeos,
36:06né,
36:07pra você ver,
36:07assim,
36:07a ironia da cultura.
36:08Mas aí,
36:09mas isso a gente começou a tocar,
36:11de repente,
36:13foi tocar numa música da Joyce,
36:15no festival seguinte,
36:17no Rio de Janeiro,
36:18que era uma música Copacabana,
36:20velha de guerra,
36:22e aí eu fui tocar o baixo,
36:24Nelsinho,
36:25o,
36:26e era o arranjo do Luizinho,
36:27essa.
36:28E nessa época,
36:29aí começamos a se reunir,
36:31na casa do Luizinho,
36:32e nessa época,
36:34que as casas eram todas abertas,
36:36né,
36:37a gente chegava lá,
36:38qualquer hora,
36:39batia na porta,
36:39opa,
36:40tudo bem,
36:40entra,
36:41não sei o quê,
36:42e daí começou a formar um grupo,
36:44na casa do Luiz,
36:46que acabou virando esse grupo,
36:49Sagrada Família,
36:50que tinha,
36:51além da gente,
36:52tinha o,
36:54é,
36:55Ion Muniz,
36:56tinha,
36:57é,
36:58viu,
36:59Vogel,
36:59Zeca do Trombone,
37:00e mais,
37:03além do próprio Luiz,
37:05é assim,
37:05um dos primeiros trabalhos,
37:06mesmo,
37:08realmente importantes,
37:09que eu fiz como baixista,
37:10né,
37:11e era difícil,
37:11porque o Luizinho era canhoto,
37:13e ele,
37:14pô,
37:14a mão esquerda dele fazia milhares de coisas,
37:17e eu tinha que fazer a coisa,
37:18ele escrevia a mão esquerda dele,
37:20para,
37:20dos arranjos para o baixo,
37:22então,
37:22comecei já pegando a pedreira,
37:24né,
37:25mas era,
37:25foi bom,
37:26né,
37:26porque já cheguei logo no fogo,
37:28a gente fez uma temporada no México,
37:31mas aí,
37:32quando voltou,
37:32o grupo também se desfez,
37:34era uma época muito maluca,
37:35né,
37:36anos 70,
37:38realmente era,
37:39muito,
37:40eu queria entender uma cronologia aí,
37:43você fez,
37:44quando vocês fizeram,
37:46montaram a Sagrada Família,
37:47que já era um trabalho um pouco mais sério,
37:49você teve um momento,
37:51antes do trio,
37:53que,
37:53que,
37:53Paulo Glaucio,
37:55é,
37:55que,
37:56eu sempre achei uma coisa meio Emerson Lake Palmer,
38:00sabe assim,
38:01tinha uma,
38:02sem piano,
38:03sem piano,
38:04e sem bateria,
38:05né,
38:05você fez o arranjo de uma das músicas mais interessantes de Marcos Vale,
38:10de Paulo Sérgio,
38:11de Marcos Vale,
38:11de Cor de Sangue,
38:12né,
38:13porque a música é muito boa,
38:14é uma música que tem uma levada black music,
38:17é uma música que tem uma,
38:18uma,
38:18uma importância naquele momento,
38:21para a música brasileira,
38:22em função da negritude,
38:24do swing,
38:25e estava dentro,
38:26exatamente,
38:27começou naquela...
38:28Nessa onda veio,
38:29veio um monte de gente,
38:31o Wilson Simonal,
38:32veio,
38:33até o próprio Tim Maia,
38:35né,
38:35depois ali na frente,
38:37o Toritornado,
38:39quando você faz o arranjo de Mustang,
38:42Cor de Sangue,
38:43você é a Sagrada Família?
38:45Não,
38:46não,
38:46foi antes,
38:47antes da Sagrada Família,
38:49foi,
38:50tem tanta coisa para falar,
38:52que às vezes a gente passa,
38:53né,
38:54antes desse arranjo,
38:55eu tinha feito para o Milton Nascimento,
38:57um arranjo também,
38:58Quatro Luas,
38:59né,
38:59que era uma música do Nelson Anjo,
39:01a gente fez até um arranjo a quatro mãos,
39:03mas você,
39:04nesse momento,
39:05você trabalhava para a EMI,
39:07você era funcionário da EMI,
39:08você tinha uma relação com aquele estúdio da EMI?
39:10Não,
39:11mas a gente tinha relação,
39:12na verdade,
39:13com todos os estúdios,
39:14né,
39:14o pessoal,
39:15os,
39:17os,
39:17os,
39:17os,
39:18os artistas,
39:18chamavam o arranjador para fazer,
39:21né,
39:22então foi,
39:23foi isso,
39:24quer dizer,
39:24na verdade,
39:25eu comecei nesse ponto do Milton,
39:29e tem aquela coisa engraçada,
39:31né,
39:31porque na época nos discos,
39:34né,
39:34saia,
39:34nasci em créditos,
39:37música tal,
39:38arranjo,
39:39maestro Paulo Moura,
39:41outra,
39:41arranjo,
39:42maestro Luizé,
39:43saia outro,
39:44arranjo,
39:46Maurício Mendonça,
39:47maestro Maurício Mendonça,
39:49aí depois,
39:50que é o senhor,
39:51você que vos fala,
39:53exatamente,
39:55começaram a perguntar,
39:56ó,
39:57o senhor Maurício,
39:58que Maurício?
39:59O maestro,
40:00aí por isso que virou Maurício Maestro mais tarde,
40:03eu falei,
40:03ah,
40:03deixa,
40:04deixa,
40:04deixa,
40:05não vou brigar com isso não,
40:07mas o Marcos,
40:09na época do Momento 4,
40:11o Marcos chamou a gente para cantar,
40:14uma música chamada Ultimatum,
40:17no festival que era da Excelsior,
40:20que era outro festival que tinha muito importante também,
40:22e a gente,
40:24né,
40:24começou também a frequentar muito a casa do Marcos,
40:28né,
40:28que ele morava até com os pais ainda,
40:30na época,
40:31ali na rua Félix Pacheco,
40:33no Leblon,
40:35ali naquela parte,
40:36ali perto do canal,
40:38e ele morava numa esquina,
40:40na esquina diagonal a ele,
40:42era com o Jobim,
40:43que é a rua Codajás,
40:44famoso navio,
40:49a casa parecia um navio assim,
40:53e a gente vivia ali de um lado para outro,
40:56saia da casa do Marcos,
40:57já batia na casa do Tom,
40:58estava lá o Paulinho,
41:00às vezes o Danilo,
41:01não sei o quê,
41:02foi ali que eu conheci Paulo e Cláudio,
41:05que a gente veio mais tarde a fazer Paulo,
41:08Cláudio e Maurício,
41:11foi ali naquela região,
41:13a gente estava saindo da casa do Marcos,
41:16indo para a casa do Tom,
41:17eles passaram de,
41:19era um espécie de um carro meio conversível,
41:23uma coisa assim,
41:23eu falei,
41:23que figuras estranhas são essas,
41:25gêmeos,
41:26tipo assim.
41:27Agora,
41:27olha só,
41:28daqui para trás,
41:30a gente olhando desse ponto da sua história para trás,
41:33dá para entender muito do que foi a formação do Boca,
41:39porque o Boca Livre chega com uma diferença vocal
41:43para os demais grupos vocais,
41:46com uma forma de colocação de voz diferente,
41:52não muito determinado,
41:54você é barítono,
41:56você entra aqui,
41:57vocês quebravam isso de música para música,
41:59o cara está cantando em outro tom,
42:02porra,
42:02agora que,
42:03sabe,
42:03eu não sei se isso era.
42:06Não sei se ali,
42:07às vezes,
42:08não era,
42:09às vezes,
42:10por exemplo,
42:11eu dou uma explicação técnica rapidinho,
42:13Zé Renato,
42:14geralmente,
42:14predomina quando canta a melodia principal no agudo,
42:18ele é imbatível,
42:19porque ele tem uma,
42:20a voz dele tem uns harmônicos,
42:23que preenchem a coisa,
42:24então fica ali.
42:25Agora,
42:26quando às vezes ele vai fazer uma segunda voz,
42:29mais no agudo,
42:31não é tão legal,
42:33por quê?
42:33Porque exatamente,
42:34porque ele preenche demais ali,
42:36então,
42:36às vezes,
42:36a gente põe ele na melodia,
42:38na segunda voz,
42:40e pega a segunda voz acima da melodia,
42:44com alguém que faça a voz mais suave,
42:46eu já fiz muito,
42:48o Lourenço também,
42:49então,
42:50é por isso,
42:51porque tem essas nuances,
42:53enquanto o Cláudio também,
42:55às vezes,
42:55fazia coisa lá em cima,
42:57né,
42:58então,
42:59é,
42:59é,
43:01a gente vai conhecendo as vozes,
43:02vai começando a ver,
43:04certas regiões,
43:05são melhores,
43:06e certas,
43:07formações de acordes,
43:09são melhores com uma determinada,
43:11é,
43:12estrutura,
43:13é,
43:13é,
43:13é,
43:13isso eu aprendi um pouco com o Luizinho,
43:15essa,
43:15quando ele falava de escrever para a quinteta de metais,
43:19que é,
43:20a formação é flauta,
43:23clarinete,
43:23ou boé,
43:25é,
43:26trompa e fagote,
43:28e ele falou,
43:29se você quiser sempre botar todos eles na mesma coisa,
43:32não vai dar certo,
43:32porque tem regiões de um que não vai funcionar,
43:35então,
43:35você tem que ouvir cada som daquele negócio,
43:38para ver que,
43:38que que funciona,
43:40né,
43:40ele falou que escreveu para o quinteto Villa-Lobos,
43:42a primeira vez,
43:43falou que ele apanhou para burro,
43:45e aí começou a perceber,
43:46e essa coisa,
43:48cada grupo vocal,
43:49é diferente,
43:50você não dá para pegar um arranjo do Boca livre,
43:52e passar para um outro grupo,
43:53e achar que vai resultar igual,
43:55não vai,
43:57tem essas nuances,
43:58voz tem isso aí.
43:59Dentro do Boca,
44:01se eu não me engano,
44:02numa conversa que eu tive aqui com o Davi,
44:04ele falou que você é o responsável,
44:07por essa,
44:09distribuição,
44:09por essa harmonia,
44:11ou por esses arranjos,
44:12que a responsabilidade,
44:14é exclusivamente sua,
44:17palavra intensiva,
44:18não é,
44:19ele conhece isso aí,
44:21eu fiz também,
44:22na época do Momento 4,
44:24e tudo,
44:24foi desenvolvendo,
44:25Boca livre,
44:26a outra onda,
44:27não dá nem para comparar,
44:29outra situação,
44:31outro tipo de vozes também,
44:34então,
44:36quer dizer,
44:37a escrita,
44:38claro que no ensaio,
44:40a gente faz ensaios,
44:41em que a gente vai experimentando coisas,
44:45a gente tem a ideia da música,
44:46começa a pegar uma música para cantar,
44:50muitas vezes,
44:51uma música que a gente mais gosta,
44:52na hora que vai cantar,
44:53não resulta,
44:55às vezes não resulta no começo,
44:57e às vezes tem que passar um tempo
44:59e a gente ter alguma ideia
45:01mais definida,
45:02para que ela possa ganhar
45:05um resultado que a gente espera da música,
45:08então,
45:09mas mesmo assim,
45:10por exemplo,
45:10a gente vai ter,
45:11começa,
45:12já achou a música,
45:13vai começar a fazer,
45:14faz um arranjo,
45:15espera,
45:16experimenta uma parte assim,
45:19aí sempre que alguém vai ter alguma
45:22interferência positiva,
45:23para,
45:23não,
45:24essa aqui pode melhorar,
45:25aqui eu acho que aqui
45:26estou sentindo um negócio
45:27que não é legal,
45:29e de repente,
45:30aquilo ali
45:31que dá a ideia
45:32para a boa ideia sair,
45:34é engraçado que música,
45:36a gente vai montando
45:38como se fosse um quebra-cabeça,
45:39arranjo,
45:40vai montando como se fosse
45:41um quebra-cabeça,
45:42de repente,
45:43não adianta
45:45querer carregar demais
45:46o tempo inteiro,
45:47você tem que dar
45:48coisas que
45:50faz a mais,
45:51volta,
45:51tem uma,
45:53um descanso
45:54em algum momento,
45:56isso tudo é um jogo de encaixe,
45:57às vezes a gente tira um negócio aqui,
46:00faz falta,
46:01mas às vezes o que faz falta aqui
46:03é porque não colocou
46:04um negócio antes,
46:06que aquilo ali poderia ser,
46:08aquela parte ali ficou legal,
46:09mas na música você,
46:10pô, não está legal,
46:12aí você fala,
46:13não,
46:13não está legal essa parte aqui,
46:15aí você vai ver,
46:16não,
46:16aquela parte ali está legal,
46:18mas a de antes não está,
46:19então quando aquela parte entra,
46:21entra vendida,
46:22ela entra assim,
46:23sem brilho,
46:25ela não aparece,
46:26né,
46:27ou então ela,
46:28ela precisa de alguma,
46:30então muda ali,
46:31será que muda aquela parte
46:32ou muda o resto?
46:33É,
46:33mas,
46:34é um,
46:35não,
46:35mas é,
46:36é um ouvir,
46:37é bom te ouvir falando isso,
46:38porque a gente aprende,
46:40porque quando a pessoa pega,
46:42e não,
46:42poxa,
46:43esse grupo é bom,
46:44hein,
46:45esse grupo tem pouco,
46:46esse grupo é bacana,
46:47hein,
46:47mas às vezes não percebe que tem todo um contexto de distribuição de voz,
46:53agora você diminui aqui,
46:55por exemplo,
46:56a crítica internacional,
46:57eu me lembro bem que certa vez colocou lá atrás,
47:00impressionada com essas discussões que vocês andaram fazendo com,
47:03com Milton,
47:05com um monte de gente pelo mundo,
47:07e que vocês se apresentavam e chamavam atenção,
47:12tinha um grupo vocal,
47:13que fazia,
47:14não sei,
47:14não me lembro se era espanhol,
47:16eu sei que tinha uma linha cigana,
47:18o Gipsy King,
47:19que era uma outra levada,
47:22ele era mais ritmado do que vocês,
47:25mas vocês eram comparados a eles,
47:27e eles comparados a vocês,
47:28por essa distribuição vocal naquele momento.
47:31É engraçado que teve um crítico que falou,
47:35falando do disco da gente,
47:37que a gente,
47:38ele definia assim mais ou menos como o take six acompanhado do Gipsy King,
47:44né,
47:45mas tinha um pouco a ver,
47:47porque tinha um vocal muito forte,
47:50muito, assim, presente,
47:52e aquela coisa dos violões,
47:54que era um negócio que é a referência que eles tinham no momento,
47:58então é engraçado isso que você falou,
48:00é isso mesmo.
48:01Mas esse tipo de coisa da formação dos arranjos,
48:09realmente é o equilíbrio,
48:13eu adoro o vocal,
48:15mas às vezes eu não consigo ouvir muito tempo,
48:17tem grupos que começam,
48:18na primeira música já mostraram tudo que sabem,
48:21e na segunda música já mostraram também tudo que sabem,
48:24e na terceira música eu não desligo o negócio,
48:26repete a forma.
48:29Exatamente.
48:29Esse é um progredo que você,
48:31você acho que colocou muito bem,
48:32você sabe o momento como arranjador de puxar,
48:37esconder o jogo,
48:39para não ficar,
48:43tudo igualzinho de cabo a rabo,
48:4512, 14, 16 músicas com o mesmo aqui,
48:48mas desculpe,
48:49desculpe os puristas do jazz.
48:53Então vamos ao show do jazz,
48:55Herbie Hercock,
48:56um monstro,
48:57estou chutando aqui,
48:59agora vai vir o solo do baixo,
49:01agora vai vir o solo do piano,
49:04agora tem duas viradas de bateria,
49:06você,
49:06a fórmula é previsível no jazz.
49:11Verdade.
49:11Não,
49:12é porque,
49:12exatamente,
49:13na hora do solo do baixo,
49:15o piano só dá um,
49:16e a bateria está tocando,
49:17na hora do solo de bateria,
49:19ninguém toca nada,
49:20a bateria está lá sozinho.
49:21É outra coisa,
49:22dá para beber uma aguinha,
49:24pisca o uva,
49:25o cara enxuga a testa,
49:27vai lá,
49:27bebe uma água,
49:28mas em termos de grupo,
49:30de equilíbrio,
49:31tem um grupo que eu acho
49:32que você deve conhecer,
49:33que realmente eu acho que é um,
49:36é uma aula disso aí,
49:38que aqueles caras lá,
49:39cabeludos lá de Liverpool,
49:42de Liverpool,
49:43aqueles menininhos.
49:43É tudo muito simples,
49:46mas é tudo no lugar certo,
49:48é uma aula disso aí,
49:50você não precisa copiar o som deles,
49:52mas se inspire nessa capacidade
49:55que tinha de organizar a coisa,
49:58de ficar tudo claro,
50:00tudo simples,
50:01não tem nada que os Beatles fizeram
50:03que não dê para ser tocado
50:05por um aluno,
50:06primeiro ano,
50:06de qualquer um dos instrumentos,
50:09todos.
50:10É verdade.
50:12guitarra,
50:13baixo e bateria.
50:15Claro que o bom gosto
50:17e a capacidade de não fazer mais,
50:21isso é que tem que ser ensinado.
50:23Eu acho que é o seguinte,
50:24arranjo,
50:25não é que sair colocando nota,
50:27é sair tirando,
50:29é deixar só o que é importante.
50:31Isso aí,
50:32eles deram essa aula de aulas
50:33para todo mundo,
50:34João Gilberto deu essa aula,
50:36Tom Jobim deu essa aula,
50:38falando dos nossos,
50:40os nossos craques.
50:42Não precisa tocar todos os ritmos,
50:45todas as notas,
50:47não,
50:47toca só aquelas que vão dar o swing.
50:50o piano só,
50:51entra naquilo ali,
50:52é o piano de arranjo,
50:53o piano,
50:53pô,
50:54é clássico,
50:55vira um clássico,
50:56aquilo ali não tem mais,
50:57não tem mais o que fazer,
50:59né,
51:00sair inventando coisa,
51:01não precisa,
51:03né,
51:03acho que pode também,
51:05mas não é um...
51:07nós temos cinco minutos pela frente,
51:10eu só quero,
51:11antes do encerramento,
51:12falar de um ponto que eu acho
51:13que não pode passar batido,
51:15da importância
51:18que vocês tiveram
51:20para o mercado,
51:22para a indústria fonográfica brasileira,
51:24a partir do momento em que vocês lançaram
51:26um disco independente,
51:28que foi o primeiro do pouco,
51:30e que mexeu com toda a estrutura
51:34das grandes gravadoras,
51:36eu tenho algumas dúvidas naquele momento,
51:39vocês foram muito pressionados,
51:42ou muito assediados,
51:44para que saíssem
51:44desta,
51:45desta,
51:46desse caminho,
51:47o que eu estou querendo colocar para você,
51:50tem dois caminhos,
51:51esses caras são sucesso,
51:53eu sou de uma puta indústria rica,
51:56vou tirar,
51:57vou trazer esses caras para cá,
51:58e vou ganhar dinheiro,
51:59esses caras são perigosos,
52:01porque eles estão entrando
52:02numa zona,
52:03que se eles abrirem
52:06caminho para outros,
52:07o meu negócio
52:09está correndo risco,
52:10então,
52:10eu queria entender
52:11se nesse momento
52:12vocês foram assediados
52:13porque era um sucesso,
52:15ou você,
52:16no olhar crítico,
52:17acha que
52:17vocês foram chamados
52:19para dentro da caixinha,
52:20que era mais negócio
52:21para os grandes
52:23das gravadoras.
52:24Na verdade,
52:25a gente
52:26não foi nem pioneiro
52:27numa coisa nem outra,
52:29ou seja,
52:29a gente entrou
52:30para fazer
52:31em disco independente
52:32porque não conseguiu
52:34que uma gravadora
52:34na época
52:35se interessasse para a gente,
52:37então,
52:37a gente seguiu
52:38o negócio do caminho
52:39do Antônio Adolfo,
52:40do Danilo Caymmi
52:41e de outros
52:42que estavam já fazendo
52:43disco independente,
52:46primeira coisa,
52:47mas a gente tem muito,
52:48sonho muito
52:49de fazer um disco,
52:51vender,
52:52sei lá,
52:52cinco mil,
52:53era assim para nós,
52:55tudo bem para nós,
52:56passou disso,
52:57tudo.
52:58Na época,
53:01fora da nossa esfera,
53:03aí já na esfera
53:04mais ampla,
53:05tinha vários artistas
53:07já consagrados
53:08que começaram
53:10a pensar
53:11nessa coisa
53:12de fazer independente,
53:13inclusive,
53:13de comprar
53:14uma gravadora,
53:18uma fábrica
53:19de disco
53:20para poder realmente
53:21ser independente
53:22da coisa
53:24e, claro,
53:25seguindo um pouco
53:26a ideia
53:27do disco independente
53:28que estava começando
53:29a ter essa coisa,
53:32só que
53:33esses,
53:35nós ainda éramos
53:36independentes,
53:37eles estavam
53:38também querendo falar,
53:39nunca chegaram
53:40até a gente
53:40para perguntar
53:42como é que era a coisa,
53:43tudo bem,
53:43acho que tinha
53:44a coisa já mais pronta,
53:46só que nessa época
53:48aí começaram
53:48a chegar
53:49as grandes gravadoras,
53:51não assediaram a gente,
53:53não assediaram eles,
53:55todos assinaram
53:56contratos milionários
53:58com as gravadoras
54:02e passaram,
54:03entraram,
54:04continuaram
54:04no sistema normal
54:06de coisas,
54:07tudo bem,
54:08eu não acho problemático,
54:09depois a gente foi ver
54:10mais tarde,
54:10a partir do segundo disco,
54:12que era meio
54:13que chotesca,
54:14aquela coisa,
54:15ninguém é independente,
54:16a gente é interdependente,
54:18na verdade.
54:18É dependente totalmente.
54:20É interdependente,
54:22sempre é assim,
54:23porque a gente vai depender
54:24da mídia,
54:25da força,
54:27a gente vai depender,
54:28sei lá,
54:28de uma televisão,
54:29de um rádio,
54:30de um jornal,
54:32gostar,
54:33e principalmente
54:34independente do público
54:35aceitar o trabalho,
54:37isso é principal.
54:38Mas o que a gente
54:40eu acho que
54:40preserva até hoje
54:42independente
54:43é o nosso
54:47prazer de fazer
54:48a música
54:48que a gente
54:49acha que está bom.
54:51Tudo bem,
54:52a gente sabe limitações,
54:53nós não temos
54:53nem recursos financeiros,
54:57nem o tempo
54:59necessário
54:59para fazer,
55:00talvez,
55:00o trabalho
55:01mais requinte,
55:03muito mais
55:05elementos,
55:05coisas assim,
55:06mas a gente
55:06pega de um
55:07que a gente consegue,
55:09a gente só solta
55:10um arranjo,
55:11só solta um disco
55:12quando a gente acha
55:13que aquilo ali
55:14ficou o melhor
55:15que a gente conseguiu.
55:16Esse é o segredo.
55:18Esse é o segredo.
55:20Essa independência
55:21é que me interessa.
55:22Outro dia
55:22me perguntaram
55:24o que é o sucesso?
55:26O sucesso
55:27é ganhar um dinheiro,
55:29o que é o sucesso
55:29é ser muito conhecido.
55:31Eu disse,
55:32não,
55:32o sucesso
55:32é você ser conhecido
55:35pelo que você
55:35pode fazer de melhor.
55:38Não adianta.
55:39O que adianta
55:40o sucesso
55:40do cara
55:41que,
55:42sei lá,
55:43não chegar ao extremo,
55:44que vendeu a alma
55:45para aparecer.
55:47Aí fez o sucesso,
55:48que legal,
55:49o cara lá
55:49por dentro
55:50está sofrendo.
55:51Esse é sucesso?
55:51Eu acho que não.
55:53Maurício,
55:53olha só,
55:54nosso tempo
55:54está no susto final.
55:56Eu quero te agradecer
55:57muito por esse momento
55:59ótimo que a gente
55:59estava no programa
56:00tecnológico.
56:01Tecnicamente foi ótimo.
56:03Pois é,
56:04eu estou ficando
56:05craque nisso agora.
56:06Está ficando bom nisso.
56:08Você,
56:10a gente sabe
56:10que você,
56:12desde que começou
56:14o Boca,
56:15você é o único
56:16que nunca,
56:18jamais,
56:18em estante algum,
56:19saiu do Boca.
56:20Você é o único
56:20que se permaneceu.
56:21que teve gente
56:22que foi e voltou
56:22entre os nossos amigos.
56:24Você é o grande
56:27baluarte do Boca.
56:28Eu era o que
56:29sempre estive.
56:30Você sempre estive.
56:32Eu sempre estive.
56:33obrigado pelo carinho,
56:34muita paz para você.
56:36Poxa,
56:36prazer,
56:37grande,
56:37Edu.
56:37É bom te encontrar
56:38por aí
56:38e te agradecer.
56:40E nada,
56:41isso aí foi um prazer
56:42para mim.
56:42Estava com medo
56:43de não conseguir
56:44fazer a coisa certinha.
56:46Nunca fiz,
56:47nada disso aí,
56:48mas é bom,
56:49de repente,
56:50dar uma pé.
56:51e assim,
56:54eu queria também
56:56desejar sempre
56:57sucesso a você
56:58com a Big Beatles
57:00e a sua parte jornalística
57:03também,
57:03que é sempre maravilhosa.
57:05Obrigado,
57:06meu irmão.
57:06Muita paz em casa.
57:07Um beijo pra todo mundo.
57:08A gente vai se falando.
57:08Obrigado pelo carinho.
57:09Também pra vocês
57:10e pra todo mundo
57:11que está assistindo aí.
57:12Amanhã,
57:13Mauro Senizes.
57:14Mauro Senizes amanhã.
57:15Tchau,
57:17tchau.
57:19Tchau.
57:21Tchau.
57:22Tchau.
57:27Tchau.
57:27Tchau.
57:27Tchau.
57:28Tchau.
57:28Tchau.
57:29Tchau.