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  • há 3 semanas
Filhos têm atitudes desumanas muitas vezes ao cuidar dos pais

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Transcrição
00:00Uma briga entre dois irmãos sobre quem tomaria conta do pai.
00:06Um idoso de 76 anos terminou com uma cena que está gerando muita comoção nas redes sociais, minha gente.
00:14Segundo as investigações, sem um acordo entre esses dois irmãos, um deles colocou o pai dentro do carro
00:22e deixou o idoso sentado em uma cadeira de praia com todos os pertences na porta da casa do outro
00:29filho e foi embora.
00:32Esse caso aconteceu na região metropolitana de Porto Alegre e está sendo acompanhado pela Polícia Civil
00:38e pode se enquadrar como abandono de incapaz e maus tratos.
00:45A gente não pensa no futuro, né? Mas a gente precisa pensar.
00:50Um dia a gente vai sim precisar cuidar dos nossos pais.
00:55Eles cuidaram da gente, é a nossa obrigação cuidar dos nossos pais.
00:59É, e quando esse momento chega, os filhos, nem todos eles estão preparados.
01:04Aí começa a vir aquele monte de conflito.
01:06E o pior, os nossos pais, aqueles que dedicaram amor e carinho a você a vida inteira,
01:13acompanham tudo isso. Que tristeza, né?
01:14Imagina como é que é essa sensação para eles.
01:17Vamos bater um papo sobre esse assunto? Vem cá.
01:19Aqui no nosso estúdio, eu recebo Rosilene Amorim, que cuida da mãe dela.
01:25A dona Lourdes, não é isso? Ai, maravilhosa.
01:27Ela está aqui nos bastidores. Que amor de pessoa. Sua mãe é maravilhosa.
01:32A gente também recebe aqui Kelly Verlo, que é a geriatra.
01:36Obrigada, doutora, pela sua participação. A gente agradece.
01:39E Elza Leite, que também é psicóloga, vai participar desse bate-papo tão importante.
01:43Primeiramente, você como filha. Qual é a sua sensação quando você viu essa imagem que a gente mostrou agora?
01:50Indignação. É muito triste.
01:53Porque a questão é que o filho, aquele que fez aquilo ali, ele acha que ele nunca vai precisar.
02:00Não o pai, às vezes, não é o pai que vai cuidar dele.
02:04Nem o filho, se ele tiver filho.
02:06Mas um conhecido, um parente ou uma pessoa estranha.
02:11Pai e mãe é para o resto da vida.
02:14Tanto que eles sofreram para o filho estar naquela situação, para o filho estar bem, hoje, dependeu de quem?
02:22Do pai, da mãe.
02:25Então, a gente precisa e deve zelar e cuidar enquanto eles estão aqui na Terra.
02:32Elza, a gente fica se perguntando, né?
02:34A discussão entre esses irmãos, o pai já acompanhando isso, não é de hoje, imagino eu,
02:39que aquela cena ali é apenas um recorte de muitas outras coisas que já devem ter acontecido.
02:46Como é que fica o psicológico desse idoso?
02:50Boa tarde.
02:51Boa tarde, Roberta.
02:53Ele se sente provavelmente descartado, abandonado, rejeitado.
02:59Percebam, às vezes ele olha aquele filho cuidando dele e ele pensa,
03:03eu sou um peso, eu sou um problema, eu estou anulando, atrapalhando a vida do meu filho.
03:08Aí ele pensa no outro filho que não está participando, está negligenciando o processo de cuidado e pensa,
03:13meu outro filho não está nem aí para mim, eu devo ter sido um pai muito ruim.
03:18Então, vem culpa, vem medo, vem abandono, potencializa ainda mais os quadros de depressão.
03:26Então, sofre-se muito quando você chega na velhice, por quê?
03:31Você já tem o seu processo cognitivo, a sua capacidade física, a sua independência diminuída.
03:39Aí você imagina você não poder contar com os seus próprios entes queridos.
03:46É uma sensação de despertencimento muito grande.
03:51Aí às vezes pega, bota numa instituição, aí aquele idoso que já está todo vulnerável fisicamente, emocionalmente,
03:59vai ter que começar a vida num lugar com pessoas que ele nunca viu, que ele não conhece.
04:03Aí o pertencimento social, a identidade, o território, sabe?
04:10A dignidade dessa pessoa vai ficar totalmente violada.
04:14Doutora Kelly, ali nessa cena a gente vê literalmente um abandono de incapaz.
04:20Mas a gente sabe que esse abandono pode acontecer de diversas formas,
04:25não necessariamente tão explícito assim como a gente está vendo.
04:29E isso é mais comum do que a gente imagina?
04:32O que você ouve, o que você escuta no seu consultório?
04:35Eu vejo, né?
04:35O que eu vejo.
04:36O que você vê, infelizmente.
04:38Boa tarde, né, Roberta?
04:39Boa tarde.
04:40Infelizmente é comum.
04:43Eu acho que a nossa sociedade, ela não valoriza o velho.
04:49Ela não valoriza quem já contribuiu muito para a nossa sociedade.
04:55E isso acaba se tornando um peso, muitas vezes, para quem tem que cuidar.
05:02Porque ao invés de você retribuir o amor, a dedicação, o carinho,
05:07muitos filhos, né, pela sobrecarga também que podem acontecer durante esse processo,
05:14acaba se sentindo muito sobrecarregados.
05:17Então, eu não sei o que levou a esse filho, num momento talvez de desespero,
05:23a tomar uma atitude que, eu estava conversando com ela mais cedo,
05:28que a gente não apoia, não é uma atitude que tem que ser tomada, existem outras formas,
05:35mas talvez isso foi num momento de desespero, de uma sobrecarga emocional, física, financeira,
05:42absurda.
05:43E que a gente tem também que entender que os cuidadores adoecem.
05:49Quem cuida de quem cuida, né?
05:50É uma pergunta que a gente sempre traz nesse assunto.
05:53E às vezes o cuidador está sozinho, está isolado.
05:56E quando os dois adoecem, quem vai cuidar desse binômio?
06:01Cuidador e ser cuidado.
06:03Então, é uma situação muito triste da gente ver.
06:07Esse abandono é recorrente na nossa sociedade,
06:11mas eu acho que a gente precisa mudar o foco,
06:14como a gente observa o envelhecer, a velhice e o idoso.
06:19A gente entende que muitas vezes, a gente acha, né?
06:22Que o idoso não tem mais o que contribuir.
06:25Ledo o engano, toda a sabedoria adquirida ao longo do tempo,
06:30isso, o que a gente está fazendo com isso?
06:32Nada.
06:33A gente está desperdiçando.
06:35E a cultura ocidental, né?
06:37Ela faz muito isso.
06:38A cultura oriental, ela tem um outro olhar sobre quem está mais velho,
06:43é sempre o referencial de uma sociedade,
06:47é sempre alguém onde você vai pedir informação, conselhos.
06:52E a nossa sociedade descarta completamente essa pessoa mais velha.
06:57Sobre o assunto que você disse,
06:59quem cuida, de quem cuida, né?
07:01A importância disso, estar bem dividida, essa tarefa na família.
07:05Eu percebi que a Roselene concordou com você.
07:08Não que justifique, é claro, a atitude desse filho.
07:13Existem outras formas de resolver esse problema.
07:16Ele pode pedir ajuda, assistente social da Unidade Básica de Saúde,
07:19próxima da onde ele mora,
07:21para juntos acionarem outros familiares,
07:25para poder dividir a carga.
07:27Sempre existe uma outra opção,
07:30que o indivíduo não fique prejudicado.
07:33Porque esse idoso, coitado, ele não tem nada a ver com essa disputa entre os irmãos, né?
07:38Ele simplesmente precisa ser cuidado, acolhido, e não está sendo.
07:44Como é que essa tarefa é dividida na sua casa, Roselene?
07:47Lá em casa, estamos em duas filhas.
07:49Eu, a Rose, e tem a Tânia, que é a mais velha.
07:52Então, durante a semana, minha mãe fica comigo,
07:55e final de semana e à noite fica com a minha irmã, né?
07:59Que a gente tem.
08:00E ela é apaixonada pelos gerros,
08:03e graças a Deus, eles nos ajudam muito.
08:07O meu marido e o marido da minha irmã.
08:09Eles entendem e ajudam.
08:11Ela é apaixonada por eles.
08:12Então, é bem dividido, né?
08:14Sim, para viajar, para passear.
08:16Pode até acontecer daquela briga.
08:18Não, esse final de semana, a mamãe vai sair comigo.
08:20A gente sempre tem que combinar.
08:22A disputa é para ser com quem que vai ficar.
08:25Sim, com quem você vai.
08:26Aí a gente entra em contato, vamos se falando, né?
08:30Para poder a gente não ter aquela briguinha, né?
08:34Não, hoje, mamãe vai comigo, mamãe, sabe?
08:36Para poder se dividir.
08:37Mas eu entendi a disputa que a mãe dela sofre.
08:40A gente está querendo entrar na disputa da mãe.
08:42Porque a mãe dela é uma disputa muito saudável, com o sinal.
08:46É uma disputa que todo mundo quer.
08:47Ela é daquele jeito, alegre, tudo para ela estar bom.
08:50Ela quer acolher todos.
08:51Maravilhosa.
08:52Ela vem trazendo ainda mais alegria aqui para o nosso estúdio.
08:54Agora, olha só, presta atenção, porque o número de denúncias de abandono de idosos
09:00cresceu 855% em 2023.
09:06Minha gente, esses dados são alarmantes.
09:08São dados do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania.
09:13Entre janeiro e maio deste ano foram registrados quase 20 mil registros de abandono de idosos.
09:21No mesmo período do ano passado, foram pouco mais de 2 mil casos.
09:26É o maior aumento já registrado pelo Ministério.
09:30Já os casos de negligência, quando o responsável pelo idoso deixa de oferecer aqueles cuidados básicos,
09:38como higiene, saúde, chegaram a quase 38 mil entre janeiro e maio.
09:45Então, agora, a gente vai convidar, a gente vai conversar pela internet com a delegada Milena Girelli,
09:51da Delegacia Especializada de Proteção à Pessoa Idosa.
09:55Doutora Milena, muito obrigada pela sua participação.
09:58Uma boa tarde para você.
10:00Queria que você explicasse de que forma a polícia, que vocês atuam nesses casos.
10:06Qual é a primeira ação da polícia diante ou de uma agressão, de um abuso, de uma negligência ao idoso?
10:15Oi, Roberta.
10:15Boa tarde.
10:16Muito obrigada pelo convite.
10:18Olha, a gente precisa realmente que as pessoas denunciem.
10:22Porque a gente sempre tem que lembrar que quem comete os crimes são as pessoas que o idoso mais ama.
10:29Então, eles têm muita dificuldade de denunciar.
10:32Dificilmente, a vítima, quando chega numa delegacia, ela conta os fatos corretamente.
10:38Ela vai omitir algumas informações, preocupado que a gente prenda esse filho, esse neto.
10:44Então, a gente ressalta a necessidade de denunciar.
10:49E aí, doutora, a gente se pergunta...
10:51Vamos lá, vamos pensar aqui, por exemplo, num caso de uma criança,
10:55quando ela é negligenciada por parte do pai, da mãe.
10:59E aí, essa criança, ela é retirada desse ambiente, o conselho tutelar é acionado,
11:06ela vai ali para um abrigo e, quem sabe, essa criança vai ser adotada.
11:11E numa situação reversa, como é que fica?
11:16Para onde que esse idoso vai?
11:19Explica para a gente.
11:21Pois é, o último caso é a institucionalização desse idoso, né?
11:26Então, como a doutora mesmo falou, muitas vezes, a gente tem que verificar também,
11:32lógico, que se cometer um crime, a pessoa vai responder por esse crime, sem sombra de dúvidas.
11:37Mas, muitas vezes, é realmente um cuidador, né?
11:40Um filho, uma filha sobrecarregada.
11:43E a gente também tem que verificar essa situação, porque a gente quer o melhor para o idoso.
11:48Então, é estar dando as informações adequadas.
11:52Por exemplo, hoje a delegacia consta com assistente social.
11:55Então, a gente vai verificar a denúncia, vai verificar o que está acontecendo com aquela pessoa idosa
12:01e também tentar colocar a família em assistência também.
12:07Até mesmo para a gente conseguir proteger esse idoso e cuidar dele de forma que a família contribua também.
12:14Dos casos que vocês já atenderam, doutora, em que teve toda essa assistência social envolvida no processo,
12:21vocês conseguiram perceber uma mudança na família com a atenção que esse idoso merece?
12:28Nossa, Roberta, hoje nós somos um dos estados, um dos únicos estados que tem assistente social e psicóloga na polícia.
12:37Eles são policiais.
12:39Então, a gente verificou uma diferença imensa no atendimento às pessoas que nos procuram na delegacia.
12:45Porque, assim, muitas vezes é um grito.
12:48Vir na delegacia é muito difícil.
12:50É o último lugar que alguém quer vir, né?
12:53Sempre vem trazer os seus problemas.
12:55Então, quando a gente consegue encaminhar essa família para que ela também tenha um acompanhamento adequado,
13:05que entenda que aquela situação, ela precisa de determinados cuidados,
13:10faz toda a diferença, assim, no final, para aquela pessoa que nos procurou.
13:15Agora, teve uma fala sua que me chamou muita atenção, que era até repercutir aqui no estúdio.
13:19Continua com a gente, daqui a pouquinho a gente volta a falar com você, doutora.
13:22É a respeito do que ela disse, gente, que tem pai, tem mãe que prefere até mascarar, que chega lá
13:30na delegacia e começa a mudar a versão dos fatos,
13:33porque não quer que o filho ou a filha sofra alguma punição, venha responder isso juridicamente,
13:39porque nenhum pai, nenhuma mãe quer que o filho sofra isso.
13:42E aí, Elza, a gente se pergunta o quanto que esse idoso se cala, o quanto que isso pode fazer
13:47com que ele sofra dobrado.
13:49Primeiro, tem o medo da perda do vínculo, né?
13:52Depois, ele tem medo de se culpar e ser culpado por ter feito a denúncia.
13:58Envolve também o medo de, se eu denunciar a minha figura de cuidado, para onde eu vou?
14:03Então, às vezes, eu suporto toda a violência, toda a negligência, todo o abandono,
14:11todo o distanciamento emocional, para eu não ter que ir para um lugar ainda pior.
14:18Sabe?
14:18Então, é uma violação de direitos, com certeza, mas a pessoa se vê naquela situação e não tem muita opção,
14:24não tem muita alternativa.
14:26Eu estou velho...
14:28Gente, velhice é cara.
14:30Plano de saúde é mais caro, fralda é mais cara, cuidador é caro, casa de repouso é cara.
14:35Eu sei porque eu tenho uma idosa, é caríssimo.
14:37Então, assim, pensando em todas essas circunstâncias, a pessoa começa a se questionar,
14:41se eu for para lá, o que vai ser de mim?
14:44Então, é melhor eu ficar aqui, sofrendo algum tipo de abuso, do que eu denunciar.
14:48Então, envolve muitas questões.
14:50E convencer também o idoso, doutora Kelly, a ir para uma casa de repouso, também não é uma tarefa fácil,
14:56né?
14:56Às vezes, pode ser que seja a melhor alternativa para a família, né?
15:01Porque tem casas aí que oferecem um serviço muito bem feito.
15:06Tem casas e casas, tem que ter muita atenção com isso, viu gente?
15:08Não pode ter serviço clandestino não, nem pensar.
15:10Exatamente.
15:11Mas convencer o idoso também não é simples.
15:14Eu acho que é sempre a opção, tem que vir do idoso.
15:17Você apresenta a opção, apresenta as opções e eu acho que se ele estiver, claro, né, lúcido, totalmente orientado,
15:28ele vai ser a melhor pessoa para definir o que é melhor para ele.
15:32Eu conheço casos de idosos que solicitaram ficar na instituição.
15:36Por quê?
15:37Porque tinham idosos na mesma faixa etária, onde tinham pessoas com quem ele ia compartilhar essa experiência do envelhecer,
15:45com pessoas que estão passando pelo mesmo processo.
15:48Porque se eu falar para você, envelhecer é assim, sem ter sentido, fica muito vago.
15:55Agora, quando eu compartilho as minhas fragilidades com outro que vai entender,
15:59as minhas angústias com outro que vai entender,
16:03o meu medo da finitude com outro que também está indo para o mesmo caminho,
16:08fica muito mais fácil levar a velhice.
16:12Então, a instituição, instituições de longa permanência, quando muito bem montadas, né, com um serviço multidisciplinar,
16:24eu acho que elas podem fazer até trazer mais benefício, muitas vezes, do que um idoso em casa,
16:30isolado, sem estímulo, sem contato social, somente com um cuidador que muitas vezes fica o tempo inteiro no celular,
16:37faz uma coisa ou outra, mas é muito monótono e a gente precisa de estímulo.
16:43Então, em determinados locais, esse estímulo vai ser muito maior do que em casa, isolado.
16:50Então, cada caso é um caso.
16:52Só que para o idoso poder definir o que é melhor para si, ele precisa ser apresentado às opções.
16:57E eu acho que ele tem que ter o comando de definir o que é melhor para ele,
17:03estando, né, em condições de definir isso por ele mesmo.
17:07Olha só, a gente tem uma pergunta aqui para a delegada, deixa eu voltar a falar com a doutora Milena,
17:11então.
17:12É uma pergunta do Carlito Souza.
17:15Ela, ele quer saber, doutora, se tal obrigação só é válida realmente para idoso,
17:20porque meu irmão de 55 anos ficou doente com um tumor no cérebro e não responde mais por si só.
17:28Aí foi abandonado pelos filhos e pela esposa, jogando ele para os irmãos cuidarem.
17:35Nesse caso aí, 55 anos, doutora?
17:39Nesse caso, a gente não vai pegar o estatuto da pessoa idosa, né, que é acima de 60, de 60
17:44a mais.
17:45Só que se ele tem problema, assim, e for deficiente, ele tem que ter a cautela devida, tem que ter
17:53a proteção devida.
17:54É exatamente, praticamente a mesma coisa que a gente faz com o idoso,
17:59vai também com a pessoa que tem problemas, seja mentais, deficiência.
18:05Então, a família tem que cuidar.
18:05Aí, no caso, o que o Carlito Souza deve fazer, doutora?
18:08Quem que ele deve procurar?
18:11Ele tem que registrar uma ocorrência.
18:15Nesse caso, assim.
18:17Até mesmo para a gente verificar o que aconteceu realmente, se teve mesmo um abandono, o que aconteceu.
18:23Perfeito.
18:24A gente continua aqui no nosso estúdio, daqui a pouquinho a gente chama mais uma vez a doutora Milena.
18:28Agora, Rosa, explica para a gente a respeito dessas tarefas, que a gente sabe que vocês fazem,
18:33a gente sente, eu senti isso aqui na relação dela com a mãe, do jeito que ela fala também da
18:38irmã,
18:38vocês fazem isso com amor.
18:40Mas, a gente sabe também que se trata de uma dedicação, que a gente precisa abrir mão de outras coisas,
18:48uma dedicação que envolve, sim, trabalho.
18:50Afinal de contas, o que não dá trabalho hoje em dia?
18:52E o que, para você, é a parte mais árdua disso?
18:59Eu nem sei como te responder, porque o que eu vejo no nosso habitat, a gente procura sempre fazer o
19:08do melhor para ela.
19:10cuidar, e o que eu observo também, não trocando a sua fala, em questão que eles sentem muito,
19:16que eles se sentem velhos, jogados fora, que eles não prestam, né?
19:21Às vezes, ela fala, eu estou incomodando vocês, eu estou atrapalhando a vida de vocês.
19:26Não, nós nos dedicamos com amor, né?
19:30E o que eles observam muito também, é a questão, você vê, ó, final do ano, né, tem festa de
19:37Natal, aniversário deles,
19:39eu observo e vejo muitos filhos, não fazem questão de comemorar, e eles sentem.
19:47Como que a gente pode mudar essa mentalidade?
19:50Como você bem disse, né, tem vários idosos aí que se sentem descartáveis.
19:54Mas, às vezes, eles mesmos também têm esse pensamento, que é o que a Rose contou agora pra gente.
20:00O que a gente pode mostrar, não, que é isso, pai e mãe, vocês têm muita, vocês têm muito valor
20:07na família.
20:08A primeira coisa é garantindo algum nível de autonomia, algum nível de decisão nesse idoso.
20:14Então, por exemplo, vamos supor que ele consiga catar feijão.
20:17Deixa ele catar feijão, que ele vai se sentir importante e suficiente, de alguma forma.
20:23Ele vai sentir que ele tem utilidade, porque a perda dessa utilidade traz essa sensação de descarte.
20:30Eu não sirvo mais pra nada, eu sou um peso aqui, eu só atrapalho a vida das pessoas.
20:36Então, quanto mais a gente estimular ele a fazer alguma coisa,
20:39mamãe, você dobra o pano de prato pra mim?
20:41Ah, você corta aqui o tempero?
20:43Você pega uma água?
20:44Quanto mais autonomia a gente estimular, melhor vai ser.
20:48Muito melhor vai ser.
20:49E aí ele vai se sentir importante, vai se sentir pertencente, vai se sentir útil, validado, feliz, vai sentir que
20:55ele tá contribuindo pra alguma coisa ali dentro do lar.
20:58E são atividades que contribuem até mesmo pra saúde mental do idoso, né?
21:01Total.
21:02Uma das principais queixas que eu recebo dos pacientes, quando o filho tá do lado, a filha tá do lado,
21:08é o seguinte,
21:08Mas doutora, ele não me deixa, ela não me deixa fazer nada.
21:13A mãe relata isso do filho, o pai relata isso do filho.
21:16Eu não posso lavar uma loucinha, às vezes tem condição de lavar louça.
21:19Eu não posso lavar nem a roupinha, às vezes sempre fez isso a vida inteira, é um prazer.
21:25Tem pessoas que fazem terapia lavando louça, lavando roupa, passando roupa.
21:29Gente, se isso vai trazer bem-estar, felicidade, alegria, permita, sob supervisão.
21:38Cada caso é um caso, você vai saber qual é o caso que isso pode ser arriscado e o caso
21:43que não pode.
21:44Não tô generalizando, não.
21:47Cada caso é um caso.
21:48Mas se pequenas ações ele é capaz de fazer ainda, permita.
21:52Não bloqueie isso, deixe.
21:55Porque isso é muito importante.
21:57Acho que fica essa reflexão aí pra todo mundo, né?
21:59Como que você tá agindo com o seu pai e com a sua mãe?
22:02Importante que a gente dê essa autonomia proporcional a toda a idade, a capacidade física motora deles também.
22:09Deixa eu voltar a falar com a doutora Milena, porque pra gente finalizar esse assunto, né?
22:13Desse vídeo que comoveu todo o país, desse irmão que deixou o outro ali na calçada do outro irmão,
22:19que deixou o pai na calçada do outro irmão, doutora.
22:21Tendo em vista que nós temos, sim, essa obrigação de cuidar dos nossos pais,
22:28qual deveria ter sido a atitude correta ali nessa situação?
22:33Procurar a ajuda profissional, né?
22:35Num primeiro momento.
22:37Porque é igual a doutora falou anteriormente, a sobrecarga às vezes é muito pesada.
22:45Então, muitas vezes foi um ato de desespero, eu não sei necessariamente o que aconteceu.
22:50Mas um ato de desespero faz com que as pessoas cometam, sintam situações extremas.
22:56Então, assim, pra não chegar a isso, é importante a informação, é importante o trabalho de vocês como imprensa
23:04de mostrar a possibilidade das pessoas procurarem ajuda, né?
23:10Seja no CREAS, no CRAS, no posto de saúde, ter informação adequada mesmo pra cuidar daquela pessoa idosa.
23:17Então, assim, nesse caso, eu acredito também que em muitas situações fica um filho só, cuidando e os demais não.
23:30Então, a sobrecarga é muito grande.
23:33Então, por isso é importante realmente...
23:35Pra gente concluir, doutora, aí a pessoa pensa assim, mas eu não tenho condições financeiras de buscar uma ajuda,
23:44não tenho condições financeiras, por exemplo, até mesmo de colocar meu pai numa instituição de longa permanência,
23:50que seja por pouco tempo, pra que eu possa reorganizar a minha vida.
23:54É importante a gente frisar que existe, né?
23:57Há algumas cotas aqui no nosso estado voltadas pra isso, pra essas situações.
24:03Então, por isso mesmo que ele precisa procurar ajuda, porque não necessariamente você vai levar pra uma LPI particular.
24:11Pode ser uma pública também.
24:13Então, se você procura o conselho da pessoa idosa, um CREAS, até mesmo a delegacia,
24:19a gente vai até encaminhando pra instituição competente pra verificar essa possibilidade.
24:24Agora, você não pode o quê?
24:25É se omitir, negligenciar e maltratar o seu idoso.
24:30Porque aí você tá cometendo um crime.
24:33Obrigada, doutora Milena, pela sua participação.
24:35Eu que agradeço.
24:36Tá, Joia, uma boa tarde pra você.
24:38A gente também agradece aqui a participação no nosso Facebook.
24:41A Roseli falando muito triste essa imagem.
24:43Minha mãe está com 90 anos e há três está morando na minha casa.
24:47Também trouxe o irmão dela, meu tio de 88 anos, que cuidei por um ano e cinco meses.
24:52Ele era acamado, faleceu há um mês.
24:55Cuidei, cuido com muito amor.
24:57É por aí, né, Rose?
24:58Com certeza, é por aí mesmo.
25:00Tá certo.
25:00E a gente continua a vida.
25:02E o pessoal do Salvador?
25:02E aí, pode.
25:02E aí, pode.
25:02É por aí, pode.

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