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  • há 14 horas
Produtor musical e jornalista, Edu Henning entrevistou 260 artistas e personalidades culturais durante a quarentena provocada pela pandemia do novo coronavírus. Confira no canal do vocalista da icônica banda Big Beatles lives que abordam desde a trajetória musical a questões curiosas de importantes nomes da música brasileira.

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00:12Valeu! Tudo bom Edu? Você tá bem meu irmão? Eu tô bem, meu áudio tá bom? Tá ótimo, tá bom,
00:19tá maravilhoso. Eu já vou começar a pedir desculpa porque eu cacei você, mandei recados,
00:25eu cerquei, mandei sinal de fumaça, pongo correio, até telegrama eu mandei pra você, cara.
00:33Tudo sério, eu que te devo desculpas porque, na verdade, por incrível que pareça, nesse
00:39período louco que a gente tá vivendo, eu fiquei ocupadíssimo e eu falo com as pessoas,
00:44os amigos, os pacientes, tá todo mundo super ocupado. O que foi que aconteceu? O tempo
00:48era pra sobrar, né? E parece que comprimiu, assim. Então, muita coisa, porque eu acho
00:54que a gente tá vivendo muito nesse espaço virtual também, né? Então, é muita coisa
00:59aí. Os amigos convidam pra live, participar disso, daquilo, campanha disso, daquilo, e
01:04você vai porque é o que a gente pode fazer, né? Nesse momento também, pelos outros
01:08e por nós, enfim. Mas, Zé, eu vou começar. É, é isso. Graças a Deus, estamos juntos.
01:16Essa é a live de número 163. Eu estou há 163 dias fazendo uma live dia durante a pandemia,
01:22eu tô ficando maluco com esse troço aqui, já tô quase fechando o barraco.
01:25loucura. Olha só, quem manda... Fica o registro aí, intenso aí, desse período também, né?
01:33Quem manda um alô pra você agora, antes da gente começar, três pessoas mandaram um recado
01:38pra você, mandando um abraço. Dauto, muito estranho, Dauto. Sou fã. Também. Roberto Frejá.
01:47Cara, craque, parceirão. E Rick Ferreira. Pô, Rick, eu vi que ele entrou aí, eu vi o nome dele aí.
01:54Pô, Rick é um
01:57cracaço. Amigo, vamos... Eu queria entender um pouco... Eu queria entender, acho que essa é a grande
02:02oportunidade que a gente tem aqui, de desenhar, fazer um perfil, desenhar uma linha histórica do tempo da
02:09pessoa, e a gente começa a entender os estilos, a forma, a maneira de compor, e começa lá em
02:16casa. Você... Como é que foi a música lá no teu começo? O teu tempo em São Luís? Quanto tempo
02:23você
02:24ficou lá? Porque você teve um momento de São Luís, depois você vai pra Belo Horizonte, depois você vai
02:28pra São Paulo, na linha da vida, pelo que eu sei. Mas vamos nos concentrar inicialmente em São Luís,
02:35Maranhão, nasce lá, estuda lá, cresce lá. Qual é a relação com a música, em termos de família? Qual foi
02:41a
02:41relação com a música nos primeiros passos? Legal. Eu vi que você falou aí do Bonfá, né?
02:49E das cachaças do Bonfá. Um tempo atrás, dois anos, ele me escreveu, no e-mail, e falou assim,
02:55Zé, que eu tô querendo batizar uma cachaça minha de Babilô, porque eu adoro essa sua música e tal.
03:01Como é que é? Como é que a gente faz e tal? Falei, cara, me dá umas cachaças de vez
03:05em quando e tá tudo certo.
03:06Eu vou te cobrar por isso, imagina.
03:08Agora, por favor, vai pagando devagar, mas...
03:14Eternamente, eternamente. A dívida eterna.
03:16A de eterno, né?
03:20Cara, a minha casa, eu vou tentar resumir pra não ficar, né? Esta sua vida, né? Mas assim, a minha
03:28casa...
03:28Mas é bom, as pessoas têm muita curiosidade com relação a esses detalhes, cara.
03:32Tem, é interessante mesmo, né? Depois que você se torna, sei lá, um compositor, músico profissional,
03:39e você vê como isso já tá na sua vida desde o início, e como certos gestos familiares ou de
03:45amigos
03:45te empurram também pra carreira, pro ofício e tal.
03:51Eu nasci numa cidade, eu nasci em São Luís por acidente, mas toda a minha família é de uma cidade
03:56chamada Arari,
03:57na Baixada Fluminense, na Baixada Maranhense, na Baixada Maranhense, região de rios, de lagos e tal.
04:05É um lugar onde tem enchentes. Então, assim, no meu imaginário de nordestino, não tem essa de seca.
04:10Era enchente. Todo ano tinha uma enchente.
04:13Até que teve uma violenta, no ano de 1974, que fez com que meu pai, que tinha uma farmácia, perdesse
04:19tudo.
04:20Aquele tempo não tinha aquela coisa de super estoque, era tudo a coisa do dia seguinte, né?
04:25Um dia após o outro, e ele acabou falindo e foi recomeçar a vida em São Luís do Maranhão.
04:32Meu pai, um filho de sírios, né? De imigrantes sírios, que tinham ali uma lojinha,
04:38e que acabou herdando essa coisa.
04:41Embora não fosse bom comerciante, herdou o filão, né? O métier, né?
04:49Meu pai, ele virou um cara... Meu pai é uma figura muito curiosa, cara.
04:52Merecia um filme.
04:54Minha mãe também, mas meu pai, sobretudo, porque a figura...
04:57Ele estudou farmácia, teve que interromper por causa de questões familiares lá.
05:03O irmão que morreu e ele teve que voltar para assumir a família do cara,
05:08seis filhos e tudo mais, e os negócios da família.
05:12E ele virou meio que um enfermeiro prático, um cara que fazia cirurgias, fazia partos,
05:21sem estudar isso, porque em farmácia não se estuda isso.
05:25Virou quase que um curandeiro, sabe?
05:27É mesmo?
05:28Como um médico lá.
05:30Que legal!
05:32De vez em quando eu encontro um cara assim,
05:33cara, teu pai salvou minha vida, eu fui lá não sei o quê com um prego aqui, não sei qual.
05:38Ele que fez, nenhum médico queria mexer, ele mexeu.
05:40Ele era corajoso, tinha uma coisa, uma coragem física, assim, partia mesmo para fazer e tal.
05:46Ia no meio da madrugada lá no povoado, o cara vinha lá, o capial vinha chamar ele e tal.
05:53Seu Tunico, minha mulher estava parindo, não sei o que fazer, ele ia de cavalo e fazia o parto com
05:59água quente.
06:00Era uma coisa meio louca.
06:01Só para eu ter uma noção, essa cidade, para São Luís, qual é a distância?
06:06É perto, duas horas e meia.
06:09No passado já foi mais longo por causa das estradas, eram ruins, mas hoje duas horas e meia você faz
06:16esse percurso aí.
06:18Era perto, mas não era fácil ir a São Luís, não era uma coisa fácil, assim, vou ali a São
06:22Luís.
06:22Não era uma estrada fácil, não era um carro confortável, não tinha a modernidade.
06:27Não tinha.
06:28Outro detalhe que eu queria que você limpasse aí para mim, aí seu pai assume a família do seu tio,
06:35seu tio morre, ele abraça a família e traz a família e sustenta todo mundo, dá educação para os seus
06:44primos e virou pai daquela família.
06:47Criou seis filhos dele e seis do irmão, que são mais velhos, que são meio como irmãos mais velhos meus,
06:54irmãos de criação.
06:55É uma loucura e assim, e meio que ele era o caçula da família, eram seis irmãs, cinco irmãs mais
07:03esse irmão e ele que de repente morre o pai e o irmão, morre o pai e o irmão num
07:09espaço de uma semana e ele tem que assumir toda a família.
07:11Então assim, o cara tem uma história heróica, épica e tem essa coisa, ele tem 97 anos, está vivão, trabalhou
07:19no ambulatório até o ano passado, fazendo esses mesmos trabalhos, tirando pressão, aplicando injeção.
07:25Até 98 anos, 96 anos, ele trabalhou?
07:3096, 96.
07:32Porra, cara.
07:35Se você seguiu o passo do teu pai, você vai dar um trabalho para a gente da porra, vai ficar
07:40aí tocando e cantando.
07:41Gente, bicho.
07:42Acho que não, era outro, comia ali o peixinho plantado no rio, pescado no rio Meari, sabe, o arroz plantado
07:49no...
07:52Que figura ótima, rapaz.
07:54Uma figura, figura de cinema.
07:58E ele faz também as cachaçinhas, os licores, são famosos, a turma do samba que vai lá, o Sione, Martinho,
08:04a banda do Zeca Pagodil, todo mundo que vai, compra lá as cachaças, catuaba que ele faz, umas coisas que
08:10ele aprendeu com a mãe.
08:11Que era árabe e fazia umas beberagens, né, com especiarias, cravinho, evador, cianiza, essas coisas.
08:17E ele fica lá, passa o dia fazendo, ainda trabalha, só que em casa agora, né.
08:21Uma figura, meu pai.
08:23Posso dar um salto na nossa conversa pra gente voltar?
08:28Lá na frente, depois dessa história, você vira um comerciante, você é um cara que gostava muito de doce, no
08:35colégio, na faculdade, agronomia, era agronomia que você fazia?
08:40Agronomia, você recebe o apelido de baleiro em função da...
08:45Aquela história que as gravadoras divulgam e você sustenta, pode até ser que não seja 100% assim, mas é
08:52uma forma de se promover e divulgar o nome baleiro.
08:56Mas você se transforma num comerciante, cara.
09:01Num período da sua vida, você abre uma loja, vai vender bala, vai vender doce caseiro, bolo caseiro.
09:07Quem era o pior comerciante, você ou seu pai?
09:10Eu?
09:13Eu, sem sombra de dúvida.
09:15Eu fiquei um ano com essa lojinha, ela era muito bonitinha, era feita com muito capricho, assim.
09:21Eu e uma namorada da época, Tatiana, a gente montou e tal.
09:24Só que, ao final do dia, os amigos todos, boêmios, músicos, gente do teatro, poetas, iam pra lá e tinha
09:32um bar do lado, onde a gente gastava a férias do dia toda ali.
09:35Então, assim, foi um fracasso como negócio, mas como...
09:41RP, Relações Públicas.
09:44RP foi perfeito.
09:46RP foi perfeito.
09:49E a...
09:50Vamos voltar praquele princípio.
09:52E a música, como é que entra na família de um farmacêutico, um médico prático?
09:57Tipo, como é que a música rola ali pra você?
10:00Como é que ela chega pra você nos primeiros anos?
10:04A família da minha mãe era muito musical.
10:08Minha mãe tá viva também, com 90 anos.
10:11Hoje tá com problemas de Alzheimer e tal.
10:13Mas ela é uma figura muito musical e tinha uma memória incrível.
10:18É até irônico que ela hoje esteja com uma doença que leva a perder a memória.
10:23Porque, assim, tudo que eu conheço de música antiga brasileira me veio a partir dela.
10:29Gostava de Noel Rosa, Wilson Batista, Geraldo Pereira.
10:32Cantava samba, sabia os nomes, sabia a autoria.
10:35Dizia assim, samba é de Noel, Ismael e Newton Basto, sabe?
10:39Então, assim, essa valsa, essa marchinha de Haroldo Barbosa,
10:44ele falou que tinha uma coisa de estudante que ficava com aqueles cadernos de letras de música, sabe?
10:51Ela era muito... Até pouco tempo, até já cometida da doença, ela ainda lembrava de coisas.
10:56Eu ia lá, passava uma tarde tocando violão com ela, ela ia lembrando de músicas e tal.
11:01Porque parece que a música é a última memória que se esvai, né?
11:07Então, assim, eu devo muito a ela.
11:10Eu não vi, mas ela tinha uns tios que tocavam clarinete, cavaquinha, tinha um regional de choro e de samba
11:16em casa.
11:17Eu tenho dois primos que são músicos profissionais, que tocam choro e samba prioritariamente,
11:23o Paulo e o Sadi.
11:24E meus irmãos tocavam, meus dois irmãos homens tocavam, cada um um pouquinho.
11:29Depois viraram bancários, foram para outro mundo, assim.
11:31Mas tocaram. E eu lembro muito de, na primeira infância, antes dos oito anos, na porta de casa dessa cidade
11:39do interior,
11:40que era uma cidade muito pacata, quase não passava carro, a televisão estava começando a chegar.
11:45Então, as diversões eram rádio e ir para a rua contar a história, no caso deles, ali, tocar violão.
11:50Então, eu lembro deles fazendo as rodas e tocando de tudo da época.
11:55Paulo Diniz, Fernando Mendes, Sérgio Sampaio, lembro deles tocando Cala Boca, Zé Bedeu, aquelas coisas todas.
12:04Os clássicos, Novos Baianos, ali, que estavam surgindo também, Fagner, que estava surgindo, aquela geração ali que estava surgindo.
12:11E os clássicos, Gonzaga, Jackson do Pandeiro, coisas assim, né?
12:15Então, Roberto Carlos, essas coisas todas.
12:17A cidade sua, naquele período, era quanto? Quando você começou a esponjar isso, você tinha que idade, mais ou menos?
12:25Há seis, sete anos.
12:28Seis, sete anos.
12:30Foi o primeiro contato.
12:31Quando eu fui a Cachoeira do Itapemirim, Terra Natal do Sampaio, do Roberto, entre outros ilustres, né?
12:38Eu fiquei muito tocado, quando conversando lá com o pessoal, gente até da família do Sérgio,
12:44eles falaram assim, cara, aqui a tradição é o seguinte, comer piaba frita com farinha e tomando cerveja.
12:51Eu falei, pô, mano, na minha cidade também tinha isso, lá do outro lado, né?
12:56Do outro lado do Brasil, era uma coisa assim, comia piaba frita ali, na beira do rio e comia com
13:04espinha e tudo, com piaba bem fritinha, né?
13:06Você deve conhecer.
13:08Arrancava a espinha no meio do dente e vambora, bicho.
13:11E era delicioso.
13:13Então, teve essa infância saudável aí, assim, eu falo que é uma infância digna de Monteiro Lobato.
13:20Muita história de assombração, de curupira, de maindágua, aquela coisa toda.
13:25Muito musical, porque todas as brincadeiras eram permeadas de música, né?
13:29Cantiga de roda.
13:31As brincadeiras populares, Tereco, Bumba Belboi, que vinham brincar às vezes na porta de casa, tinha uma praça na porta
13:37de casa, as brincadeiras...
13:40Colorido, isso pro moleque colorido, com ritmo, com gritos e cantos, isso impacta a pessoa.
13:48Isso marca pra sempre, isso marca pra sempre.
13:51É uma visão que não fica, né?
13:54Muito mágica.
13:55E se você já é uma criança com a curiosidade mais desperta pra música, pra arte, aí não tem jeito
14:02mesmo, né?
14:03Isso marca pra sempre.
14:04Então, foi aí o começo.
14:05Depois a gente vai pra São Luís...
14:07Seu pai perde tudo na enchente e vai pra São Luís.
14:12Vai pra São Luís e aí...
14:14Que idade que você chega em São Luís?
14:16Você tem isso na memória?
14:17Tenho oito anos.
14:19Oito anos.
14:20E aí você começa a ter um contato com a música?
14:24Começa a compor ou a trabalhar o violão de uma forma mais séria ainda em São Luís?
14:30Eu demorei, cara.
14:31O violão era uma presença constante.
14:33Tava na casa o tempo todo.
14:35E eu, como criança ali...
14:36Criança tem muita curiosidade.
14:38Curiosidade lúdica com instrumentos, né?
14:40Mas era aquela coisa assim...
14:42Tocava, passava a mão, pegava a palheta, brincava ali, mas não tinha aquele ímpeto.
14:47Quando chegou aos 14 anos, meu pai falou...
14:50Cara, o violão tá aí, porque tu não aprende de vez?
14:53Fica só aí mexendo nele.
14:55Vai aprender.
14:58Aí ele trouxe um professor, que era um professor também das antigas, chorão.
15:03Tocava muito choro e tal.
15:05Professor Oswaldo.
15:06Ele me deu umas quatro aulas e eu botava uns carimbos com as posições num caderno.
15:12E eu já me senti apto a largá-lo.
15:16Falei, não precisa mais vir, viu, professor?
15:18Com quatro aulas?
15:20Não é que eu fosse bom, não.
15:21Era só arrogância.
15:23O quê, cara?
15:25Porque, na verdade, eu nunca tive esse ímpeto de ser um instrumentista.
15:30Desde o início, eu queria aprender um pouco de harmonia, dos acordes e tal, pra compor.
15:36Eu aprendi, assim, alguns acordes e eu queria compor.
15:40Era uma coisa meio natural em mim, né?
15:42E então eu nunca tive aquela paciência de fazer escalas.
15:45Ele me passava, mas eu não queria.
15:48Então, um pouco de preguiça, um pouco de uma certa presunção, assim, do jovem, né?
15:54De, ah, acho que eu já sei.
15:56Mas aí foi bom também, porque aí você vai aprendendo com os amigos mais velhos.
16:01Tinha um vizinho, que é um cara muito importante na minha origem, que é o Nosli, que hoje mora
16:07em Pernambuco, já morou fora do Brasil, já morou em BH também comigo, que é um cara
16:11que era mais atento às harmonias, gostava daquela coisa do Clube da Esquina, dos mineiros,
16:17aquelas harmonias sofisticadas e me influenciou também nesse sentido, né?
16:23Mas aí você vai aprendendo meio que sozinho e na marra, né?
16:27Mas vamos lá, você se considera compositor com que idade?
16:32A que idade você fez uma música que você disse, essa foi a minha primeira música?
16:39Ah, acho que com 16 anos eu já tinha uma coisa mais ou menos ainda a ver, mas já pronta,
16:45assim,
16:46pra mostrar, sabe?
16:47Uns três anos depois que você pega o violão com uma certa seriedade, que faz quatro aulas,
16:53que já começa, é, mas olha só, sabe o que acontece?
16:57Eu acho que você tem um violão muito característico, um toque muito pessoal, e aí eu já começo
17:05a entender de onde é que vem, vem desse chorinho, vem desse Sérgio Sampaio lá atrás com as rodas,
17:11vem com essa influência do seu amigo com o Clube da Esquina, essa junção criou um estilo
17:17Zé Cavaleiro, sabe?
17:19Isso é importante, a gente pensar nisso.
17:23Você se coloca como compositor aos 16 anos, mas o seu primeiro trabalho, vamos dizer, profissional
17:33e mais sério, é uma peça infantil, que é uma peça com um universo muito próximo desse
17:40que você acabou de dizer do Sassi Pererê, do Bumba Meu Boi, quer dizer, aquela coisa da
17:49sua infância, do colorido da porta da sua casa, foi o que te levou a fazer o primeiro
17:55trabalho que a gente pode considerar como o primeiro trabalho profissional do Zé Cavaleiro.
18:01Sim, de certa maneira foi.
18:03Tinha um amigo mais velho, o Rio Ribeiro, que me chamou, ele tinha um grupo, estava formando
18:08um grupo que queria que fosse especializado em teatro infantil e, apesar de ser um grupo
18:12de teatro amador, as ambições eram profissionais, então o figurino era bem cuidado, a iluminação,
18:22tinha uma produção bacana, a carta de patrocínios ali, locais e tal, então a gente fez uns espetáculos
18:27bem interessantes e, para mim, foi um grande exercício, porque eu tinha que compor as trilhas,
18:33dirigir os outros músicos, os atores, tocar em cena.
18:37Então, assim, eu tive que tirar da cartola isso aí, porque eu não sabia fazer.
18:43No início, eu mesmo falava assim, cara, eu não sei fazer isso.
18:46Eu falei, sabe, sabe, venha aqui, vou te mostrar uns discos de trilha, você vai saber fazer.
18:52E foi uma baita experiência.
18:54Eu era muito tímido quando adolescente, então tocar ali com os atores no palco também
18:59me ajudou a desinibir um pouco, ter um pouco mais de coragem, assim.
19:03Foi uma experiência muito rica.
19:06Aí, depois, eu fui para a coisa autoral, né, de mostrar minhas composições.
19:10Esse primeiro espetáculo infantil, Ainda e São Luís?
19:13Ainda e São Luís.
19:15Ainda e São Luís.
19:16Você vai depois para Belo Horizonte.
19:18Quanto você vai...
19:19Essa idade, mais ou menos, sua, do infantil primeiro?
19:24Você vai para Belo Horizonte?
19:25Dezoito, dezenove anos, eu estava lá no grupo infantil, entre dezessete e dezenove anos.
19:29Aí, com vinte, eu fui para Belo Horizonte.
19:31Por que você foi para Belo Horizonte?
19:34Eu não sei se você lembra, você é um cara ligado, antenado, você deve lembrar, mas
19:38em 1986, o Tony Walker organizou o primeiro seminário de música instrumental em Ouro Preto.
19:44Foi um evento, assim, imenso e tal.
19:46Foi.
19:47Gente do mundo todo e tal.
19:49E esse meu amigo, Nosli, que era muito obcecado pela coisa harmônica e tal, mais do que
19:54eu, foi com mais outros amigos, um percussionista, um produtor, um badolinista, e me chamou.
20:00Aí eu falei, cara, não, eu não vou não, eu não gosto de músico, eu não gosto disso
20:04disso, eu não gosto disso aí, não.
20:06O negócio é outro.
20:07Vender bolo, o meu negócio é vender bolo.
20:11Eu vou ser o maior comerciante de bolo desse país.
20:14O maior boleiro desse país.
20:17Aí eles foram, eu já tinha mudado de curso, tinha saído da agronomia, entrado em jornalismo.
20:22Estava perdidaço, naquela idade que você não sabe se compra uma bicicleta ou se compra...
20:29Ou casa.
20:30Ou casa, exato.
20:31Aí eles ficaram, eles fizeram o seminário, ficaram em Belo Horizonte, começaram a tocar
20:38à noite lá e me chamaram.
20:40E eu estava meio assim, bem atrapalhado, falei para os meus pais, eu ainda morava com
20:46eles, falei assim, poxa, o cara me chamou, aí eles foram muito, meus pais são bem mais
20:51velhos do que eu, eu sou um filho temporão de uma família, eu sou temporão de uma família,
20:56assim, meus irmãos mais velhos poderiam, com um pouquinho de esforço, serem meus pais.
21:04Mas eles foram super compreensivos, falaram, você quer isso mesmo, meu filho?
21:07Então tá, a gente te apoia, vai lá.
21:09Vai.
21:09Pegou um dinheirinho lá, me deu, eu fui, fui de ônibus, tá?
21:15Naquele tempo não tinha o glamour do avião, não, e tal.
21:18E, cara, foi uma experiência muito rica para a gente, porque primeira vez que a gente saiu
21:22da nossa cidade, tocou para outro público que não eram amigos, colegas de escola, parentes,
21:28certo, e tal. E a gente viu que, apesar de ainda sermos muito imaturos, né, como músicos
21:33e como pessoas, tinha alguma coisa ali naquela nossa bagagem que agradava, sabe?
21:40Diferente do comum, diferente do comum.
21:43Diferente, diferente, sim, uma coisa que era nossa, que era a coisa da partida do Buma
21:48Meu Boi, que a gente transpunha para o violão, que impressionava as pessoas.
21:51Pô, como é que vocês fazem isso? Pô, para a gente isso é uma coisa natural.
21:53Então, para eles era... E tocava também, os Flávio Venturini e Davi, os Beto Guedes,
21:59os Lombardi, que a gente adorava, e tal.
22:02Mas nesse período, nesse período, você chegou a cruzar com essa turma que hoje é sua amiga?
22:08Você é vivo de novo, você é...
22:10Não, não, tem um cara que eu cruzei de uma forma muito inusitada, que é o Paulinho Pedra Azul,
22:14que você deve conhecer.
22:16Conheço bem.
22:17Um craque.
22:18Paulinho fez um sucesso incrível lá no Maranhão, muito por conta de uma rádio que existia lá.
22:23No Espírito Santo também.
22:25Também.
22:25No Espírito Santo também.
22:27Era de lotar, assim, teatro, dois, três dias e tal.
22:30E eu fui assistente de produção do primeiro show dele lá.
22:34Um amigo estava produzindo, Euclides, e me chamou.
22:37Zé, me ajuda aí.
22:38Ele estava com a perna quebrada, acho.
22:41A gente já se conhecia, além do meio musical, ele produzia show.
22:45E eu fui pegar o Paulinho no aeroporto, eu levei ele para o hotel, levava ele para comer e tal.
22:50E hoje a gente se encontra e ele fala, meu produtor e tal.
22:55É muito bacana.
22:57Aí você encontrou com ele em Belo Horizonte, em Minas Gerais.
23:01Olha, por incrível que pareça, não.
23:03Eu fui encontrar com ele lá.
23:04Não, depois.
23:05A gente vivia num mundinho muito nosso ali, sabe?
23:08A gente não ousava muito fazer contato com essa gente.
23:11Eles estavam em um lugar meio inacessíveis ainda para a gente.
23:17Mas a gente conheceu muita gente bacana que tocava na noite.
23:20Maurício Tizumba, que hoje é um cara que tem um trabalho interessantíssimo lá.
23:25E várias pessoas, músicos bons.
23:29Porque em Minas, qualquer cara toca um bom instrumento.
23:32É incrível.
23:33A vida é incrível.
23:34Um cara que toca ali num botequinho, toca bem para cacete.
23:37Então, para a gente, era uma aula também.
23:39A gente ficava vendo e admirando aquilo e pá.
23:43Quanto tempo em Belo Horizonte, antes de escorregar para São Paulo,
23:47porque é uma via quase que natural, todos os mineiros, quase todos os mineiros,
23:53correram primeiro para São Paulo?
23:55Pois é, cara.
23:56Aí tem uns acidentes no meio do caminho.
23:58Eu voltei ainda a São Luís.
24:00Fiquei um pouco menos de um ano.
24:02Voltei a São Luís.
24:03Tive um sérios problemas respiratórios.
24:05Na época fazia bastante frio em Belo Horizonte.
24:07Hoje não faz mais.
24:08Mas na época eu peguei um frio danado lá.
24:10Tive os problemas e tal.
24:12Acabei voltando.
24:13Foi quando pintou essa tal ideia da loja, de doce.
24:17Tentei outros caminhos para sobreviver.
24:21Mas aí vi que tem coisas que você não adianta pegar atalho.
24:25Não, cara.
24:25Você tem que trilhar e ver o que vai ser.
24:29E acabei fazendo isso.
24:31E aí anos depois, já quatro anos depois, foi que eu voltei, que eu vim de vez para São Paulo.
24:38Aí já numa outra busca, de fazer disco, de fazer demo para chegar ao disco, buscar contato com gravadoras, essas
24:47coisas.
24:48Aí chegou cheio do dinheiro do bolso, porque aí já estava um homem cheio da grana, não precisava dividir apartamento
24:56com ninguém, morou sozinho e que não foi verdade.
25:02Ralou feito um cachorro pobre e dividia apartamento com quem?
25:08Chico César.
25:11Eu fico imaginando, cara, você e Chico César no mesmo apartamento em São Paulo, dois fodidos na vida, sem grana.
25:20Cara, isso deve ter sido rico, rico.
25:23Foi, foi.
25:24Nem queira imaginar.
25:25Era uma bagunça a nossa casa.
25:27Mas, bicho, foi um tempo tão feliz.
25:29Até hoje a gente encontra os amigos.
25:31Muita gente passou por lá.
25:33Porque aí virou um ponto de encontro das pessoas.
25:37Então eu conheci os músicos que tocavam com o Itamar Assunção, do Isca de Polícia, Paulinho Lepetit, Vangeliê, Tata, Gigante
25:43Brasil, aquela turma toda.
25:47Vários, vários músicos.
25:49Gente que estava no mesmo momento que a gente, Carlos Careca, Paranaense, Rita Ribeiro, que era do Maranhão, buscando um
25:55lugarzinho ao sol.
25:57E a nossa casa era meio...
25:58Eu gostava de cozinhar.
26:00O Chico fala que eu era a esposa e ele o marido, né?
26:03Porque eu cozinhava e ele lavava.
26:06Que filha da mãe.
26:07Filha da puta, né?
26:10Mas foi um tempo feliz.
26:12Muitas dessas músicas nossas, que hoje todo mundo conhece, canta nos shows, foram compostas aí nesse apartamento.
26:18Porque, apesar de a gente compor quase sempre sozinho, era muito rara a parceria.
26:22Porque cada um tinha o seu lance e estava querendo construir a sua identidade.
26:26Então não fazia muito sentido, desculpa, naquele momento compor juntos.
26:30Era muito eventual.
26:32Mas a gente sempre trocava informações.
26:34O Chico ouve essa música aqui, o que é que você acha?
26:36Pô, bacana.
26:38Houve essa aqui, acabei de fazer.
26:39Então tinha uma troca rica, sabe?
26:42Agora, Zeca, eu estava aqui pensando o seguinte.
26:44Aí você vai nesse período, toca na noite.
26:48Nesse período começa as pessoas se olharem diferente.
26:51Esse toque do violão, essa batida do Bumba Meu Boi no violão.
26:57Essas coisas que você foi, como eu digo, esponjando ao longo do tempo e foi te dando uma personalidade, uma
27:05característica própria e chamando a atenção das pessoas.
27:08Aí eu, salvo engano, a primeira visibilidade nacional foi uma participação no material da Gal Costa, num DVD da Gal
27:17Costa.
27:18Acho que foi a sua primeira.
27:20Eu quero que você me diga assim, como é que você chega ali?
27:23Porque ali, por mais coração aberto que Dona Gal tenha e tem, você era um Zé Ninguém, cara.
27:33Era um cara, talvez o meio ali em São Paulo conhecia você e de repente você está num grande show
27:39com a Gal Costa.
27:40Isso te abriu uma porta pra você de forma enorme.
27:44Como é que você chegou ali, compadre?
27:46Várias coisas aconteceram até esse momento, né?
27:50Primeiro eu comecei a trabalhar, eu fazia direção de outros shows, que é uma coisa que eu sempre gostei também
28:00de estar do outro lado, nos bastidores, ajudando a conceber arranjos, repertórios.
28:08Eu sempre gostei disso.
28:10E tocando meu próprio trabalho, montei uma banda, fazia shows aqui com uma turma e tal.
28:16Trabalhei em estúdio uma época com uma assistente pra aprender um pouco mais da coisa do som ali, do funcionamento.
28:26E comecei a fazer uma demo.
28:27Levou muito tempo que era aquela coisa sem grana, sofrida.
28:30Ah, tinha uma graninha aí, a lá trabalhava um pouquinho.
28:32Aí eu levei dois anos fazendo.
28:36E essa demo foi pra tudo que era gravadora.
28:39Uma amiga mineira, Rosana, que trabalhou comigo durante muito tempo, ela levou em todos os selos, gravadoras.
28:47Aí começou a ter, no mesmo momento, o Chico estava surgindo e gravou aquele disco ao vivo lá.
28:51Então, criou-se um cenário de uma geração chegando, assim, sabe?
28:58Perfeito.
28:59Mercadológica, porque nem todo mundo era da mesma idade, mas assim, uma geração em termos de mercado.
29:04Surgindo com a proposta brasileira ali pós-Manguit, né?
29:08Talvez porque as pessoas tivessem com o ouvido um pouco cansado de tanto rock que predominou durante uma década.
29:14Reflexões que eu tive.
29:16Não, mas é plausível, completamente certo isso.
29:21Porque, assim, a gente já produzia nos anos 80, mas se eu tocasse o que eu tocar, por exemplo, um
29:25baião, uma coisa mais brasileira, numa roda nos anos 80, iam ridicularizar a gente.
29:33E nos 90, começa a se abrir, começa a ficar cult isso, começa a ficar chique.
29:37Entender, sacar o que é um maracatu, uma ciranda, um tambor de crioula, um sábio, um congo aí no Espírito
29:46Santo e tal.
29:47Então, começou a ficar, essa cultura brasileira veio para a frente da cena.
29:53Isso possibilitou que pessoas como eu, Chico, o próprio Lenine, que é de uma outra geração, é mais velho, e
30:00outros gravassem ali naquele momento, tivessem acesso aos meios de produção.
30:06É, muito bom.
30:07Agora você consegue gravar seu primeiro disco quando você já tinha 12...
30:11Eu estou falando, lembrando alguns pontos, pontuando alguns instantes, porque a gente acha que o cara saiu do porta-mala
30:21para a primeira classe em 3 horas.
30:24Não, meu irmão, foram 12 anos.
30:26Até o momento que você gravou o primeiro disco, você já tinha 12 anos de estrada, cara.
30:30É chão pra caramba, é experiência, você já sabe o que é, você já tem músicas acumuladas, você já tem
30:36parcerias bem resolvidas, você já tem músicas testadas em palcos pequenos, em botecos, em bares e restaurantes, e já sabem
30:45que...
30:45Você já tem dois discos montados com 12 anos, dois discos que você já testou as 24 músicas durante os
30:53últimos 12 anos, cara.
30:55Exato, exato.
30:57Então você já...
30:57O problema é o terceiro disco, e começa a pressão.
31:02Isso é interessante, mas sabe que, por exemplo, a gente gravou, se for comparar com outras gerações, a gente gravou
31:08tarde.
31:08A geração do Chico Buarque e do Caetano gravaram com 20, 21 anos.
31:12A geração do Frejá, do Cazuza, do Herbert, gravaram com 21, 22 Titãs e essa turma.
31:20Eu vou gravar com 31, o Chico também, 30, acho, 31.
31:25Então, assim, foi ruim por causa dessa ansiedade que causa na gente.
31:30O compositor tem muita ansiedade, porque ele quer mostrar, se ele acha que aquilo é bom, ele quer compartilhar com
31:35o público.
31:35Por outro lado, a gente teve tempo de amadurecer.
31:39Então, assim, deu tempo de testar isso aí que você falou, testar esse repertório, ver o que era, de fato,
31:45importante para o público e para você, o que era essencial.
31:49Então, quando a gente chegou ali, não que a gente fosse, uau, super maduro.
31:53Sim, sim.
31:54Eu ouço os primeiros discos, eu sofro.
31:56Mas está ali um repertório...
31:59Uma linha, tinha uma linha, uma linha de conduta.
32:03Exato. E um repertório substancial, que foi acumulado nesse tempo.
32:07A gente compôs muito, a gente só fazia isso.
32:09Eu e o Chico, a gente só fazia isso.
32:11Então, até o terceiro, quarto disco, eu tinha coisa de...
32:17Como é que fala? De estoque.
32:19Eu tinha ali o meu estoque, meu baú.
32:21Sim, sim.
32:21Eu ia, poxa, essa música aqui ainda tem a ver, pai e tal.
32:24Não precisava compor um disco inteiro em meses, entendeu?
32:27O que é muito bom, porque dá um lastro para o artista.
32:31E dá uma cara para o artista, dá um estilo, dá os quatro primeiros discos que são coerentes.
32:38Você não tem...
32:38Você não tem um...
32:40Acho que você fez um levantamento que eu nunca tinha parado para pensar.
32:44Que é a geração do rock dos anos 80 sufocou a geração que poderia fazer um trabalho paralelo
32:52e não sufocou para uma questão só exclusivamente mercadológica.
32:58Interesse de gravadora.
32:59Porque se eu pego quatro moleques de garagem, faço uma banda de rock e vendo,
33:04por que eu vou arriscar com um rapaz lá do Maranhão?
33:07Então, deixa eu ficar aqui.
33:09Fora talvez o movimento cearense que aconteceu ali antes do rock e roll, demorou quase que
33:2115 anos para que outros nordestinos tomassem conta do mercado, jovens nordestinos tomassem
33:28conta do mercado como você, como Chip e outros mais.
33:31Concorda com isso?
33:32Concordo.
33:33Essas coisas são cíclicas, né?
33:37Assim como você falou que a geração do rock suprimiu, escondeu, soterrou, isso é inevitável.
33:45Talvez o surgimento da nossa geração tenha lançado sombras sobre pessoas muito talentosas,
33:55infelizmente, talvez.
33:57Mas é assim que a coisa funciona.
33:59Quando pintam uma coisa, outra coisa sai de cena.
34:04Porque o mercado é muito assim, parece que tem uma necessidade de ser afirmativo.
34:11Por isso se fala muito que o Brasil é monocultural.
34:14Quando uma coisa predomina, é só aquela coisa.
34:17Num país como o Brasil, cuja grande riqueza é a abrangência, a multiplicidade de ritmos,
34:24de gêneros, de musicalidades.
34:26Então, é triste isso, mas parece que é meio inevitável.
34:31A gente ficou ali escondido.
34:32E quando a gente surgiu, talvez a gente tenha escondido.
34:35A gente tenha feito com que alguns artistas talentosos fossem também escondidos.
34:40Isso é meio inevitável.
34:43Você, talvez isso também, essa história toda que você nos conta até o presente momento,
34:48me leva a acreditar que o que você passou de dificuldade, mercado, abafado e tal,
34:56é mais ou menos o que você sentiu de vontade de buscar uns peixes que estavam mohando no rio
35:08e que não eram pescados.
35:10Aí eu me lembro do disco que você fez em cima do Adair José.
35:15Eu me lembro do seu olhar sobre os malditos, entre eles o Sérgio, os carimbados malditos.
35:23Eu adorava Sérgio Sampaio, inclusive tinha o prazer de conviver e conhecer.
35:27Então, Sérgio Sampaio, Zé Ramalho, que você fez no trabalho.
35:32Mas o Zé é o maldito, meu bandido favorito.
35:37É o maldito que se salvou.
35:39É, o maldito que se salvou, muito em função, até posso estar falando besteira,
35:44muito em função dos amantes de Raul Seixas que vêem nele uma figura que dá continuidade.
35:52Então, você sempre buscou esses malditos, entre aspas.
35:57Isso está, talvez, no seu subconsciente, em função das dificuldades que você teve
36:03de buscá-los, de encontrar o seu sucesso e resolver buscá-los, recuperá-los.
36:09O Adair José, o disco do Adair José que você produziu é sensacional, cara.
36:13Esse disco do Adair é bonito mesmo.
36:17Quando eu produzi, ele disse, Zeca, é o meu último disco, cara.
36:20Vou fazer, é porque você está insistindo, mas é o meu último disco.
36:23Depois desse, ele já fez outros três.
36:25Todos bons.
36:26E é um cara inteligentíssimo, um cara...
36:31Cara, uma inteligência é muito peculiar, muito próspera.
36:35É, é.
36:36Gosto muito do Adair.
36:37É um gentleman, um lord interiorano.
36:39É um cara muito bacana.
36:40Não tem aquela coisa ressentida que alguns artistas do lugar dele às vezes têm.
36:47É um cara muito bacana.
36:49Olha, eu não sei te dizer...
36:50Aí tem uma coisa de predileção.
36:52Então, como eu brinco, eu fiquei muito tempo no estaleiro, naquele lugar, achando que eu tinha um trabalho interessante, que
36:59merecia alguma visibilidade, mas sem acesso aos meios de produção.
37:02Quando isso veio, eu fiquei guloso, eu fiquei faminto, eu fiquei ansioso por fazer coisas.
37:09Então, não me satisfazia só gravar os meus disso.
37:12Eu queria produzir outros artistas.
37:14Eu queria, como eu acabei vindo a fazer, criar o meu próprio selo, que eu inaugurei com um disco póstumo
37:20do Sampaio Cruel.
37:21E um outro em parceria com a Ilda Hills, que é outra poeta também maldita.
37:25Mas isso é uma questão de predileção, não é que eu só gosto de maldito.
37:28Não, eu gosto de Roberto Carlos também, que está longe de ser um maldito, entendeu?
37:32Ou do Chico Buarque.
37:33Não tem isso.
37:34Mas, claro que tem uns artistas que marcam você, esse imaginário rock'n'roll, da maldição, da irreverência, da transgressão
37:42quando você é jovem.
37:43Isso aí tem um impacto muito grande.
37:44Acaba formando um pouco o seu caráter também, sua filosofia de vida.
37:49Tem uma coisa que eu acho muito interessante, viu, Edu, que é o seguinte.
37:52A gente era muito romântico, no sentido de...
37:55Ah, velho, tem uma bireta, um violão, um amor no coração.
38:00Está tudo legal.
38:01Vamos embora.
38:02Uma hora a coisa vai chegar.
38:04Eu sinto o outro.
38:05Tem um peixinho na beira do rio com uma falada, uma cachaça?
38:08Vamos nessa, compadre.
38:09Uma piabia frita, está tudo certo.
38:11Hoje eu sinto uma ansiedade muito grande.
38:13Eu vejo gente jovem, talentosa, inclusive, que vem até mim.
38:17Mas eles vêm com uma ansiedade muito grande, que é inerente também à juventude, né?
38:24Mas assim, uma ansiedade de querer acontecer, porque eu nem sei o que é isso.
38:31E, pô, a música é importante, mas antes tem a vida.
38:35Você precisa ter vida para poder fazer canção, para poder saber o que dizer no palco,
38:40para poder contornar uma situação de dificuldade com alguma elegância.
38:44Tudo isso, você tem que ter vida.
38:45E os caras querem, sabe, pá, já ser um grande artista, consagrado, tem que ter estrada.
38:52Então, quando vem assim, me pedem com o SEM, porque hoje já me chamam de mestre,
38:58eu acho estranhíssimo, mas tudo bem, me chamam, problema dele.
39:01O que é que eu faço?
39:02Falei, cara...
39:04Viva!
39:05Segue a vida.
39:06É, trilho, trabalha, porque a conjunção de talento com força de trabalho incansável,
39:12ela é milagrosa, ela abre portas, abre caminhos, mas vai vivendo a vida, vai namorar,
39:18vai beijar na boca, vai viajar...
39:21Vai errar, vai errar, vai acertar...
39:23Isso!
39:24Vai fracassar um pouquinho, falir.
39:26Minha loja lá de doce faliu, pô.
39:30Zeca, o que eu acho muito forte em você, a gente já falou do postura de palco, voz,
39:38isso tudo é indiscutível, cara, indiscutível, batida de violão, violão...
39:44Mas o que eu me sensibilizo é com o seu texto, cara, o seu texto, o que tá ali pra
39:52ler.
39:53Tá muito ligado à experiência de vida, aos tropeços, aos acertos, às bolas na trave,
40:01o gol contra, tá tudo ali.
40:03Que é o meu gol contra, a minha bola na trave, que é do Zequinha, que é da dona Chiquinha,
40:08de todos nós.
40:09Você sabe pegar isso e colocar no papel e transformar isso num texto que mexe com a
40:15gente pra caramba, cara.
40:16E a palavra...
40:19Da onde que vem essa história?
40:21Onde é que vem a palavra pra você?
40:23Porque a gente falou muito do teu pai, da tua mãe, da música.
40:27Acho que talvez da sua mãe, com essa história da lembrança dela, pode ser?
40:34Meus pais, além disso que eu já falei, eles eram professores, né?
40:40De português.
40:41Meu pai era de biologia também.
40:43E meu pai sempre foi um boleitor.
40:45Minha mãe era da música e meu pai era da literatura.
40:48Ele adora ler.
40:48Até hoje, né?
40:50Eu chego lá e ele tá com um livro, assim.
40:51Eu cheguei lá em São Luís, ele tava com um livro imenso.
40:54Falei, pai, que livro é esse?
40:55Falei, Drácula de Brian Stoffler.
40:58Nunca tinha lido, né?
40:59Me deram aqui, eu tô lendo, tô adorando e tal.
41:02Falei, cara, nunca li esse livro.
41:04Ele tava lá, lendo, encantado com o livro.
41:07Ele sempre gostou.
41:08Ele era inérgico com essa coisa de que a gente precisava ler, sabe?
41:12Às vezes, quase autoritário e tal.
41:14Então, aqueles livros que tinham lá aquela biblioteca básica.
41:18Zé de Alencar, Machado de Assis, Érico Veríssimo.
41:22Legal.
41:23Jorge Amado.
41:24Ele ia passando pra gente.
41:25Eu acho até que eu li pouco, perto dos irmãos.
41:29Mas eu acho que esse talento pro texto é uma coisa meio inata, sabe?
41:33Uma coisa que você nasce, aperfeiçoa ou não.
41:36Então, ler ajuda, ajuda na vida, não só no texto, mas ajuda porque traz vocabulário, né?
41:44Traz repertório, ler é muito bom.
41:47E por isso, talvez, também que hoje o texto das canções, de uma maneira geral, é chato
41:52ficar comparando, né?
41:54Ah, no passado era melhor.
41:55Tem muita gente fazendo coisa boa hoje, em termos de texto.
41:59Mas eu acho que tem muito a ver com isso.
42:01Ler-se menos.
42:02Ler-se menos.
42:03Perfeito.
42:03Entendi.
42:05Mas eu acho que é um talento meio que já vem, assim.
42:09Aí você pode desenvolver, aprimorar, chegar a um Chico Buarque, a um Luiz Melodia,
42:13a um Sérgio Sampaio, a um Erasmo Carlos.
42:17A um Zé Cabaleiro.
42:18Bondade sua.
42:20Não é não, bicho.
42:21Você tem quantos livros de crônica, por exemplo?
42:23Porque eu acho tão difícil escrever uma crônica, é tão difícil, cara.
42:28Alguma coisa que tenha um começo, meio e fim, que não é um livro que vai me deixar
42:33viajar, é alguma coisa que tem que me impactar em seis parágrafos.
42:39Seis parágrafos.
42:40É difícil, cara.
42:41Você tem dois livros de crônica.
42:43Esses textos curtos são interessantes.
42:47Difícil.
42:47Difícil, desafiador.
42:48Você tem que...
42:50Não que o romance não seja tão difícil quanto.
42:53Sim, sim.
42:53É outro grau de dificuldade, né?
42:56De seduzir, pegar e arrebatar em duas páginas aí.
43:00Sei lá.
43:03E você continua escrevendo para revistas e para jornais?
43:07Como é que está essa produção?
43:10Porque você tinha um tempo que eu me lembro que eu parei...
43:12Eu vou ser sincero que eu parei de comprar revista há muito tempo.
43:15Ah, eu também.
43:17Sabe, agora procura...
43:19Restei um amigo que me manda jornais do mundo inteiro, de mais cedo, cara.
43:24O menino está muito doido com esse troço aqui.
43:26Jornais do mundo inteiro chegam pelo WhatsApp, cara.
43:31Que doideira, né?
43:32Quem diria, né?
43:33Cara, eu escrevo sempre, mas assim, não com pretensões de escrever.
43:37Às vezes, é uma reflexão acerca desse mundo todo conectado, digitalizado.
43:45Que rumo isso vai tomar?
43:46As redes sociais interferindo profundamente no pensamento e até no julgamento das coisas,
43:53das pessoas, né?
43:54Hoje tem essa coisa do cancelar, sabe?
43:57Um tempo muito doido que a gente está vivendo.
43:59Às vezes, eu escrevo como uma reflexão.
44:01Mas nada que precise, a priori, ser compartilhado.
44:04Para mim, às vezes, é um exorcismo escrever, né?
44:07Coisa que eu não quero botar na canção.
44:09Não quero fazer uma canção sobre isso.
44:10Eu só quero pensar nisso.
44:12Aí eu vou lá e escrevo.
44:13Se um dia eu achar que isso tem algum valor, que valha ser publicado, eu vou lá e publico.
44:19Mas vale como exercício.
44:22Lá no começo da sua história, que a gente conversou aqui,
44:25você tem a literatura infantil, o teatro infantil como o seu primeiro pontapé.
44:32A produção, fazer trilha.
44:35E depois você retoma isso.
44:37Lá na frente, você retoma o universo infantil.
44:41Muito, eu acho que, ligado ao nascimento do Manuel e da Vitória, como é que foi isso?
44:47Você retomou isso a partir do nascimento dos seus filhos?
44:52Ou já vinha retomando?
44:56Ou aquilo estava no seu sangue desde aquele tempo, não acabei bem acabado, não vou retomar?
45:01Como é que foi essa questão do infantil?
45:04Porque é uma formação de público, não é?
45:06É também.
45:08Eu acho que estava adormecido, porque antes mesmo de eu entrar no grupo lá,
45:14no grupo de teatro, no Maranhão, eu já gostava de trabalhos dirigidos a crianças.
45:20A produção brasileira é rica.
45:24Desde Braguinha lá, que fazia aqueles disquinhos com histórias musicadas,
45:28com arranjos de rata-mejata ali.
45:29Era um negócio super sofisticado aquilo.
45:32Aí vem Vila Sésamo, primeira trilha do sítio do Pica-Pau Amarelo,
45:36Doricaí, maravilhosa.
45:37Excepcional.
45:39A do Vila Sésamo, Marcos Vale, Paulo Sérgio Vale, Nelson Mota.
45:43Depois vem Arca de Noé, que é um clássico, Saltimbancos antes do Chico.
45:47Então, assim, tem uma...
45:48Aí depois vem Xuxa, Trenzinho Mágico, não sei o que.
45:52Tem outras, Balão Mágico, outras coisas.
45:54Mas outro tipo de produção.
45:56Mas essa tradição da boa música, da música infantil, com pedigree, de boa linhagem,
46:05é uma coisa que sempre me encantou.
46:08E quando nasceram meus filhos, o Vitório nasceu em 98, o Manuel em 2000,
46:13eu estava no auge ali daquele momento, fazendo discos, em evidência.
46:18Aí eu pensei, poxa, vou fazer um disco infantil.
46:20Só que a vida me arrastou e eu fui fazer esse disco em 2000.
46:25E 14, 13, quando os filhos já eram quase adultos, entendeu?
46:31E aí a minha ideia era juntar todos os amigos para fazer coro.
46:35Aí já foi um certo mico, porque eles já estavam naquela fase mudando voz.
46:40Enfim.
46:41Mas o disco está aí, estão dois, o Zoró, volume 1, e o Zureta, volume 2.
46:45Ainda tem uma sobra de umas 15 musiquinhas que dá para fazer um terceiro volume.
46:49Foi muito intenso.
46:51Mas, espera, espera, essa notícia do terceiro volume é legal, cara.
46:55Isso aí é importante.
46:56Era a ferramenta que eu tinha para entreter, para interagir com eles.
47:01Eu era através da música.
47:02Inventava histórias, criava histórias.
47:04Então foi muito bacana também.
47:07E há ainda uma carência.
47:08Embora hoje haja trabalhos incríveis.
47:10Palavra Cantada, um tanto de coisa brasileirinha,
47:14que é de uns amigos.
47:15A Adriana, Calcanhão, já fez dois discos.
47:18O Arnaldo já se dedicou a isso também.
47:20Tem muita coisa acontecendo.
47:21Mas ainda falta.
47:23Os pais reclamam, sabe?
47:24Então celebram como o artista treina esse caminho.
47:29Como é que você está passando essa relação?
47:31O mundo mudou completamente.
47:33Agora, como a gente estava falando, que de manhã cedo eu recebo e você também.
47:36Um monte de gente, os jornais do mundo inteiro via WhatsApp.
47:39A relação, você ficou anos dependendo de uma gravadora para te jogar a luz.
47:46Depois que você chegou a luz, você abriu o seu próprio selo, colocou outras coisas no selo.
47:51Quer dizer, se tornou um semi-independente, porque o artista é completamente dependente de tudo.
47:56Então eu chamo...
47:58Ah, eu sou independente.
47:59Nós somos dependentes.
48:02Completamente dependentes de tudo.
48:04E agora, teve uma virada no mundo inteiro.
48:08Não estou falando só de pandemia.
48:09Estou falando nos últimos 10 anos que gravadoras morreram.
48:14Tudo acabou, tudo virou.
48:16E como é que você está se mantendo e mantém esses produtos novos no mercado?
48:21É através de redes sociais?
48:23Está sabendo trabalhar isso bem?
48:25Como é que está isso na sua vida?
48:30Olha, me impressiona sempre a capacidade de adaptação do ser humano.
48:36É uma coisa muito louca.
48:38É uma coisa que me chama a atenção.
48:42Coisa de sobrevivência mesmo.
48:43Eu lembro quando o celular pintou.
48:45Era uma coisa de madame, de empresário.
48:49Como a gente não usava celular nos anos 90 e tal.
48:52E eu falava assim, cara, que loucura.
48:54Essas pessoas usando esses telefones pela rua, achando isso uma coisa estranha.
48:57Sem saber que, um pouco tempo depois, isso seria fato consumado.
49:03E a gente vai se adaptando como se, hoje, as pessoas usam o celular, como se o mundo nunca tivesse
49:07existido sem aquilo.
49:10Mas já existiu.
49:11A gente sabe.
49:11A gente que é mais velho, a gente sabe que já existiu.
49:14E funcionou muito bem.
49:16Muito obrigado.
49:16Muito bem, obrigado.
49:17Muito bem, obrigado.
49:18Então, assim, tudo a gente, por uma questão de sobrevivência, a gente vai se adaptando.
49:24Plataformas digitais de áudio.
49:26Eu olhava assim, aquilo meio...
49:28Virei um usuário.
49:30E se não tem a mágica que outros modos mais antigos que eu cultivo, tenho aqui uma picape,
49:36ouço meus vinis, meus CDs, tenho uma prateleira de CDs aqui, que eu tenho uma mágica na audição aí,
49:42que talvez até é uma coisa nostálgica de quando eu era menino, tudo, adolescente.
49:47Mas, por outro lado, as plataformas são muito práticas.
49:50Se eu quiser pesquisar a obra do Jássio Macalé, eu vou lá e está tudo lá.
49:56Quase tudo.
49:57Então, assim, do Lula, do Alceu Valês, quem eu quiser, brasileiro ou gringo.
50:04Então, assim, tem uma praticidade.
50:05Por outro lado, a imensa quantidade de coisas disponibilizadas ali parece que levou também
50:12a uma audição mais grosseira de música, mais ampassã, mais desatenta.
50:17A gente, que é audiófilo, gosta de ouvir com um encarte na mão,
50:22sabendo quem tocou aquela flauta, quem fez aquela percussão, quem produziu.
50:26Isso se perdeu.
50:27Não dá para ficar lá cantando.
50:29Então, assim, mas já estão tendo uns avanços nas plataformas de streaming.
50:33Já está tendo letra no Spotify, no iTunes.
50:37Ficha técnica quase completa em algumas delas.
50:40Ainda não tem quem toca, mas tem quem produz, você pode pôr.
50:43Então, vai tendo uns avanços aí.
50:46E a gente vai levando, cara.
50:48Fazer o quê?
50:49A gente faz música, né?
50:52Eu acho que é produzir o máximo possível.
50:54Hoje em dia, é produzir o máximo.
50:56Deixar aí para as pessoas.
50:57Você vai embora e a obra fica.
51:00Fica.
51:00No começo da nossa conversa, eu pedi desculpa por te perturbar tanto, de correr tanto atrás de você.
51:06E você me disse que está trabalhando feito um maluco mais do que normalmente faria.
51:12Mas como é que está em casa, compadre?
51:14Como é que está aí a...
51:16Porque eu costumo brincar, dizendo que...
51:20Eu já falei isso aqui umas duas ou três vezes, que eu estou me sentindo uma estrela cadente.
51:25Porque toda vez que a minha mulher me vê, ela me faz um pedido.
51:31Genial.
51:32Eu passo do lado dela, ela...
51:35Ó, tem que limpar.
51:36Ó, tem que varrer.
51:38Ó, tem que jogar.
51:39Eu estou me sentindo uma estrela cadente.
51:41Em casa você está assim, cara?
51:44Cara, tem muita coisa.
51:46Tem uma tragédia lá fora que a gente não pode esquecer.
51:49A gente ainda está em um lugar de muito privilégio, né?
51:54Muita gente foi impactada.
51:55Eu tenho dois amigos que perderam um.
51:57Perdeu o pai, a outra perdeu a mãe.
51:59Amigos próximos.
52:00Então, assim, a situação é ruim.
52:03Não é brincadeira, não.
52:05Não é brincadeira.
52:06Mas como tudo, e como a gente ia falando essa coisa da sobrevivência, né?
52:09Que parece também uma coisa inata em nós.
52:12A gente tenta tirar proveito de tudo.
52:16Tem algumas coisas que aconteceram nesse período que eu considero positivas.
52:20O fato de ver que dá para viver sem correr tanto.
52:25O próprio mergulho nos trabalhos domésticos aí que você está falando que a sua mulher te...
52:31Estrela cadente.
52:32Te coíbe.
52:35Te oprime, né?
52:37Fazendo...
52:37Não, é...
52:38O pior é que ela está certa.
52:40Mas eu sempre entendi.
52:41Entendi.
52:41É bom também.
52:42Eu também me pego fazendo coisas.
52:44Voltei a cozinhar, coisa que eu nunca mais fazia.
52:46Entendeu?
52:47Já chamou o Chico César para cozinhar.
52:50Chamou o Chico César para comer.
52:52Ó, Chico, já voltei a cozinhar.
52:54Levei para ele outro dia.
52:55Levei.
52:56Fiz um frango com Nora para o Nobis, que é uma receita de Minas, ali, né?
52:59E levei para ele.
53:00Ele mora aqui pertinho, Chico, cinco minutos daqui.
53:03E levei uma quentinha, assim, para ele e tal.
53:05Para matar saudade com o pai.
53:09Mas, então, assim, tem coisas boas.
53:12Eu tive a sorte de criar, fazer um estudiozinho pequeno, mais profissional aqui na minha casa.
53:17Um mês antes eu finalizei a obra.
53:19Então, assim, estou trabalhando, fazendo duas trilhas para filmes.
53:23Estou compondo para caramba.
53:24Voltei a compor com o Chico.
53:27Comecei a compor com o Vinícius Cantuário.
53:29Já fiz umas quatro músicas.
53:30Está incrível.
53:31Adoro o Vinícius.
53:31Compus uma com o Flavio Vini, que eu nunca tinha feito.
53:35Então, assim, coisas bacanas têm acontecido, entendeu?
53:37No meio dessa loucura, né?
53:39Desse quadro trágico, caótico que a gente está vivendo.
53:43É tentar tirar proveito e também tentar levar isso para o resto da vida, né?
53:48Quando a vida voltar a alguma normalidade, né?
53:50Se é a que volta.
53:52Olha só.
53:53Foi ótima a conversa.
53:54Nosso tempo morreu.
53:57Mas você, quando é chamado de mestre por molecada,
54:03você sabe que você chegou a um estágio que nós, nós todos,
54:08temos muito respeito.
54:10Porque o que eu acho que o artista quer é ele ser reconhecido pela capacidade,
54:16mas também que seja reconhecido como diferente da maioria dos outros artistas.
54:22Ou seja, a tal da personalidade artística é tão difícil de encontrar, cara.
54:27Você sabe do que eu estou falando.
54:28E você tem isso.
54:29Então, eu acho que o grande barato de Zé Cavaleiro é um artista de personalidade.
54:37Bateu, a gente sabe, reconhece.
54:38De arrepiar.
54:40Obrigado, meu.
54:41Prazer imenso conversar com você.
54:42Sempre uma prosa inteligente.
54:44Eu preciso mandar um beijo aqui que me pediu a Ellen Watanabe,
54:47que está aniversariando hoje, que é a Ed Vitória.
54:50Ela está sempre acompanhando aqui minhas lives,
54:52entra lá nas redes sociais e tal.
54:54Uma figura que gosta muito de música brasileira.
54:57Beijo, Hélio.
54:58Beijo, Hélio.
54:58Obrigado, Edu.
55:00Mas só avisando a nossa audiência que amanhã eu estou de volta para a entrevista número 164.
55:06Pelo amor de Deus, 164.
55:09E amanhã com o Joyce Moreno, outro nome importantíssimo.
55:12Vai melhorar bastante o nível, hein?
55:14Vai.
55:15Tá tudo pau, pau, pau, pau.
55:17Um beijo, Zeca.
55:18Beijo, irmão.
55:19Beijo pra jovem.
55:19Te cuida.
55:20Beijo, João.
55:20Tchau, tchau.

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