- há 2 semanas
Inúmeras famílias não sabem por onde recomeçar após casos de violência
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NotíciasTranscrição
00:00A dona Marlete, ela perdeu duas mulheres para essa violência, a filha e a neta.
00:07Como é que está a vida da senhora desde o dia 25 de novembro de 2021, dona Marlete?
00:15A gente não vive mais.
00:18A gente passa o tempo por cima da terra.
00:22E é um luto duplo, né?
00:24É um luto duplo, um sentimento muito forte.
00:27É uma dor imensa.
00:30O que a gente carrega não tem sido fácil.
00:34Para quem não se recorda, gente, o ex-companheiro da neta dela, não satisfeito com o fim do relacionamento,
00:43ele não aguentava, não ficou suportando o fim do relacionamento.
00:46O que ele fez?
00:47Colocou um prazo para que ela voltasse.
00:50Para que ela voltasse no outro dia seguinte, até as 11 horas.
00:55E ela falou que não ia voltar.
00:59Aí ele falou, então eu vou matar você e a sua mãe.
01:03Ela falou assim, se você me matar, minha mãe vai ficar com a minha filha.
01:07Ele falou, não vai, porque eu vou matar ela.
01:09Só que ela pegou, a irmã dela estava lá também.
01:14A irmã dela pegou o carro, o mesmo carro que ele veio, que veio pegar a filha dele, que estava
01:18na babá.
01:19Levou a outra irmã dela para casa e falou, eu vou matar a sua mãe e a tua irmã.
01:26Aí ela falou assim, por favor, Denilto, não mata minha mãe e minha irmã, elas são minha família.
01:33Ele não disse nada.
01:34Ele disse em alta violência, com duas crianças dentro do carro e com a minha outra neta.
01:39Irmã da Karina Gêmea.
01:41E chegou lá no outro dia, ele mandou uma foto de arrancando o pescoço.
01:48Aquelas coisas horrorosas com o celular da Karina.
01:52A Karina mostrou para a mãe dela.
01:56A mãe dela não disse nada, não.
01:57A Karina, gente, é a neta.
02:00A ex-companheira dele.
02:02Aí ele falou assim, não é nada, não.
02:03Ela nunca acreditou que ele ia fazer isso.
02:06Nunca, nem nós acreditavam que ele ia fazer isso.
02:09Aí pegou, foi para o serviço trabalhar a Karina.
02:12E minha filha ficou na casa da outra filha minha, que estava grávida, o bebê que nasceu.
02:18E que é uma criança pequena desde casa.
02:21Minha filha estava até dobrando roupa.
02:24De novo a roupa, estava dobrando a roupa em cima da cama.
02:27Aí ele emburacou de casa dele.
02:29Isso afasta de mais 11 horas do dia.
02:33Aí a Elisângela, minha filha, falou assim,
02:35Ai, Denilto, que susto.
02:37Ele está assustando a toa, tia?
02:41Aí a Elisângela jogou bem para a cara dele.
02:43Falei, estou aí.
02:43E a Elisângela, até naquela hora, não tinha visto nada demais.
02:46Aí ele virou para o lado dela, falou assim, você está aí, né?
02:50Ela falou, estou aqui, estou esperando a Karina chegar.
02:52Para nós ir fazer a medida protetiva, a lei Maria da Penha.
02:56Então, no momento que ela anunciou para ele que iria até a delegacia fazer a solicitação da medida protetiva,
03:05foi aí que, não satisfeito, ele tirou a vida da ex-sogra.
03:10E na mesma sequência, ele foi até o trabalho da ex-companheira.
03:15Ele já estava com a arma, já veio decretado a matar.
03:19E aí tirou a vida também, né?
03:20Matou ela, só dela olhar para ele assim, ele já sacou a arma e ela foi caindo na frente da
03:25irmã.
03:25Sem direito a nenhuma.
03:26Virou a arma, sem direito a nenhuma.
03:27Virou a arma para a outra minha filha, a Elisângela.
03:30Aí minha filha pegou, se garrou comigo, ainda não gritar, até hoje o menino é assustado, para dormir é difícil.
03:36Ainda não gritar, aí ele saiu.
03:39Falou assim, vou acabar de fazer o serviço.
03:41Aí minha filha veio logo na cabeça, sem voz, sem nada, é a Karina.
03:45Correu até minha casa, foi para falar.
03:47Quando chegou lá, que eu mandei um vizinho meu até o serviço, quando chegou lá, ele já tinha acabado de
03:50fazer a Karina.
03:53Elisângela, o que essas histórias têm em comum?
03:56É uma reflexão de quem são as pessoas que a gente assume um relacionamento, que a gente coloca dentro da
04:03nossa casa.
04:04E a gente não sabe o que isso pode estar comprometendo toda a família, né?
04:08Que foi o que aconteceu no caso aqui da dona Marlete e também esse caso de Guarapari.
04:14Relacionamentos abusivos, Roberta, deixam marcas na sociedade inteira.
04:18Muitas pessoas choram por conta de um relacionamento abusivo.
04:22É importante a gente falar que a gente pode evitar tragédias como essas que a gente acabou de relatar
04:29se a gente parar de ignorar os primeiros sinais de violência física, psicológica.
04:35A gente entra no modo de negação, não acreditando que aquela pessoa é capaz de fazer algo contra nós,
04:42enquanto, na verdade, essa pessoa é capaz de qualquer coisa quando ela é contrariada.
04:45A gente está lidando com figuras que mandam, desmandam, comandam e não suportam ouvir não.
04:53Então, eles são o centro das atenções, tudo tem que ser do meu jeito.
04:57E se você fizer diferente, eu sou capaz de fazer qualquer coisa contra você.
05:02Ele entra no modo de vingança e ele mata, ele disfere, ele provoca, sem dó e nem piedade.
05:08E aí a gente que fica marcado depois.
05:10Muito importante essa fala da Elza, tá? Presta atenção.
05:14Eles não aceitam ser contrariados.
05:16A senhora, dona Marlete, era a favor desse relacionamento?
05:20No começo eu não tinha nada a falar, mas no final eu vi que as coisas estavam demais.
05:25Eu mesmo cheguei para ela, ela chegava para mim, ligava para mim,
05:28vou, não sei o que, não sei o que lá.
05:30Eu falei, minha filha, se você acha que não dá, se para.
05:33Eu estou aqui, te aguardo.
05:37Aí a mãe dela falava a mesma coisa, entendeu?
05:39Nós muitas vezes falamos com ela, não dá, não dá, é pior continuar esse relacionamento.
05:43Foi o que ela fez.
05:45Tem hora que eu penso, será que eu tenho culpa?
05:46Eu não tenho culpa, que eu pedi para separar, entendeu?
05:48A senhora fez o alerta de vó, né? De mãe.
05:51Eu criei elas.
05:53E a gente vê nessa história também de Guarapari, que essa avó também alertou.
06:01Ela não era a favor, a gente ouviu da boca agora do filho, da dona Ivanete.
06:06O Luciano contou para a gente que essa avó não era a favor do relacionamento.
06:11E aí, Elza, esses homens, quando são contrariados, a gente sabe que geralmente a primeira a levar essa informação,
06:19infelizmente, é quem?
06:20É o amor, né? O amor fala mais alto nessas horas.
06:23Ah, mamãe não é a favor, vovó não é a favor que eu fico com você.
06:27E parece que nesse momento o amor se fortalece.
06:30É a sensação que a gente tem.
06:32A gente fica, digamos assim, envolvido, apaixonado.
06:37E a idade também é um fator importante.
06:4017 anos esse caso de Guarapari, 20 anos o caso da sua neta.
06:45No início de toda a relação, existe a fase do encantamento.
06:48Então, a gente não consegue conhecer a pessoa e nem ver defeito nela.
06:52E a gente de fora, família, mãe, pais, eles começam a perceber, né?
06:58Porque estão fora daquela ilha emocional e começam a criar alertas.
07:02Infelizmente, quando a gente está apaixonado, encantado, a gente começa a interpretar o alerta como uma intromissão.
07:10E aí a gente cria uma barreira, um bloqueio.
07:12E, na verdade, às vezes a gente nem sabe expressar muito o alerta.
07:16A gente tem que tentar compreender a motivação por trás do alerta que a família traz.
07:21Porque a grande motivação é proteger, é cuidar, é zelar pela vida.
07:26É não deixar com que essa relação se transforme numa relação completamente doentia.
07:32Só que a paixão, o que ela faz com a gente?
07:34Ela nos cega.
07:35A gente não tem capacidade de fazer nenhum tipo de filtro, sabe?
07:40De qualidades da pessoa quando a gente está apaixonada.
07:43Por quê?
07:43Porque a gente está tão focado em viver aquela aventura amorosa que a gente desconsidera todas as outras coisas.
07:51E tem um grande perigo aqui, Roberta, que é o fator precipitação.
07:55As grandes decisões da nossa vida, elas precisam de tempo para ser tomadas.
08:01Quando a gente vai viver com alguém, casar com alguém, a gente precisa de tempo para conhecer essa pessoa.
08:06A intensidade, muitas vezes, é confundida com a intimidade.
08:09E para você ter intimidade, você precisa de tempo.
08:11O namoro é o propósito de conhecimento.
08:14Conhecer o caráter, a cultura, a personalidade, o temperamento, os valores, os projetos.
08:20Conhecer a história da vida daquela pessoa, a origem familiar daquela pessoa, o que aquela pessoa espera da vida.
08:26E aí, nesse período que o tempo vai passando, a gente vai conhecendo, vão vindo as adversidades,
08:31a gente vai percebendo como a pessoa lida com as contrariedades, como é que ela lida com frustração.
08:36E quando a gente se precipita, a gente não dá chance para testar nada.
08:41A gente só quer viver.
08:42E aí, as histórias que começam de forma intensa, abrupta, infelizmente, na maioria das vezes, elas terminam de forma trágica.
08:50Os sinais estão evidentes cada dia na mídia.
08:53Então, a gente precisa ter muito cuidado com quem se relaciona e com as decisões que a gente toma, principalmente,
08:59de viver junto com as pessoas.
09:01E exatamente sobre esse ponto, presta atenção, que está foragido o homem que matou a ex-sogra na porta da
09:08casa dela em São Paulo.
09:09O suspeito não aceitava o fim da relação com a filha da vítima.
09:15A fuga foi gravada por câmeras de segurança.
09:19O roupa preta, que desce as escadas, está indo para a casa da família da ex-mulher.
09:26O circuito não mostra, mas ele bate na porta.
09:29Quem atende é a ex-sogra.
09:31De repente, um tiro.
09:34O criminoso foge do local.
09:36A vítima é Elaine Ataíde Martins, de 52 anos, mãe da ex-mulher do criminoso.
09:42Praticamente, ela foi assassinada no portão de casa.
09:46Momentos antes do crime, a escola, onde o filho do suspeito estuda, ligou para a mãe da criança, contando que
09:52o homem queria tirar o garoto de lá.
09:55Ela negou.
09:56Irritado, ele prometeu vingança.
09:59Ele mandou um áudio para a gente, dizendo que a gente chamou a polícia para ele, sendo que a GCM
10:05já estava lá na porta da escolinha.
10:08E aí ele mandou mais um áudio ameaçando, dizendo, não, agora vocês vão ver, agora vocês vão ver o que
10:13eu vou fazer.
10:13O casal morou junto por seis anos, até que a filha da enfermeira resolveu colocar um ponto final no relacionamento.
10:21Mas o ex-companheiro não aceitava o término, fazia ameaças e queria levar o filho do casal de quatro anos
10:29embora.
10:30A mulher tinha uma medida protetiva contra o homem, mas ele não a respeitou.
10:35Rafael de Souza Zagato está foragido.
10:38Ele já tem outras passagens por roubo e homicídio.
10:42Com medo, a família vai deixar a casa até que ele seja encontrado.
10:46O carro que ele usou para chegar ao local do crime foi abandonado na região.
10:52Que tristeza, meu Deus, a gente vê que a família inteira sofre.
10:58Dona Marlete, inclusive falando na família inteira, a sua neta deixou uma filhinha, né?
11:04Deixou.
11:05Hoje, qual a idade dela?
11:06Hoje, ela está com três anos.
11:08Como é que é o comportamento dessa filhinha dela?
11:13A menina é o seguinte, ela foi muito bebê, quando a mãe dela deixou ela, ia fazer um ano, um
11:20ano e pouco.
11:21Agora, ela vai fazer três anos, nem três anos não tem ainda.
11:25Ela hoje vê a foto da mãe, fala que está no céu, minha mãe está lá no céu.
11:31E é uma criança alegre, porque não sabe de nada ainda, né?
11:35Quem assumiu a responsabilidade de criar essa criança?
11:38A minha filha morreu, né?
11:40A outra avó.
11:40Quer dizer, a gente está falando aí de uma criança que se tornou órfão de mãe e de avó também,
11:49por conta dessa obsessão e de uma pessoa que tomou uma atitude de nem pensar na própria filha.
11:58E quando essas pessoas se aproximam da família, Elza, a gente não consegue facilmente identificar esses sinais.
12:05Mas, igual a que a dona Marlete falou, no início do relacionamento eu não fui a favor nem contra, não
12:09sabia exatamente as características.
12:12Como que a gente pode observar esses sinais?
12:14Ó, primeiro é quando a pessoa não tolera a frustração, ele não sabe lidar com o não.
12:19Então, eu não posso, eu não quero, eu não vou.
12:21Depois a pessoa tenta te controlar de todas as formas.
12:24E é um controle velado, assim, ah, troca essa roupa, eu acho você mais bonita com a outra.
12:30Então, ela nunca te valida, ela nunca aceita aquilo que você escolheu.
12:33E a violência, ela tem um ciclo.
12:35Então, é a fase do encantamento, é tudo muito perfeito, depois começa a tensão, o celular toca, a pessoa está
12:41incomodada,
12:41ela começa a fazer perguntas, ela começa a olhar o seu celular, ela começa a te seguir no trabalho.
12:46Aí vem a violência, ele te bate, ele te agride, ele fala com você, ele te proíbe de ter contato
12:51com as pessoas.
12:52E passa aquele ciclo de violência, ele começa a pedir desculpa, me perdoa, ai, eu não queria fazer isso,
12:59eu prometo que eu nunca mais vou fazer de novo, e ele deixa você confuso.
13:03Ele fala, tá vendo, foi você que provocou isso em mim.
13:06Olha que interessante, à medida que a Elza foi falando, a dona Marlete se movimentou aqui e falou assim,
13:11foi exatamente isso que ele fez.
13:12É, ele fazia tudo, e com ela brigava, com ela pedindo, eu vinha pedindo aquela desculpa, que não ia fazer
13:17mais.
13:18Era do porquê, não dava a ele três vezes?
13:21Por três vezes ela aceitou o reatá.
13:22Por três vezes ela separou e voltou, né, de quatro vezes, eu falei, tá, Carina, aí já vira problema.
13:28Será que um jeito de separar de uma vez.
13:30Olha só o comentário que a gente recebeu aqui nas redes sociais, a Márcia Salles Bezerra disse o seguinte,
13:36triste, mas esse caso, né, como a tragédia aí que a gente mostrou, era noticiada, né,
13:40iria acontecer a qualquer momento, agora é conviver com esse remorso.
13:44Ela até comenta que ninguém fez nada para ajudar essa avó, né, ela está se referindo ao caso de Guarapari.
13:52E aí a gente se pergunta, Elza, a família tentou, o filho tentou fazer um alerta, como que as pessoas
14:01ao redor podem tentar ser mais assertivos,
14:05não sei se é essa a palavra, para tentar falar, olha, abrir o olho mesmo de que não, a gente
14:10precisa botar um ponto final nesse relacionamento.
14:13A dona Marlete também tentou.
14:15O ciclo de violência deixa a gente muito vulnerável, confusa, porque a gente acredita, de fato, que aquele homem vai
14:22mudar, tá?
14:23A gente primeiro interpreta o alerta como intromissão.
14:27Então, muitas vezes, existe um conflito familiar depois do alerta, as pessoas se afastam, elas brigam.
14:33Então, às vezes, a família quer sim ajudar, a família traz sim o alerta, mas a pessoa rejeita, a pessoa
14:39nega.
14:39Por quê? Porque ela está muito envolvida, ela está muito dependente daquele relacionamento.
14:44Agora, o que a gente pode tentar fazer é não se precipitar nas nossas decisões, tentar conhecer o máximo possível
14:52as pessoas,
14:53fazer perguntas, fazer quase que uma investigação aí.
14:57Porque o cara era criminoso, foi morar dentro de casa, ou seja, ninguém sabia.
15:01Então, faz pergunta, dá tempo ao tempo.
15:03E depois, se você perceber que tem alguma coisa acontecendo, tenta criar, sim, o alerta para a pessoa.
15:11Olha, eu estou preocupada com você, antes eu percebi que você era mais feliz.
15:15Você sabe que um relacionamento saudável, não precisa ninguém controlar ninguém.
15:18Então, cuidado, minha filha, eu estou aqui sempre por você.
15:22Conta comigo, vai devagar, não se precipita.
15:26A gente tem que fazer a nossa parte.
15:27Agora, a outra parte, às vezes, nem sempre aceita, infelizmente.
15:30E aí, está o final que a gente viu agora.
15:32Gente, obrigada pela participação de vocês.
15:35Eu que agradeço.
15:36Dona Marlete, obrigada pela confiança no nosso jornalismo.
15:40Receba o nosso abraço e conte sempre com a gente.