- há 2 dias
Entrevista com médico Jorge Luiz Potratz
Categoria
🗞
NotíciasTranscrição
00:00Doutor Jorge Potratz, a gente sabe que o caso Clarinha foi uma repercussão enorme
00:05e infelizmente agora não foram encontrados os resultados do DNA até o momento
00:11e a gente vai seguir para o enterro da paciente.
00:14E a gente queria começar desde lá do início.
00:17Qual foi a primeira vez que você viu ela?
00:20Como foi esse primeiro contato com a Clarinha?
00:22Bem bem, em 2000 ela sofreu um acidente.
00:26No ano 2000, 12 de junho.
00:28E em 27 de junho de 2001, ela foi transferida para o hospital onde eu trabalhava.
00:34Eu era oficial da Polícia Militar, eu sou ainda, mas atualmente na reserva.
00:40Na época eu era da Ativo e trabalhando lá, recebia a Clarinha na enfermaria
00:46onde eu prestava minha assistência como médico da Polícia Militar.
00:50E desde sempre que ela chegou, a gente logo no primeiro dia observamos
00:55nós que tínhamos que dar um nome com ela, um apelido carinhoso para poder lidar com ela no dia a
01:01dia.
01:02E a chamamos de Clarinha, porque ela era muito branquinha.
01:05E um detalhe, uma jovialidade aparente, assim, no rostinho dela, na pele dela e tudo mais.
01:12E aí logo desse tempo, a gente foi tratando dela, primeiro fiz o exame,
01:19pra ver como é que estava a saúde dela em relação ao laboratório, o raio-x, e coisa e tal.
01:24E ela tudo, tudo normal, ela não tinha nenhuma doença especificamente grave.
01:28Ela tinha uma sequela de um trauma que ela sofreu um ano antes.
01:31E aí ela estava em coma, que a gente chama de coma vigila.
01:35Desde o início, sozinho, as meninas que trabalhavam lá comigo, os funcionários,
01:39os sargentos, as enfermeiras, as técnicas, me demandavam assim,
01:46a Clarinha não tem fralda, não tem shampoo, não tem desodorante, não tem hidratante, fralda e tudo mais.
01:54Aí eu falava, eu dava dinheiro, eu falava, vale na farmácia, compra isso aqui.
01:57Mas assim, era uma coisa, assim, distintiva, né?
02:00E aí foi passando o tempo, automaticamente, elas começaram a ver que eu era uma pessoa
02:05que poderia suprir essa lacuna, assim, né, de não ter, porque os funcionários tinham um nível,
02:12o poder aquisitivo um pouquinho mais baixo, então eu não conseguia fazer falta na vida deles.
02:17E aí eu passei também a fazer pequenas compras, quando eu fazia minhas compras pessoais no mercado,
02:22já levava pra ela também.
02:24Outras pessoas ajudavam também, pacientes que iam de alta, que estavam na enfermaria,
02:30largavam as sobras ou então produtos fechados pra ela usar.
02:34Então sempre tivemos muita assistência de muita gente.
02:37Sim.
02:38E assim a vida foi caminhando, né, e aí eu fui evoluindo na minha carreira,
02:44fui promovido a capitão, depois a major, depois a preenite coronel.
02:48Por isso é que a minha história com ela há tantos anos, porque foram muitos anos dedicados
02:55à minha profissão como médico dentro do Hospital Doutor Cimitá.
02:59Sim.
02:59E todos os dias eu me deparava com ela lá, porque ela estava lá como uma paciente, né.
03:06E que a gente viu a fragilidade dela, as necessidades básicas dela,
03:12tudo que demandava pra poder ter um bem-estar dentro daquilo que era possível ofertar e fazer,
03:18porque também a gente não tinha ideia de como que as coisas fossem caminhar pro futuro.
03:21E aí a gente foi dando essa nossa contribuição e ajuda pra ela,
03:27e criando esse laço de uma certa afetividade, de carinho, de atenção, de proteção para com elas.
03:34Vocês tinham essa expectativa de que fossem passar 27 anos,
03:40e ela continuaria lá no hospital ou não faziam a mínima ideia?
03:43Não. Eu não tinha essa ideia.
03:46Não tinha nenhuma.
03:46Na realidade, assim, quando você recebe um paciente, você tende a fazer um diagnóstico,
03:52planejar um tratamento, efetivar o tratamento em alguns dias, semanas, talvez meses,
03:58você devolver aquele paciente pra sociedade, pra família, enfim, né.
04:02E com a Clarinha isso não ia rolar, porque ela não tinha família, não tinha nome,
04:07não tinha pra onde ser encaminhada depois.
04:10Sim.
04:10Então, assim, e eu também não tinha ideia de se a gente iria ou não conseguir
04:14algum jeito de identificar alguma família ou não.
04:16Era uma busca incessante.
04:18A gente, todo o tempo, ficava buscando oportunidade de a gente fazer alguma coisa
04:23pra poder tentar identificar.
04:24Exome, DNA.
04:25É, famílias, né, você sabe, divulgando e coisa e tal.
04:28Só que isso é muito difícil, porque são coisas que não dependem só da gente.
04:33A gente tem que trabalhar, e a parte, assim, de imprensa e de tudo,
04:38a gente não tem esse conhecimento e essa penetração pra poder fazer esse tipo de abordagem.
04:44Eu tentei algumas vezes.
04:45Sim.
04:46Eu cheguei até a escrever pra Ratinho, Faustão.
04:52Desses programas maiores.
04:54Desses programas pra Catinha, né.
04:55Sim.
04:55Então, esperasse que alguém lesse e a gente tocasse aquela pessoa.
04:58Nunca aconteceu.
04:59Claro.
04:59E em 2016, logo em seguida daquela tragédia de Mariana,
05:07Sim.
05:07Quando eu vi aquelas empresas lá, de empresas,
05:12eu fui...
05:12Tinha algum...
05:14O presidente coronel da polícia, que eu fui trabalhar lá no HPM,
05:17que ele era lá do quadro de oficiais do quartel,
05:20ele foi designado a trabalhar no HPM.
05:22Sim.
05:23E aí ele me procurou na enfermaria, né.
05:25Ele queria conhecer o setor, saber como é que funcionava.
05:27Eu apresentei tudo pra ele e mostrei a clarinha.
05:30Aí ele falou, clarinha, enfim.
05:31Aí eu fui contar a história pra ele.
05:32E aí ele ficou muito sensibilizado, eu vi que ele ficou tocado
05:36e saiu silenciosamente e foi embora.
05:40Passei a conversar com ele administrativamente, né,
05:42nas questões do hospital.
05:44E aí uma semana depois ele me liga falando assim
05:47se eu tinha interesse em divulgar o caso dela.
05:50Lá em Minas?
05:51Não, não.
05:51Não.
05:52É...
05:53Lá no HPM.
05:54Ah, no HPM, rocha.
05:55Isso.
05:55Aí eu falei assim, olha, era tudo que tinha.
05:58Eu falei que eu tenho um amigo meu da igreja
06:00que conhece alguém.
06:02fantástico, né, na ocasião.
06:05Falei, olha, você tá disposto a conversar com a história?
06:08Falei, sim, perfeitamente.
06:10Aí eu sei que daí uma meia hora me ligou
06:12uma gerente geral, né, em São Paulo.
06:15E aí se mexicou, falou comigo.
06:17Eu tive que falar pra ela rapidamente a história.
06:20Ela falou, olha, nós temos como te ajudar.
06:23É...
06:24A rede local vai aí te procurar, vai...
06:26Aí depois...
06:27Aí falou, ó, alguém vai te procurar.
06:29Aí logo depois você pode passar.
06:31pra me procurar.
06:32E aí, depois o Mário Bonela,
06:34que veio de Colatino,
06:37que ele tava lá designado sobre o Eduardo Mariano.
06:40E aí depois gravou aquela matéria e saiu tudo, né?
06:42De forma mais explícita.
06:45E que atingiu uma repercussão muito grande.
06:48E de lá pra cá,
06:50sempre tem alguma coisa acontecendo.
06:52Algum fato surge, alguém lembra,
06:54ele liga pra mim e pergunta.
06:55Aí tem uma família que aparece aí,
06:57volta à imprensa,
06:58a gente cria uma expectativa.
07:00E aí divulga novamente.
07:01Cada entrevista, cada coisa que eu falo sobre o caso dela,
07:06sempre dá uma repercussão muito grande.
07:08E ainda não vai me surpreender
07:09se a partir de hoje ainda não vão surgir mais famílias
07:12por conta do que vai...
07:14O que vai ser divulgado agora na imprensa,
07:16nas redes sociais e tudo mais.
07:18Então é possível que apareçam mais famílias ainda agora.
07:22Mas a situação atual é que foram finalizados todos os exames
07:29e não há mais ninguém pendente momentaneamente.
07:33E por isso eles querem liberar o corpo.
07:35E pra isso eles demandaram que a gente fizesse
07:40o registro dela de nascimento,
07:42que a justiça tinha determinado.
07:44Aí eu encaminhei a documentação,
07:45tô aguardando a justiça me autorizar isso
07:48pra eu poder proceder do cartório a isso aí.
07:51E com isso fazer depois o sepultamento dela.
07:54Já também entrei em contato com a empresa
07:56que vai fazer esse velório, o sepultamento.
07:59Eles continuaram de pé com a oferta que eles me fizeram.
08:02Caso não fosse, eu ia fazer eu mesmo.
08:05Mas eles se propuseram a fazer,
08:07ajudar e eu vou aceitar
08:10porque eu acho que não estamos em condição
08:11de negar ajuda de ninguém, né?
08:13Todo mundo ajudando é mais importante.
08:16Então a situação real é essa no momento.
08:19E falando no sepultamento,
08:21porque algumas pessoas com esse caso
08:22acabam ficando curiosas.
08:24Como será o sepultamento dela?
08:26Se terá uma cerimônia, um velório?
08:29O que terá na lápide?
08:30Alguma coisa escrita?
08:31O nome?
08:32Clarinha?
08:33O que o senhor pode narrar pra gente?
08:35Veja bem.
08:38Não tem uma data ainda definida
08:40porque eu dependo dessa burocracia
08:41pra poder proceder com o registro
08:43e depois ir ao cartório,
08:44depois ir ao DNL e fazer a certidão de óbito
08:47que é o documento que permite o sepultamento dela.
08:51Obviamente que o nome dela vai ser Clarinha apenas.
08:54Não vai ter data de nascimento,
08:56não vai ter nome de pai, nome de mãe
08:57e vai constar eu como responsável
09:00pela parte burocrática da situação dela atual.
09:05Isso já me conforta muito
09:06porque pelo menos ela não vai lá como não identificada
09:09e que vai ser jogada em um campo qualquer de um cemitério,
09:13vai morrer esquecida e ali, né?
09:17E pela população, pela situação.
09:19Eu acho que ela teve toda a dignidade do mundo
09:22no seu atendimento nesses 20 e poucos anos
09:24que a gente proporcionou pra ela.
09:26Eu acho que se a gente abandonasse essa situação agora,
09:30eu acho que seria muita crueldade da parte da gente.
09:33Eu acho que ela merece uma dignidade,
09:36um respeito.
09:38Pra mim, a vida dela ainda está em aberto.
09:42A vida não porque ela demorou,
09:43mas a história dela está em aberto.
09:45A solução do...
09:46Eu ainda acho que um dia eu ainda vou entender
09:48e vou receber uma positividade de alguma forma.
09:51Acredito eu.
09:52Acredito.
09:55Apesar de tudo,
09:57ela é uma mulher jovem.
10:01Teria alguma, desculpa,
10:02interromper, alguma possibilidade de idade dela?
10:06Eu acredito que ela deve ter entre 45 e 49 anos.
10:10Hoje.
10:10Pra mim, ela deve ter chegado uns 20, 19 anos.
10:14Queria acrescentar uma pergunta.
10:15Quem que o senhor acha que é a Clarinha?
10:18Eu até questionei isso.
10:20Eu botei pra ela lá se ela era...
10:22De fora, de argentina.
10:26Não, eu acho que ela é uma pessoa que é brasileira mesmo.
10:30Brasileira.
10:30Eu acho que ela é brasileira mesmo.
10:32E que ainda a história não chegou aonde isso ia chegar.
10:36Eu acredito nisso.
10:37Eu não consigo entender que seja voluntário
10:42esse descaso de saber que ela existe,
10:45que é em família,
10:46e que as pessoas não procuram.
10:48Porque ninguém tá cobrando nada dessas pessoas.
10:50Eu nunca cobrei nada dessas pessoas ou não.
10:52Porque eu só quero
10:54entender a história dela,
10:55saber o que é
10:56e devolver pra uma mãe.
10:57Eu duvido que uma mãe não tenha um centímetro
10:59e receber a sua filha mesmo.
11:02De volta, saber que ela foi cuidada.
11:04E que a gente pudesse contar pra essa família
11:06que a gente cuidou muito bem,
11:08o cuidado dela nesse período todo,
11:09apesar de toda a diversidade dela.
11:11Então, assim,
11:13o domingo vai ser o dia das mães.
11:15Ela tem uma cicatriz de cesárea,
11:17ou seja, ela deve ter sido uma mãe.
11:19Não sei se tem filho vivo ou se morreu.
11:22Então, ela pode ser que tenha sido uma mãe
11:25enquanto ela teve lúcida,
11:27enquanto ela teve atropelamento.
11:29Isso comove muito.
11:30Isso sempre foi uma coisa que me intrigou e marcou.
11:35Esse sentimento é que mais me define, assim,
11:40como minha busca pra eu ajudar essa moça.
11:42Que pode ter tanto um pai querendo ela,
11:46quanto um filho em busca da mãe,
11:48que é a clarinha.
11:49Então, ela é uma mãe,
11:51ela é uma mulher,
11:51ela é uma cidadã.
11:53Apesar de não ter a cidadania dela definida agora,
11:56porque se perdeu no ar isso,
11:58mas ela é uma cidadã.
11:59Ela é um ser humano.
12:00Como tal, ela merece todo o respeito meu e incondicional.
12:06E eu me dediquei, assim, a cuidar dela.
12:09Ela não com intenções,
12:11não com objetivo, não.
12:13Meu objetivo era exclusivamente
12:15tentar identificar a família dela.
12:17Sim.
12:18E, diante disso,
12:20a gente também queria saber
12:22o senhor guardou algum item pessoal dela?
12:25Quando ela chegou,
12:26ela tinha algum...
12:27A gente sabe que ela não possuía documento,
12:29mas possuía algum objeto característico,
12:34alguma...
12:35Assim, ela não tinha nada.
12:37Nada.
12:37Não tinha bolsa, documento, nada.
12:39Nada mesmo.
12:39E mesmo porque quando eu a recebi,
12:41ela já tinha um ano do trauma.
12:44Então, no São Lucas,
12:45pelo que me consta,
12:46ela veio com a roupa do corpo,
12:47e aí foi atendida,
12:48jogada fora, coisa e tal.
12:51A gente, durante os anos,
12:53foi montando uma estruturazinha minha
12:55para ela no hospital.
12:56Ela tinha um cantinho,
12:57tinha um armáriozinho dela,
12:58tinha um cortinado,
12:59a gente trocava isso de vez em quando.
13:01Eu dava dinheiro para as meninas
13:02comprar roupinhas,
13:04camisola,
13:05meinha,
13:06toquinha,
13:07essas coisas para ela usar
13:08no dia a dia,
13:09por causa do frio,
13:10busquido.
13:11Ela tinha muito busquido
13:11para a HPM,
13:12então ela sempre tinha um cortinado,
13:14coisa que não é comum
13:15dentro do hospital,
13:15mas para ela,
13:16a gente viu que era a casa dela.
13:17Sim.
13:19Então, a gente sempre teve isso aí.
13:21Eu sei que a Deuzemira,
13:22que é uma sargenta,
13:23que trabalhou lá comigo
13:24há muitos anos,
13:25que hoje ela chora
13:26como se fosse filha dela
13:27ou irmã dela,
13:28a morte da Clarinha,
13:29ela realmente é uma das pessoas
13:31que mais se dedicou
13:32a cuidar braçalmente dela,
13:35a cuidar da mãe dela,
13:37cuidar da higiene pessoal dela.
13:39Então, a Deuzemira,
13:40ela deve ter guardado
13:42as coisinhas dela.
13:42Sim.
13:43Inclusive, hoje eu liguei para ela
13:44quando me deram a notícia
13:46de que foi ser liberada
13:47para ser o Puta Neto,
13:48falei, Deuzemira,
13:49eu vou te pedir uma coisa,
13:50você compra um vestido
13:53para a Clarinha,
13:53que eu não sei comprar ele,
13:55você compra um vestido branco,
13:58aí fica a seu critério,
13:59você sempre comprou
14:00essas coisas que eu te pedia
14:01para ela,
14:02se você já sabe
14:02o tamanho dela,
14:03coisa e tal,
14:04e compra um terço,
14:08para que a gente possa
14:09colocar na mãozinha dela,
14:10no pulso dela ali,
14:12para que a gente possa
14:14dar essa dignidade para ela,
14:17que ela merece o nosso respeito
14:18porque a gente cuidou dela
14:19há tanto tempo
14:20e agora nós vamos fazer
14:21tudo o que precisa
14:22para tornar isso
14:23mais humano possível.
14:26aí também falei com a outra
14:28Sargento Neide,
14:29ela que era bem ligada
14:30da Igreja Católica,
14:31ela falou que vai conseguir
14:32um padre para ir lá
14:33fazer uma oração
14:34um dia no velório,
14:35e sim,
14:36vai ter um velório,
14:38deve ser ali no Green House,
14:40atrás da Secretaria de Educação
14:43ali,
14:44onde o grupo primície
14:45que administra isso,
14:46eles me ofertaram isso
14:47na época,
14:48e o sepultamento dela
14:49vai ser feito
14:50no cemitério de Maruí.
14:51Então,
14:52eu só não sei
14:53o tempo de velório
14:54que vai ter,
14:55que também não vai ser
14:55uma coisa muito prolongada
14:56por causa do tempo
14:57que ela já tem de morta,
15:00e a data certa
15:00porque eu preciso
15:01estabelecer junto
15:02com a documentação
15:05esse cronograma,
15:06mas lá que eu ia ser
15:07lá para segunda,
15:08terça ou quarta,
15:09feira.
15:09Perfeito,
15:10e como fica de uma forma
15:11resumida o sentimento
15:13depois de toda essa história
15:14com a Clarinha,
15:15agora esse desfecho,
15:16não desfecho concreto
15:17com o tempo.
15:18Seu nome também é Clara.
15:19É,
15:19mas o meu apelido
15:20é Clarinha.
15:21Veja bem,
15:23hoje de manhã
15:23eu senti assim
15:25uma sensação
15:26de angústia
15:28positiva
15:29por estar
15:30permitindo
15:31que a gente sepulte ela
15:32e dando
15:33um finalzinho
15:35agora,
15:36nem que seja
15:36temporário
15:37ou definitivo,
15:38mas com uma dignidade
15:40grande
15:40e respeito
15:41à pessoa dela.
15:42Então,
15:43eu senti esse alívio
15:44uma felicidade
15:45por estar sendo liberado
15:47e mesmo não tendo
15:47nenhuma família
15:48identificar.
15:49Por outro lado,
15:50um pouquinho de frustração
15:52por não ter conseguido
15:53chegar no objetivo
15:54que era a identificação
15:55dela.
15:56Não que isso fosse
15:58a coisa mais importante
15:59do mundo,
16:00que isso fosse mudar
16:02o relacionamento
16:02que a gente teve com ela
16:03ou a dedicação
16:04ou o cuidado
16:05que a gente teve com ela
16:06simplesmente porque
16:07apareceu alguém.
16:08Também não ia cobrar
16:09de ninguém
16:10que levasse ela.
16:11O que eu ia perguntar é
16:12ela é sua filha,
16:14ela é sua irmã,
16:14ela é sua mãe.
16:15O que você quer fazer
16:16com ela?
16:17Você quer sepultá-la
16:18onde vocês moram,
16:19no estado,
16:20fora do estado
16:21ou outro país?
16:23Ou vocês querem
16:24que ela sepulte aqui
16:25em função da história
16:26que ela viveu conosco
16:27nos últimos tempos,
16:28mas com o nome dela
16:29verdadeiro,
16:30coisa e tal?
16:31Eu ia perguntar isso
16:32para a família.
16:33Mas eu falei,
16:33eu só queria olhar
16:35nos olhos
16:35de uma mãe dela
16:36ou do pai dela
16:38e poder
16:42dizer para eles.
16:47que nós cuidamos dela
16:50da melhor maneira
16:52que a gente pode.
16:53Toda a dignidade
16:54e respeito
16:55que ela merecia.
16:56Isso.
16:57É fundamental para mim.
16:59Mas vocês nunca vão desistir?
17:01Não,
17:01eu não vou desistir.
17:02Eu vou continuar
17:03com a esperança
17:04de que um dia
17:04ela possa ser identificada.
17:06Com certeza.
17:08e se eu um dia
17:10me for
17:11antes de morrer
17:13pelo destino
17:14de todos nós,
17:15se isso não tiver acontecido,
17:16eu espero que espiritualmente
17:18eu tenha as respostas
17:20que eu sempre busquei.
17:21e se eu tivesse
17:21uma desistir.
17:22E aí
17:22um dia
17:23que eu tenho